15 de novembro de 1967.
Hospital e Maternidade Sinhá Carneiro.
Pombal, alto sertão da Paraíba.
Hospital e Maternidade Sinhá Carneiro.
Pombal, alto sertão da Paraíba.
Enquanto aguardava o efeito da injeção que levaria Ione ao parto — um tanto atrasado — em que nasceria Andréia, o médico, Dr. Atêncio Bezerra Wanderley — meu amigo, tio de minha mulher, o homem mais culto que conheci — e de quem fiz esse busto de bronze (abaixo), depois que se foi, disse-me:
Busto de Dr. Atêncio Bezerra Wanderley, cirugião e ex-prefeito de Pombal (PB) ▪️ Arte: WJ Solha
– Não tenho coragem.
– Que escritor você acha que vai ser, se se recusa a uma nova experiência como essa?
Raskolnikov. Entre os muitos gigantes da literatura que eu vinha lendo, estava Dostoiévski e, claro, seu romance Crime e Castigo, em que esse estudante pobre, mas com ambição de grandeza, pergunta-se: “Um... Napoleão hesitaria em matar minha velha agiota?” Mata-a e mata, também, uma inesperada testemunha do assassinato.
Fui ver a operação.
Lá estava um cara já anestesiado, numa mesa com os braços abertos em apoios como os da trave de uma cruz. Bastou-me ver algumas camadas da carne aberta quando o bisturi fez a cisão (“Raskolnikov” provém de “raskolnik” — cisão, cisma); minha cabeça rodou. O doutor me disse, a voz um tanto abafada pela máscara branca:
– Saia um pouco, respire fundo e volte.
GD'Art
Bom,
Mal fui transferido pelo Banco do Brasil, de Pombal para João Pessoa, escrevi meu primeiro romance, Israel Rêmora, Prêmio Fernando Chinaglia 1974, Editora Record, 1975. De lá para cá, uns dez outros romances — alguns também premiados —, uma dezena de poemas longos, algumas peças de teatro, libreto de uma ópera, de um oratório, ensaios e, numa das visitas que o doutor me fez, dei-lhe mais um de meus trabalhos publicados... e lhe perguntei:
– De todos os meus livros, de qual o senhor gostou mais?
E ele:
— Nunca li nenhum.









