A pretexto do Natal de luzes falsas, mais de venda que de louvor, sem que se apresente em tempo o ouro dos paus d’arco nem o fervor amoro...

Balduíno e as ilhas da liberdade

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana gonzaga rodrigues arqueologo balduino lelis taperoa itacoatiara pedra inga
A pretexto do Natal de luzes falsas, mais de venda que de louvor, sem que se apresente em tempo o ouro dos paus d’arco nem o fervor amoroso dos abraços (comentávamos isso), José Octávio de Arruda Melo telefona para acrescentar o luto dos visionários com a morte de Balduíno Lélis.

Conheci Balduíno no campo de futebol do Ginásio Pio XI de Campina. Foi no ano que findou a Guerra, tombou o retrato do baixinho da faixa verde-amarela passada nos peitos, Félix Araújo chega herói entre aplausos e lenços brancos aos pracinhas da Paraíba e Luiz Lua Gonzaga anunciava na varanda do Edifício Esial a entrada do baião: “Eu vou mostrar pra vocês / como se dança um baião.”

Acontecia na Praça da Bandeira, e maior que fosse a multidão, eu não me apartava de João Loureiro, Babá de doutor Cruz, Otávio Isidro e Balduíno, escudeiros de qualquer molenga como eu. No campinho do Pio XI Badu só perdia para Cabralzinho, um galego de Alagoinha que, ao surgir Garrincha, eu só me lembrava dele. Era só a quem Balduino respeitava. Gleryston Lucena sabe disso tudo.

Vem a vida, essa variação sem fim, inconsequente, e fui me enturmando em outros pagos e a novos valores, até que lá vem Balduíno, reaparecendo pelas Trincheiras, de parceria com Linduarte ladeando a conversa com o velho Leon Clerot.
Esse velho, que não tem estátua, precursor e primeiro cuidador do que poderia ter sido, desde o governo de José Américo, o Museu da Paraíba. Numa casa velha das Trincheiras, bem depois da João Machado, até fósseis tinha. Peças ditas antropológicas, coisas históricas ou alguidares, moedas, santos, e o retrato de uma condessa da Paraíba. Balduíno nesse meio. Ele, que eu deixara em Campina aprendendo jiu-jítsu e ensinando a atirar, a puxar e rodar o simituesse do jeito que Chico Maria descreve em crônica sobre o Capitólio. Até o chapéu de caubói usava. Ele na sua trilha e eu na minha: Oi, Badu, oi, Gonzaga. Depois, como eu tossia muito, apareceu no jornal me levando um vidro de Bromocaliptus, fórmula de seu fabrico.

Entro no hall da sede central do Cabo Branco e surpreendo Balduino Leles a explicar a teoria do xeroifilismo a Mário Moacyr Porto, Antonio Dias dos Santos, Haroldo Borges, Boto de Menezes, sem qualquer reparo de Celso Mariz, que fazia parte da roda.

Esse homem dos sete instrumentos exilara-se de qualquer outro interesse, sobretudo os pessoais, para se afervorar sozinho com as grandezas da Paraíba. Foi soldado sem fita falando a generais sobre o patrimônio histórico, material e imaterial de toda uma região que ele nucleou em Taperoá. Taperoá era o centro, onde terminou montando uma Universidade Popular. De onde vinha o dinheiro? Não era do governo nem do tráfico de drogas.

Foi levado a sério, muito a sério, por João Agripino, que deve ter ouvido dele, Balduíno, a defesa natural da orla, hoje um bem público e histórico que, no conjunto do país, faz a diferença.

A Pedra de Ingá, cujos estudos de cientistas e instituições não fazem uma menção, a mais simples, ao esforço do seu grande propagandista e batalhador. Sabia das coisas, desde as de museu às da natureza. Chamado por Dorgival a dirigir o Arruda Câmara, lembrou-se que macaco não sabia nadar. E tirou-os da jaula para a liberdade das árvores, cercando-as de água por todos os lados. Eram as ilhas da liberdade.

comente
  1. É muito difícil falar da perda de quem se ama! Ainda mais quando essa perda é um pai! E muito mais quando esse pai é Balduíno Lélis!
    Falar de meu pai é invocar o mundo dos seus sonhos, das suas idéias, das suas quimeras e ilusões! É falar de Taperoá, a sua pátria amada, a terra que ele chamou de Céu! A menina dos seus olhos! E que defendia seu povo quando dizia que os filhos da sua terra não tinha defeitos pois ele tirava e colocava no povo de outras cidades.
    Meu pai era um homem corajoso, destemido, determinado e ao mesmo tempo, um ser humano coberto de ternura e feito de amor! Um homem que doou toda riqueza material para àqueles que precisavam pois para ele a maior riqueza era o amor ao próximo.
    Jamais esqueceremos a lucidez dos seus conselhos, o consolo dos seus braços, o afago de suas mãos e a grandeza de sua alma!
    Meu pai partiu, mas não passará! Não passará o seu talento, a sua sabedoria, o seu exemplo, o seu legado e o amor que irradiava sobre nós!
    Como é triste a realidade da partida e como dói a crudelidade da despedida!
    Mas tudo é lembrança boa, tudo é saudade doce! Por isso continuaremos a inalar sua essência, a beber na fonte da sua sabedoria e a colher os frutos dos seus ensinamentos! Levaremos o seu sonho adiante e todos seus filhos juntos em nosso castelo o qual nos criastes nascerá a Fundação Balduíno Lélis e nela se concretizará os seus sonhos que o tempo impediu de realizar!
    Lembro quando dizias : É melhor viver de ilusões do que morrer de desilusões" Ou quando dizias " Não peça a quem não quer dar e nem dê a quem não quer receber'
    Para nós você é imortal! Você vive e sempre viverá, no encantamento da história que você mesmo construiu! Você vive e viverá em tudo que nos ensinou! Você vive e viverá, no nosso orgulho em tê-lo como pai e mestre! Você vive e eternamente viverá, no nosso coração, na nossa memória, na nossa alma e nos nossos sentimentos mais nobres! Você vive, porque nada conseguirá lhe tirar de nós! E como o senhor mesmo dizia " Eu não vou morrer, eu vou ficar em Taperoá" Esteja em paz meu paizinho!
    Deixo aqui meu muito obrigada ao querido amigo de papai, Gonzaga pela belíssima homenagem que foi alimento pra minha alma nesse momento tão desesperador 😭 obrigada meu querido!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fiquei muito emocionado com seu comentário. Não consegui controlar a emoção. Um beijo no coração!

      Excluir
  2. Somente um Gonzaga (pena não podermos expressar, hoje, sob as penas de um inferno tenebroso, todo o nosso apreço por essa figura das nossas letras, usando o apelido que nos bons tempos das redações movimentadas lhe foi dado, como expressão de nosso apreço, por quem já nos ensinava a arte do jornalismo de então), para fazer um retrato tão preciso do nosso Balduíno, que bem mereceria um título de condestável, quem sabe Barão de Taperoá, se estivéssemos nos tempos imperiais.
    Que dupla nobiliárquica teríamos: o Conde de Aruanda e o Barão de Taperoá.
    É pena que ele seja mais um a nos deixar, em mais uma orfandade que se torna cada vez mais dolorosa, dado o abandono dos marcos histórico-sentimentais da cidade de João Pessoa ou mais apropriadamente Cidade das Acácias, entregues, hoje, e jogados ao léu, pela insensibilidade dos seus governantes.

    ResponderExcluir
  3. A ida de Balduíno para a eternidade me deixou, como a muitos, da minha geração, marcadamente triste.
    O conheci no recinto dos professores da antiga FAFI, pelas mãos do Professor Juarez da Gama Batista, emérito lente e, então, orientador de minha dissertação de mestrado, onde se praticava uma integração marcante entre professores, alunos e personalidades de nossa cultura, que por ali pontuavam.
    Dotado de uma personalidade que se sobressaia, irradiando espontaneamente uma visão de futuro que lhe permitia trafegar pelos diversos caminhos do saber.
    Nesse caminhar, deixava pegadas marcantes!
    Entre sonhos e realizações, não podemos omitir a sua preocupação com o social, como bem pensou na criação e implementação da Universidade Popular.

    ResponderExcluir
  4. Bela homenagem! Obrigado Balduíno por existir em nossas vidas e de tornar Taperoá mais rica com sua cultura. Obrigada por ter existido e persistindo por nossa terra.

    ResponderExcluir

leia também