Thomas Edison não era considerado um cientista. Na Matemática, o engenhoso inventor norte-americano somente dominava as quatro operações d...

A primeira voz gravada no Brasil

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Thomas Edison não era considerado um cientista. Na Matemática, o engenhoso inventor norte-americano somente dominava as quatro operações da aritmética. Também não tinha proficiência nos fundamentos da Física. Apesar dessas aparentes deficiências, Edison possuía uma extraordinária capacidade de observação que lhe permitia aperfeiçoar ideias, suas e dos outros, dando-lhes aplicação prática. Em seu laboratório de Melon Park, em Nova Jersey, ele comandava um grupo de habilidosos técnicos em vários ofícios. De lá saíram mais de duas mil patentes de engenhocas diversas, muitas delas incorporadas, até hoje, ao nosso cotidiano.

Em agosto de 1877, o "Mago de Melon Park", como Edison era chamado, conseguiu gravar, pela primeira vez, a voz humana em um cilindro feito com uma folha de estanho. O imaginário da captação e preservação dos sons já existia, em narrativas gregas, desde tempos remotos. No século 16, o escritor e médico francês Rabelais em seu livro "Pantagruel", idealizou uma narrativa em que palavras eram congeladas no gelo que, ao derreter, permitia que fossem ouvidas, o que ocorria, também, com sons de tambores, clarins e trombetas.

No ano seguinte ao do experimento da gravação da voz, ao patentear o seu invento — que foi designado como fonógrafo, Edison listou dez aplicações possíveis para o equipamento. A primeira delas seria nos escritórios, para ditar cartas. A utilização do dispositivo para a reprodução de músicas ficou em quarta posição em uma relação de usos que o aparelho poderia ter.

Depois de obter a patente da "máquina que fala", Edison deixou um pouco de lado o desenvolvimento da sua invenção, talvez por não acreditar que ela tivesse uma grande perspectiva comercial, passando a concentrar-se em outros projetos, como o da lâmpada elétrica incandescente. Na mesma época, um equipamento similar, mas com outro processo de gravação, foi desenvolvido por Emil Berliner, alemão radicado nos Estados Unidos, recebendo o nome de gramofone.

José Ramos Tinhorão menciona uma exibição que teria ocorrido em 1879, no Rio Grande do Sul, de uma “máquina falante”, “que guardava os sons por muitos anos” e que seria uma cópia do fonógrafo de Edison. Contudo, esse fato, relatado por um pesquisador gaúcho, carece de comprovação. O que se pode afirmar, com base nas fontes documentais disponíveis, é que um modelo aperfeiçoado do equipamento do inventor norte-americano somente chegaria ao Brasil no final de 1889.

Após fazer a demonstração do fonógrafo na Exposição Universal de Paris de 1889, por solicitação de Edison, de quem se tornara amigo, o brasileiro Carlos Monteiro e Souza, ao voltar para o Brasil, solicitou uma audiência ao Imperador Pedro II para apresentar o aparelho à família imperial.

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A audiência, realizada no dia 9 de novembro de 1889, seis dias antes do golpe militar que derrubou o monarca e instaurou a República no país, está registrada na edição número 221 da Revista de Engenharia, publicada no Rio de Janeiro em 14 de novembro:

“Concedida ella (a audiência) para as 6 horas da tarde, a essa hora estava armado o apparelho em uma das salas do dito paço (imperial), onde se achava o Imperador, acompanhado da Imperatriz, da Princeza Imperial, de seu augusto consorte e do Principe D. Pedro Augusto. Havendo dito S. M. o Imperador que desejava verificar com um phonogramma do Sr. Visconde de Cavalcante, se há semelhança entre a voz de quem falla e a que é reproduzida pelo apparelho, foi satisfeito seu desejo, ouvindo-se logo em seguida outro phonogramma do Sr. Conde de Villeneuve [...] Declarou sua Magestade que em ambos era perfeita a semelhança”

Durante a reunião, em que foi demonstrado o fonógrafo, o Conde d'Eu, marido da Princesa Isabel, comentou que a invenção era muito boa mas que acreditava que não teria aceitação porque as pessoas pensariam que aquilo seria coisa do diabo ou do outro mundo. Não imaginaria o Conde que aquele aparelho, ainda rudimentar, seria o responsável por uma das maiores revoluções culturais que iriam ocorrer no mundo.
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Mas, o que se conclui, de forma incontestável, do registro da audiência concedida por Pedro II no paço imperial, é que o Visconde de Cavalcanti foi quem fez a primeira gravação de voz, devidamente documentada, no Brasil.

Quem era o Visconde de Cavalcanti, que privava do convívio íntimo com a família imperial? Chamava-se Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque. Apesar de alguns historiadores paraibanos elegerem outros nomes, concordamos com a opinião do médico e historiador Maurílio de Almeida, para quem Diogo Velho foi o paraibano de “maior projeção política no tempo de D. Pedro II”.

Diogo Velho nasceu na Fazenda Chaves, no município de Pilar, em 1829. Bacharelou-se pela Academia de Olinda em 1852. Fez parte da Assembleia Provincial da Paraíba em duas legislaturas e foi deputado geral em três. Foi escolhido senador pelo Rio Grande do Norte numa época em que aquela então província só tinha um único representante no Senado e o cargo era vitalício. Foi 1º Vice-Presidente da Paraíba e Presidente das Províncias de Pernambuco, Piauí e Ceará. Ocupou os Ministérios da Agricultura, dos Negócios Estrangeiros (hoje o das Relações Exteriores) e o do Interior e da Justiça. Foi nomeado Conselheiro de Estado e, por decreto de 1888, tornou-se Visconde.

Como senador, um dos mais importantes projetos apresentados por Diogo Velho foi o que tratou da propriedade autoral e artística das obras, iniciativa que teve repercussão internacional, sendo objeto de matéria no jornal francês "Le Figaro". Também a concessão de patentes de invenção foi objeto da sua atuação parlamentar.
Entre os principais benefícios creditados a Diogo Velho na Paraíba, na condição de administrador, estão a construção da antiga Estrada de Ferro Conde d'Eu, trecho de Cabedelo a Alagoa Grande, e a ligação telegráfica com o estado de Pernambuco.

Como ocorre costumeiramente nas mudanças de poder, uma vez instituída a República muitos monarquistas se tornaram republicanos do dia para a noite. Diogo Velho, fiel à monarquia, com a instalação do novo regime, abandonou a política e mudou-se para Paris, acompanhando Pedro II no exílio. Em 1891, ele estava presente, no hotel Bedford, na capital francesa, nas últimas horas de vida do imperador. Durante sua permanência em Paris, o Visconde de Cavalcanti publicou, em 1896, a monografia “Notice générale sur les principales lois promulguées au Brésil de 1891 a 1894”.

Doente e praticamente sem visão, Diogo Velho retornou ao Brasil, tendo falecido em 1899 na “chácara de Mariano Procópio” (propriedade de um primo da sua esposa), em Juiz de Fora-MG. O local foi transformado no museu da cidade, onde um dos salões tem o nome da Viscondessa de Cavalcanti, que foi grande doadora para o acervo da instituição. Diogo Velho é patrono de cadeira na Academia Paraibana de Letras e dá nome a rua no centro da capital da Paraíba.

Dois anos depois daquela demonstração do fonógrafo para a família imperial, desembarcava, em Belém do Pará, Frederico Figner, natural da Boêmia (atual República Tcheca), de origem judia, propagandista da "máquina falante" de Edison e que, anos depois, se tornaria, conforme Ricardo Cravo Albin, “o responsável pelo início da história da música popular brasileira gravada”. Segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, Fred Figner (como ficou conhecido), de Belém foi para Manaus e, em seguida, viajou de navio, exibindo o fonógrafo em várias capitais, entre elas a da Paraíba. A informação sobre a presença de Figner em terras paraibanas, fazendo a primeira demonstração do aparelho de Edison no estado, foi dada a Tinhorão pela filha de Figner.

Após a exibição de Figner, as demonstrações do aparelho na Paraíba continuaram nos anos seguintes, como se constata do anúncio publicado, em 1 de junho de 1895, no jornal "A União", da capital paraibana:


“A maravilha do seculo – O PHONOGRAPHO – A machina que falla – BENICIO A. SOUSA, proprietario da machina que immortalisou o sublime electricista-Edison, pretende seguir brevemente para a Capital do Rio Grande do Norte; e por isto previne ao respeitavel publico d’esta cidade que só se demorará aqui muito poucos dias! O publico não deve perder a occasião de ouvir o inspirado duetto do Guarany;
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de extasiar-se diante da palavra rubra de oradores notaveis como José Mariano, Phaelante, etc. Quem ouvir o phonographo tem ouvido a ultima palavra do maravilhoso seculo que vaiá extinguir-se. COMOLETTE NA PARAHYBA!! Alem das peças mencionadas, há tambem apanhados lindos concertos musicaes, operas, cantos e outras cousas dignas de ser apreciadas. Acha-se á exposição das 6 horas da tarde em diante no andar terreo do sobrado n.46, á rua da Baixa, para onde se poderão dirigir as Exmas. Familias e os illustres cavalheiros”

No anúncio, observa-se a divulgação de reproduções de gravações de vozes de figuras da região, como as dos tribunos pernambucanos José Mariano e Phaelante da Câmara e a do barítono Guglielmo Comolette, radicado no Recife. As exibições do fonógrafo realizadas na Paraíba faziam parte, algumas vezes, de apresentações insólitas e inacreditáveis, como a que foi anunciada, em 22 de maio de 1897, também no jornal "A União":

“Surprehendente novidade Hoje! Hoje! Estréa hoje, na casa n.68 da rua Duque de Caxias, um interessante grupo de papagaios sabios, composto de 25 artistas, sob a direcção do professor Antonio Bonour, onde serão exhibidos pelos mesmos papagaios cousas maravilhosas e admiraveis. Acha-se tambem em exposição um phonographo de systema mais aperfeiçoado, que será dado á ouvir á pessoa que tiver ingresso para ver os trabalhos dos papagaios”

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  1. Que texto mais interessante! Não sabia que Diogo Velho era dado a novidades rsrsrsrs. Parabéns pelo rigor no levantamento de dados e produção de um texto agradável. Essas características não precisam andar separadas, pelo contrário, a chatice é patrimônio dos chatos e não do conhecimento histórico. Acontece que tem muitos chatos rondando a área rsrsrsrs. Parabéns.

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  2. Mais um excelente artigo ! Pesquisa histórica perfeita !

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  3. Bravo!!!Flávio Ramalho Brito!! Super texto👏👏👏
    Parabéns👏👏👏👏👏
    Paulo Roberto Rocha

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  4. Texto muito bom!Parabéns!

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  5. Flávio Brito e sua bateia de ouro atacam novamente!
    Mais um excelente texto, produto de pesquisas inimagináveis!
    De onde você tira esses segredos perdidos no tempo?!
    Parabens!

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