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Iniciações

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O mais recente romance de Tony Belloto, Vento em Setembro (Editora Companhia das Letras, 2025), começa narrando os preparativos da iniciação sexual de Alexandre, filho mais novo de um truculento e rico fazendeiro do interior paulista. O orgulhoso e confiante pai prepara uma orgia na casa da fazenda, uma festança para dezenas de convidados homens, abastecida fartamente pelas melhores bebidas e comidas, sem falar no pequeno exército de prostitutas arrebanhado dentre as melhores do interior
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e da capital de São Paulo. Como cereja do erótico bolo, Laura, a mais bela de todas as meninas recrutadas e reservada para o noviço a ser iniciado nas artes de Eros. As coisas não correm conforme o planejado pelo fazendeiro, mas eu não vou contar, evidentemente.

Em tempos passados era assim que se dava a iniciação amorosa de muitos adolescentes. Não digo de todos, claro, mas daqueles que tinham um pai que achasse ser seu dever facilitar as coisas para o filho nessa área. Nem todos tinham essa iniciativa, deixando então que tudo corresse livremente, ao sabor do acaso e das oportunidades que surgissem no caminho do jovem. Nesses casos, a iniciação se dava geralmente com uma serviçal da casa paterna ou com uma prostituta; raramente com alguma amiguinha ou mulher independente, de mais idade. Durante a escravatura, por razões óbvias, a iniciadora era majoritariamente uma escrava doméstica, não raro a própria babá do menino, acostumada a lhe dar banho e a outras intimidades.

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Anne Bancroft e Dustin Hoffman em A primeira noite de um homem ▪️ Fonte: iMDb
De comum a todas essas iniciações, a posição hierarquicamente superior do menino-macho sobre aquela que a ele submeter-se-á, de uma forma ou de outra, ressalva feita às raras mulheres autônomas, cujo comando no relacionamento inaugural era indiscutível. A este propósito, lembremos do filme “A primeira noite de um homem”, de 1967, que marcou época. A mulher mais experiente, personagem vivido pela excelente Anne Bancroft, praticamente degusta o jovem e indefeso amigo de seu filho, encenado pelo também excelente Dustin Hoffman. Mas voltemos. Sim, a escrava, a empregada doméstica e a prostituta eram a regra de iniciação no sexo dos meninos de classe média e alta na sociedade brasileira até pouco tempo. Os meninos menos afortunados iniciavam-se com os bichos, principalmente nas áreas rurais, ou entre si, resultando daí a descoberta de não poucas vocações homossexuais. De maneira geral, esse era o quadro vigente até recentemente.

É claro que uma iniciação desse tipo antigo haveria de resultar numa mentalidade dominadora e machista por parte dos meninos e rapazes relativamente às mulheres em geral. Estas, no início e depois, existiam para servi-los, sempre em situação subalterna, não só nas alcovas, mas na vida como um todo: nas fábricas, nas empresas, nos escritórios, nos colégios e nas repartições públicas. O futuro homem incorporava desde cedo a posição de senhor e levava essa
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maneira de pensar e agir para a sociedade, para a vida social, perpetuando assim a machista cultura ancestral. Evidentemente que existiam exceções, ou seja, aqueles que, mesmo que iniciados sexualmente como dominadores, evoluíam para potencialmente admitir as mulheres em situação de igualdade – ou quase. Exceções, sim, pois não esqueçamos a sábia frase do poeta inglês William Wordsworth, às vezes equivocadamente atribuída a Machado de Assis: “O menino é o pai do homem”.

Sim, o menino é o pai do homem. E como não haveria de sê-lo, se as experiências da infância, boas ou não, são as que mais se impregnam na alma da gente para sempre? Quanta coisa ruim poderia ser evitada se as infâncias fossem melhor cuidadas, se as crianças, meninos e meninas, recebessem mais atenção e mais amor.

No romance de Tony Belloto, que ganhou o Prêmio Jabuti de 2025 em sua categoria, o adolescente Alexandre simplesmente desaparece da festa organizada pelo pai, como que recusando implicitamente a dádiva ofertada na atraente pessoa de Laura, vítima sacrificial, talvez não
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de todo inocente, no altar da milenar arrogância masculina. Esse rapazinho diferenciado de seus irmãos mais velhos, todos machões, e de seus amigos idem, não aceita aquela iniciação imposta e artificial, onde tudo lhe foi entregue de bandeja e na qual, de seu ponto de vista pessoal, a vítima sacrificial seria ele e não a prostituta bonita.

Hoje, sabemos, a coisa mudou muito. Em bom número de casos, as iniciações dos meninos são feitas espontaneamente com namoradinhas e coleguinhas de colégio e de prédio. Se brincar, mais sob o comando delas do que deles, pois é fato estatístico que as meninas contemporâneas estão mais espertas que os garotos.

São muito positivas essas mudanças no ritual de iniciação amorosa. Os novos ritos haverão fatalmente de gerar homens mais respeitosos com relação às mulheres, agora já não vistas como submissas nem como meros objetos do prazer masculino. Confio, portanto, num futuro mais promissor e igualitário para as relações de todo tipo entre os gêneros. O menino continua sendo o pai do homem, não há dúvida, mas agora o menino é outro.

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