Eu não gosto da junção de palavras que, por força do uso, da repetição, dissemina o lugar-comum, o já lido e relido, os clichês, os chavões...

Mostruário Persa, de Letícia Palmeira

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Eu não gosto da junção de palavras que, por força do uso, da repetição, dissemina o lugar-comum, o já lido e relido, os clichês, os chavões, o dejà vu. Antes, gosto dos paralelos insólitos, das palavras ou dos temas que só aparentemente se repelem. Enfim, gosto da poesia e da ficção que guardem uma certa semelhança com a loja de belchior do conto do “Bruxo de Cosme Velho”, onde convivem objetos heteróclitos, desencontrados, mas que se compõem e se complementam: panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, caixilhos, binóculos, um cão empalhado, dois cabides...*

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Guardadas as devidas proporções, “Mostruário persa”, de Letícia Palmeira, mantém alguma consonância com a diversidade de mercadorias exposta na loja de belchior machadiana. Senão, vejamos o que escreve a autora na apresentação do livro: “Xícaras antigas e com esmero bordadas pelas mãos calejadas das artesãs do mistério, espelhos mágicos que refletem alma e do físico se esquecem, chapéus de todo tipo para esclarecer pensamentos, pulseiras multicoloridas para enfeitar os braços das moças que ainda acreditam”.

Tudo isso e muito mais, Letícia expõe no seu armarinho, mostruário ou loja de belchior, sem contar que os objetos são revestidos de uma aura de sortilégios, a exemplo dos “chapéus de todo tipo para esclarecer pensamentos”.

Já quando afirma que os espelhos mágicos esquecem o físico para refletir a alma, ela antecipa que os seus textos híbridos, mescla de poema e prosa, revogam o enredo para dar primazia a uma espécie de peripécia interior, subjetiva, de um pervago lirismo elevado à milésima potência.

As mulheres não só participam ativamente do contexto literário como também combatem o quê de ainda patriarcal existe
Um dos recursos estilísticos de Letícia Palmeira consiste em consorciar palavras antípodas entre si, no que cria um clima de estranhamento para o leitor, conforme podemos verificar nos exemplos – entre muitos – a seguir citados:

“No diabético vício da língua”, “Desabotoar minhas intrigas”, “É a haste que me adjetiva”, “E cora o tempo a declarar satisfações”, “Vozes estéreis copuladas in vitro”...

Como já observei a propósito da poesia de Élvio Vargas e de Felipe D’Castro, os paralelos insólitos de Letícia Palmeira talvez se assentem na necessidade humanística de aproximar os contrários para eliminar as diferenças.

E qual a razão de considerar poemas em prosa os textos reunidos em “Mostruário persa”? Simplesmente pelo fato de “o termo poema dizer respeito à matéria (poesia) e o segundo, à forma (a disposição graficamente tradicional da prosa)".

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Letícia Palmeira
Mas não só isso, pois convém registrar ainda que o poema em prosa se distingue da crônica ou do conto, já que os dois últimos, mesmo quando poéticos, não dispensam o episódico, o narrativo e o enredo, tríade ausente nos textos de Letícia Palmeira, que, quando muito, apenas esboçam, subjacentemente, o embrião de uma trama logo diluída pela atmosfera peculiar ao gênero lírico.

Ainda bem que hoje, diferentemente dos tempos idos e mal vividos, as mulheres não só participam ativamente do contexto literário como também combatem o quê de ainda patriarcal existe no comportamento dos homens brasileiros, inclusive no de alguns escritores. Foi-se a época em que a autora de “Éramos seis”, por força das circunstâncias, assinava os seus romances como Sra. Leandro Dupré – anteriormente, já adotara o pseudônimo Mary Joseph –, somente assumindo a identidade própria** anos depois, quando finalmente passou a grafar o nome Maria José Dupré.

Letícia Palmeira, Maria Valéria Rezende, Ana Adelaide Peixoto, Jennifer Trajano, Aline Cardoso, Anna Apolinário, Mirtes Waleska Sulpino, Débora Gil Pantaleão, Isabor Quintiere, Débora Ferraz, Mayara Vieira, Regina Celi, Liziane Azevedo, entre outras – listo, apenas, as que recentemente se iniciaram nas lides literárias –, demonstram o quanto a presença da mulher é maciça no âmbito da poesia e da ficção produzidas no estado da Paraíba***.

* Refiro-me ao conto “Ideias de canário”, de Machado de Assis.
** Apenas parcial, pois o nome de solteira é Maria José Fleury Monteiro.
*** Cito, apenas, as que já publicaram livro.



Sérgio de Castro Pinto é doutor em literatura, professor e poeta, membro da APL
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