Para Ricard Ele escolheu praticar a difícil arte da escuta. Desde que a porta do consultório se abria até lá pras tantas da noite...

O pincel e o punhal

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Para Ricard

Ele escolheu praticar a difícil arte da escuta. Desde que a porta do consultório se abria até lá pras tantas da noite, naquele cenário desfilavam uma profusão de palavras, muitas delas entrecortadas por lágrimas, risos, gagueiras e silêncios atrozes.

Ele a tudo ouvia. Digerir palavras é arte para poucos. Palavras que se soltam às vezes desesperadamente como punhais, às vezes deliciosamente como pinceis.

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Cottonbro
Ele a tudo ouvia, pensando quantas daquelas palavras poderiam ser as dele mesmo. Quantas palavras não foram desejadas e mesmo proferidas em boas horas com os pulsares do coração. Quantas daquelas palavras nunca deveriam ter sido por ele ouvidas, palavras sangrando como bílis, palavras que deveriam ser regurgitadas e nunca mastigadas e nunca digeridas.

Ele a tudo ouvia. Eram jovens, cujas palavras ainda estavam verdinhas, truncadas e repetidas como a vida solta e inconsequente bailando dentro daqueles corpos ainda sem as marcas do tempo. Eram mulheres em busca daqueles amores de sessão da tarde. Amores de Cinderelas e príncipes que nunca vinham. Mulheres de um feminino roubado por tantos rasgos do masculino quase sempre vadio e tóxico. Mulheres que choravam seus destinos esgaçados pela tripla condição de mãe, esposa e gerente da vida dos outros. Eram também homens, estes menos. Homens que já não suportavam o peso daquela armadura do masculino que não se emociona. Homens que sofriam pelo excesso de ser masculino quando a descoberta do feminino neles se fez.

Como um ritual, ele chegava cedo na sala. Abria as janelas para iluminar o espaço, verificava sua agenda da manhã e preparava um chá à base de tangerina. Observava a mesinha das lamentações, sempre com lenços à postos e um abajur de luz de pôr-do-sol. Não costumava ler as fichas daqueles que já já chegariam. Para ele, as palavras eram sempre novas, mesmo as repetidas. Ele as tragava com a paixão de um fumante daqueles fumos raros que empesteiam a sala de aromas tal qual incenso. Tomava sua caneca de chá, sentava-se naquela poltrona que já se amoldara ao seu corpo de tal forma acolhedora como um só corpo. Fechava por segundos seus olhos e respirava. Quase uma meditação. Um assentamento para acolher o que o outro lhe traria, como a um espelho que se limpa com frequência. Ele mesmo um espelho tanto de imagens quanto de ecos. Sim, era preciso que aqueles outros se escutassem e se vissem pelas suas próprias palavras, por aquele conjunto de sentidos e emoções, de falhas e vieses tantos.

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Cottonbro
A porta logo iria se abrir. Ele estaria ali, conduzindo seus falantes ao difícil mergulho no mais fundo de si.

Muitas palavras soavam como setas velozes atravessando as carnes e vísceras do que nunca deveria ter sido dito. Palavras-punhais. Singravam a pele, sangravam a pele. Às vezes saiam como a ferocidade do pulo de um tigre à sua presa. Outras, se enrolavam tal qual novelo de arame farpado no fundo da laringe, ferindo a glote, a língua e o palato. Eram palavras de sague e dor. Muitas vezes, de tão acúleas, penetravam a carne sem sangrar. Feriam por dentro, dando a impressão que nada houve. Não deixavam cicatrizes, mas infeccionavam as profundezas, numa dor que voltava em forma de repetição e angustia.

As palavras-punhais são facas de sushiman. Deslizam no seu corte de significados nunca escapando do controle. São precisas e pensadas. Têm claro objetivo e neles raramente resvalam para outros sentidos.

Há palavras-punhais que são trinchetes, quase sempre rombudos. Servem para descarnar palavras que nunca deveriam ser ditas, mas que pularam da boca como pipoca da panela. Depois de ditas mostram os ossos à superfície. Trazem risos nervosos ou mil desculpas por terem sido ditas. Nunca são mal-ditas, porém semi-ditas. Para ele, quase sempre bem-ditas.

Há palavras-punhais que são serrotes. Vão e vêm num ritornelo que nunca cessa. São mágoas antigas, repetições remoídas e vivências labirínticas. Trazem o prazer do que nunca acaba e do que nunca deveria ter começado. Uma serra de mil toras de madeira que se alimentam do próprio ato de atravessamento de duras superfícies e uma profusão de pós e lascas.

Há palavras-punhais que são foices. Lâminas curvas que ceifam o vivo para que a vida se renove. Há que se ter grande habilidade no uso de palavras-foice. Escapam feito assovio matando este outro que se odeia, mas também se deseja. Por ser curva, visa a palavra-foice também se ferir mortalmente. São as palavras que nunca poderiam ter sido ditas, as que calejam as mãos de quem as diz.

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Cottonbro
Como um jardineiro, ele tomava as palavras-punhais com zelo, limpando as feridas, cerzindo os cortes e aplacando as dores.

Mas há palavras-pinceis. Palavras-cerdas soam como um romance antigo. Impressionam a superfície com algumas ranhuras e imperfeições próprias do tempo do desgaste. De longe parecem traços lisos e uniformes. Visto de perto, revelam suas imperfeições e certo caos. São significantes dúbios, assim como o é a vida cotidiana, lisa na superfície, rugosa na profundidade.

Há palavras-pelo-de-marta, suaves e imprecisas. São as palavras dos amantes, são termos da incompletude, da busca pelo outro, este outro do amor romântico, da plenitude da vida dividida. São palavras do impossível, das quimeras dos buscadores do felizes-para-sempre.

Há palavras-chanfradas, enviesadas e duplas. São os gemidos do entrelace dos corpos suados de prazer, dos sussurros que eriçam pelos e pele. São tanto lâminas quanto maciez num mesmo pincel. Para estas, não há superfície que se possa cobrir de cores, não há paz, pois não há término. Como um mago, ele abrigava as palavras-pinceis com a sabedoria de quem ver no outro um despertar do novo.

Assim corriam os dias para ele. Habitado por tantos punhais, por tantos pinceis. Assim eram suas noites. Ele mesmo, um ser do silêncio, mas por outro lado, das palavras. Suas palavras que eram as palavras do mundo. As palavras do outro, numa montanha russa de desejos em giros cada vez mais mortais.

Ele dentro de seus tantos mundos. Mundos ferinos como punhais. Mundos leves como pinceis.


Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor
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  1. Salvas👏🏻👏🏻👏🏻Adriano de Léon..belo texto sobre a psicologia do ouvinte das palavras/ pinceis!!!
    Bravo👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
    E ...aplausos a Germano Romero que abriga e divulga textos de altas qualidades👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
    Paulo Roberto Rocha

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