Há que se entender ou não o "ornitorrinco do pau oco"? Eu, por exemplo, vivo em busca de algum autoentendimento.  Só recentem...

Eu me apresento

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Há que se entender ou não o "ornitorrinco do pau oco"?

Eu, por exemplo, vivo em busca de algum autoentendimento.  Só recentemente, relendo uma definição do Breviário da decomposição, de Emil Cioran, é que me descobri um pessimista entusiasmado.

Mas, antes de uma definição psicológica, quem ler esta coletânea de meus três primeiros livros já publicados, em que incluí poemas inéditos, terá primeiro uma impressão de estranhamento e de curiosidade: o porquê de meu nome.

Entendo.

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Embora ainda prefira que o leitor procure ler o poema que leva meu nome — sempre considerei a obra mais relevante do que o autor —, sinto-me impelido a prosear um pouco, talvez deixar algum rastro sobre quem somos nós, os ornitorrincos do pau oco.

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno. E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

E é aí que me insiro e busco me justificar.

Quem sou? Algo indecifrável, como meu coirmão, objeto de estranhamento? Mamífero, ave? Ovíparo, vivíparo? Tudo! Menos útil e justificável, embora ele ainda desperte alguma curiosidade científica. O que não parece ser bem o meu caso…

O ornitorrinco do pau oco destoa, e pode, muito em breve, perder de vez muito do lastro dos tempos, desgarrar-se do verde, de sua essência “Terra”. Impregnar-se definitivamente do urbano, perder-se no cinza e embriagar-se com seu-eu-deus-pessoal-bonito no selfie (sou eu lindo na foto, i.e.).

Dito algo sobre o ornitorrinco, há de se falar do “pau oco”.

Essa expressão “roubei” das esculturas que me encantaram na infância, em minhas visitas aos museus de Ouro Preto e Mariana. Todos sabemos das histórias de ouro e diamantes dentro de esculturas de santos entalhados em madeira em contrabando que ocorria nas Minas Gerais, nos idos dos séculos XVI-XVIII. Nas costas da imagem (ou em seus pés), de forma camuflada, uma pequena abertura permitia a ocultação do metal nobre e das pedras preciosas que movimentavam o Velho Mundo.

É aí que eu me insiro.

Vivemos um momento neoantropofágico na poesia.  Pelo menos vejo isso como uma das tendências em muitos dos poetas atuais. Na miríade de cores, na heterogeneidade da produção atual, vê-se um esfacelamento do corpo, do que resta do corpo, já que a alma já foi esmigalhada.

O final do século XIX trouxe a proposição da morte de Deus, trouxe o materialismo dialético. O homem oitocentista adentrou-se no novo século deslumbrado com a tecnologia e o conhecimento evolucionista. Tivemos o leninismo-stalinismo e vimos que o homem, vestido com a ideologia, transformou a proposta da utopia nas distopias descritas por Orwell e Huxley. Viveu a insanidade nazista e, com o distanciamento histórico, pôde entender que o homem errado no lugar certo pode gerar a insanidade coletiva. Tudo trouxe a descrença, a desilusão e abriu espaço para o deus mercado, o oportunista da vez. E onde entra o ornitorrinco e o “pau oco” nisso tudo?

Na medida em que o poeta é a “antena da sociedade” — dito gasto, mas definitivo, de Ezra Pound —, o poeta-ornitorrinco carrega consigo todo o estranhamento do que o circunda e, impregnado do que “não tem serventia”, por não optar pelo instante em detrimento do efêmero, corre o risco de se tornar uma curiosidade em risco de extinção. Como pude, busquei me desconstruir, entender minha irrelevância relativa nesta vida. Enfim, vi-me um ornitorrinco.

E o que tem de especial o ornitorrinco? O olhar. E a necessidade… A necessidade de abrir o peito, com força, como tão bem ilustrou o poeta e grande artista Felipe Stefani, na ilustração que acompanha o livro.

Abrir o peito e oferecer o que mais precioso ele traz guardado em seu arcabouço de ossos e carne.

Já que o poeta é um estorvo, ele abre seu peito e joga na cara de quem quer que seja, como seu último ato de vida, rasgando sua última pele — a palavra —, mesmo que inutilmente, a “linguagem-ouro de enganar trouxa” que o alimentou enquanto vivo.

Eis aí o ornitorrinco do pau oco, queiram ou não.
O ORNITORRINCO DO PAU OCO
j´étais le bruit d'absence
Fui pelo não ido das manhãs em voo de cera e contemplação perseguindo desvãos no Mundo fui ao sumidouro dos pés descendo pirambeiras em abissais loucuras fui o anônimo inacabado de véspera fui inumano fui testemunha de corpo ausente das praticâncias e despudores fui matraca indignada fui mendicante fui a farpa arrancada da espada fui consolo adocicado para línguas ásperas fui perene e dilatado fui objeto fui pão e circo do apocalipse fui pudico e privado fui rasgado e brocha fui tardio sem salva-vidas fui obsceno cosseno e outras peripécias fui o de dentro sorriso do redemoinho fui o gênesis da comédia humana fui o esteta do insolvível fui o engate o torvelinho Fui o poeta.
NÃO ME CALO
Mordaça se rasga com os dentes, e, se me cortam a língua, reinvento a linguagem-uivo ̶ corda vocal é elástico de baleadeira ̶ que atira longe o eco do desatino.
ANACRÔNICO
Meu é este desperdício, olhar que não se enquadra, silêncio que espia na luz apagada, o medo de não estar vazio quando se acercar a luz do nada. Meu é este dizer do tempo, discurso interrompido, lampejo, lamento, saber inútil o saco e a porra. Meu não é o início, mas o gargalo, o rente, o arrebol sorvido, este escuro – noite que se ressente do frio, a fresta que observa, o liberto, o estio, ornamento dos dentes, pavor, pavio. Meu é o fim justificando a queda, o dedo ‒ semente das unhas, o arvoredo brotando no interminável. Meu é o absurdo, o privilégio das horas, o beijo contado, o assobio, o assombro, o firmamento inútil. Meu é o desafio, o preto e o branco e este zelo pelas coisas perdidas.
A BOCA DO INEFÁVEL
Cobre-te melhor a seda rasgada, contornando teu corpo, nas fendas do meu desejo. E esse cheiro das madrugadas em que me masturbo de tanta insônia. Os momentos perdidos, em um sonho mau, tornam justo esse pesar por amanhecer, e ter que partir nessa rotina que me afasta de ti, obscena mulher de língua áspera, imensa, onde derramo minhas noites de macho, perdido.
 
SAUDÁVEL
Humores, farrapos, cachaça. Rumores, gargalos, cabaços. Batuques, bagulhos Carcaça. E eu debruçado no ocaso.
BACURAU
Quando acordei o pássaro noturno permanecia sob a vidraça. O orvalho, as penas mortas, o desatino da solidão. Fazia frio, e meu pensamento caminhava perdido. Testemunhar o que é casa, o que é morte. Não basta a fúria enterrar-se até à noite. Saber rasgar as roupas, fazer curativos não devolve o ar roubado. A verdade é o pássaro e o descuido das formigas.
SUPERORNITORRINCO
Acabou o sal ― desperdiçado ― entre os sós, e cada entranha buscava o sustento e a solidão nos escombros ― como um consolo na estranheza. eu, ornitorrinco, ridículo e ébrio, reduzido e semelhante ao consolo dos demais ébrios, ressentia-me da esperança e claudicava de medo. não tinha lar, não tinha sossego, expirava, e o que me sustinha: ― o desterro. uma marca guardada, uma flor e o desejo. chegara o dia em que o temor me abraçara com as trevas e o pavor da extinção. troquei olhares, então, com os perdidos no calabouço e percebi o sol que irrigava a terra e o verde que me brotava entre os dedos.

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  1. O poeta sonoriza a voz do espírito humano. O silêncio (quebrado em estilhaços como os que há nos seus versos) é a forma de ele traduzir a perplexidade e o vazio que nesse espírito imperam.

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