Os frutos sedosos vinham carregados na cesta de vime. O portão de nossa casa rangia. Ela vencia cada degrau com sacrifício: os joanetes...

Os abacates de Ernestina

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Os frutos sedosos vinham carregados na cesta de vime. O portão de nossa casa rangia. Ela vencia cada degrau com sacrifício: os joanetes a forçá-la em cuidados, as pernas trôpegas. Mamãe acolhia a vizinha da frente, a do bangalô elegante. O sorriso sonoro de d. Ernestina, a alegria em presentear-nos com os abacates cultivados no quintal de sua moradia.

Casada com seu Carlos, trabalhava ela nos “Correios e Telégrafos”, quando estes demoravam instalados no lindo prédio da praça Pedro Américo.
Uma mulher simples, cativante, liberta. Sentada no terraço, o rádio de pilha sobre o avental, escutando o rádio transistor. Nunca tivera filhos. O marido já aposentado, vestindo um paletó invariável, fechado, caladão, somente de cumprimentos rápidos. E protegendo a careca com um ramenzoni bem cuidado que o portador não deixava quieto, sempre se descobrindo e cobrindo a cabeça. Um tique que se lhe incluía na personalidade enigmática.

Mas, voltemos aos abacates: amassados e peneirados eram a delícia do pós-almoço. As crianças apostávamos: aquele que terminasse de consumir por último a pasta verde depositada num prato de ágata seria o vencedor. Cada qual que se contivesse, porque o paladar exigia fortemente. Era um divertimento. As tias reclamavam de nossas brincadeiras ingênuas. E nós medindo cada colherada. Muitas vezes, eu não tinha paciência e raspava o prato, mesmo que fosse alvo de chacota.

D. Ernestina simbolizava a amiga sem subterfúgios, sincera, pronta e solidária. Foi madrinha de crisma de uma prima minha, Vitória, já falecida, o que confirmou o entrelaçamento afetivo entre nós. Contava histórias interessantes, abria sua vida privada, em desabafos de confiança. Nem uma rusga, nem um sinal de desavença houve entre nós. No dia em que anunciou sua saída da rua, por motivos particulares, ficamos transtornados, querendo retê-la e quase sem acreditarmos.

Lamentei a mudança de d. Ernestina. Pensei nos abacates sedosos que ela nos trazia com tanta satisfação.

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  1. Boa crônica!!!..José Leite Guerra👌Adorei👋
    Paulo Roberto Rocha

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