Ano de 1962. Do ambiente colegial do Liceu Paraibano, ingressava eu no Curso de Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da...

Virginius, um lord professor

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Ano de 1962. Do ambiente colegial do Liceu Paraibano, ingressava eu no Curso de Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. O Liceu já era um colégio aberto, diferente dos demais, geralmente de orientação religiosa, mas entrar na FAFI, como a chamavam os estudantes, abria uma fonte de expectativas para mim. Estava curiosa de tudo, ainda que a timidez me mantivesse quieta à espreita dos novos momentos.
Professores se sucediam na mesma sala de aula. Não éramos andarilhos, como são hoje os universitários que se deslocam de salas, até de prédios, para cada aula. Distribuíam eles o programa da disciplina, bem como a bibliografia sugerida para os estudos.

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Um dia, porém, um forte aroma de Lancaster, uma colônia masculina usada na época, se antecipou à entrada do professor de Teoria Literária e Literatura Portuguesa. No rastro do perfume, um homem surpreendente acomodou-se ao bureau.Um colega cochichou-me: “este é o crítico literário Virginius da Gama e Mello. Tem até uma coluna em jornal do Recife.”

Sim, surpreendente. Pensei: escapou de algum romance. Vestia um impecável termo de linho branco, gravata ajustada ao colarinho, sapatos de duas cores (traço já considerado meio anacrônico, mas que não maculava, até personalizava sua elegância), óculos quadrados de grossas lentes, sobre as quais pendiam eventualmente fios lisos de sua cabeleira farta, escura, de corte reto.

Seu primo Juarez da Gama Batista, destacado professor de Literatura Brasileira, em prefácio que fez para o livro de Virginius “O Alexandrino Olavo Bilac”, comparou-o ao misterioso personagem Lord Jim, de Conrad. Disse ele: “Toda vez que vou encontrando Virginius da Gama e Mello vem-me à lembrança a figura longínqua de Lord Jim, de Conrad. É nele que me ponho a pensar agora, é êle que novamente me ocorre com uma energia de imagem dominadora, ...

Por isso, deixo-me fiar pensando no meu súbito Lord Jim errante e solitário, quase uma aparição, e a compará-lo devagar com o primo Virginius, procurando desvendar o seu segredo – um segredo que há de ser dos dois”. Mais adiante, no mesmo prefácio, realçou semelhanças entre o crítico ensaísta e o poeta parnasiano Olavo Bilac, dizendo: “...os óculos do primo Virginius também funcionam assim para os seus contemporâneos: sem lhe tirar as simpatias, nem ofuscar-lhe os afetos. Mais um ponto de identidade do crítico com uma das faces da sua temática – com a figura humana do poeta.”

Juntava-se a essa elegância e fidalguia um temperamento cordial, alegre, cheio de entusiasmo pela vida e pelo seu ofício de estudioso e crítico da literatura. Entusiasmo que lhe conferia carisma de grande comunicador, assentado em profundo conhecimento do seu metièr. Seus comentários me fizeram admiradora imediata de Eça de Queirós.

Suas explanações deixavam bem claro o domínio do texto, comentando-o com um entusiasmo que induzia o alunado à leitura
Muitas vezes, na sala de aula, percebia sua posição de encantamento pelo que falava, de olhos fixos na paisagem que se descortinava da janela.

Frequentava a sala dos professores, nos intervalos, tomando cafezinho enquanto conversava com colegas e alunos, que dividiam sua simpatia.

Não se continha em ser só professor. Era um animador cultural. Enveredou por vários gêneros, o teatro, o cinema, além da crítica, da história e do ensaio literário. Entre os seus trabalhos, destacam-se: "A Vítima Geral"; "Tempo de Vingança"; "A Modelação"; "O Alexandrino Olavo Bilac"; "O Romance Nordestino e outros ensaios"; "Atualidade de Epitácio"; "Caxias"; "Estudos Críticos – 1º e 2º volumes"; "Verbo e Imagem" e "Lampião, o Senhor do Sertão".

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Não aderiu ao criticismo textual da invasão científica no campo do estudo literário. Possuía, na sua investigação, uma metodologia que se fundava no conhecimento filosófico e das humanidades. Suas explanações deixavam bem claro o domínio do texto, comentando-o com um entusiasmo que induzia o alunado à leitura, à análise e ao prazer de conhecer a teoria literária.

As avaliações se faziam informalmente, pois não aplicava as costumeiras provas.

As atividades do ensino não o isolaram do convívio social. Terminado o expediente, esticava a conversa no hall da Faculdade, de onde se deslocava para a Churrascaria Bambu, quando fechava as manhãs em companhia de alguns amigos, não fazendo distinção entre eles, pois convivia igualmente com todos.

Já que me referi à Churrascaria Bambu - bar e restaurante, ressalto a sua importância como espaço de convivência que marcou uma época na vida do pessoense, com seu ambiente acolhedor, circundado pelo bambual que ambientava a Lagoa do Parque Solon de Lucena.

Caminhar hoje pela rua Duarte da Silveira, ao lado da Igreja Batista e diante do prédio da antiga FAFI, atualmente Colégio Estadual Olivina Olívia Carneiro da Cunha, me traz sempre à memória a leve e marcante lembrança daquele Lord Jim, figura luminosa, de alva vestimenta e sorriso fraterno.

Mestre em Literatura Brasileira e Professora aposentada do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, da Universidade Federal da Paraíba.


Raquel Nicodemos Costa é mestre em literatura brasileira e professora
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  1. Um texto claro e objetivo, vindo da alma. Parabéns, Profª Raquel Nicodemos Cost! Bela homenagem,👏👏👏

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  2. Belo texto, Raquel! Eu conheci de longe Virginius da Gama e Melo, justamente nas noitadas da Bambú. Esta era uma faculdade da vida, um bazar de celebridades. Todas fascinantes para o rapazinho que eu era.
    Isso mesmo: belo texto, que me fez despertar evocações distantes...

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    1. Caro Zé Mário. Infelizmente você não teve oportunidades de cursar a Universidade da Bambú, como outros mais velhos. Mas suas lembranças dessa figura são muito reais.

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