Buscar assunto na falta de assunto é uma das maiores artimanhas de quem escreve. Certa madrugada lembrei de um tempo em que assinava coluna...

E por falta de assunto…

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Buscar assunto na falta de assunto é uma das maiores artimanhas de quem escreve. Certa madrugada lembrei de um tempo em que assinava coluna fixa no caderno de cultura do jornal A União.

Como o jornal circulava (ainda circula) seis vezes por semana, eu, Antônio Costa e William Costa dividíamos a coluna, cada um escrevendo dois dias da semana.

Eu escrevia de tudo, para ocupar aquele espaço: crônicas, resenhas, artigos...Danado era quando faltava assunto.

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Cedo da manhã, logo após passarmos instruções para nossa equipe na redação, íamos (eu e William) para o arquivo do jornal. Lá, sentávamos diante de uma mesa enorme, com uma máquina datilográfica, uma carteira de cigarro, uma garrafa de café e dezenas de folhas de papel.

Cada um de um lado da mesa. Ficávamos em silêncio. Só o barulho da máquina datilográfica e a fumaça do cigarro no ar. Começávamos o texto, parávamos, respirávamos, rasgávamos o papel, começávamos de novo.

Às vezes Luzia entrava na sala para pegar algum jornal antigo para consulta de algum pesquisador que tinha ido ao jornal. Apenas olhávamos para ela, que respeitava nosso silêncio e concentração. Dezenas de minutos depois, tínhamos o texto pronto. Relíamos para nós mesmos, ainda em silêncio. Satisfeitos (ou não), levantávamos em direção à redação, para entregar as duas laudas ao diagramador. A criança tinha nascido. O texto estava pronto.

E, graças a essa lembrança, enrolei vocês com minha falta de assunto até aqui.

Mas já que o assunto do momento são as convenções… Elas findas, agora é com nós. Ou com as urnas.

Quando vejo a empolgação da grande maioria do povo nessa época eleitoral, chego a conclusão de que o Brasil não é o país do futebol. Mas o país da política. Ou da politicagem, né?

A velha história das cores dos cordões.

Daí lembro que uma vez ganhei, de um amigo escritor, uma camisa de presente. Era um mimo que me fazia em agradecimento por coisas que tinha feito por ele em outras eras.

Acontece que a camisa tinha a cor da coligação derrotada na eleição que tinha acabado de se encerrar, e ainda estava fresquinha na memória os embates de dois meses antes.

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Acontece, também, que eu trabalhava para o governo que havia derrotado a coligação que representava tal cor da camisa.

E aí fiquei com aquele presente inútil no guarda-roupa por mais de ano.

Se usasse no trabalho, seria olhado com desconfiança pelos aliados do governo de plantão e eu não ia aguentar calado.

Sim, no Brasil a política é feita de cores, mas o povo continua vivendo em preto e branco.


Linaldo Guedes é mestre em ciências da religião, jornalista e poeta
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