Tocou o celular. Do outro lado uma vozinha afinada me falou, cortesmente. Uma das insinuações das empresas telefônicas, procurando convenc...

Ligação Tormentosa

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra ligacao telefonica marketing telemarketing
Tocou o celular. Do outro lado uma vozinha afinada me falou, cortesmente. Uma das insinuações das empresas telefônicas, procurando convencer-me a aderir às vantagens da operadora. Disse não, procurei argumentar, num papo por demais desagradável. Não percebi a encruzilhada, a caverna em que me havia metido. A resposta dada pelo aparelho não batia com a pergunta feita por mim à atendente. Havia um desencontro. O zumbido da interlocutora me puxava a espaços nunca dantes explorados. Quis ficar mais tempo, naquela conversa para ver até onde chegaríamos. Mostrei-me desinteressado com a proposta.

Existe, como sabemos, uma disputa entre a concorrência, principalmente causada pelo fantasma do zap habitando o smart. Nestes contextos bicudos, tudo se move para não perder o lugar, manter o padrão e os fregueses. Isto também na tv a cabo, bancos, enfim, até produtos de limpeza, inclusive papel higiênico. Com certa razão: a sobrevivência exige. O desemprego se espraia e os lugares ao sol, pelo menos a manutenção da temperatura média no mercado está honestamente difícil.

Pensava, enquanto a atendente fora consultar planos vantajosos para o cliente aqui relator, deixando no ar aquela musiquinha enfadonha, desalentadora para os ouvidos e a paciência. Nada além, mesclando palavra cruzada, tomando coquetel com o lápis em riste, forma de esquecer a cilada em que me havia metido.

Nada a reclamar, afinal bastaria desligar e deixar a moça falando sozinha. De alguma forma, pagava o tributo em aguardar o retorno da interlocutora. Ela veio de supetão: “o senhor tem mil e tantas horas, direito a usar isto e aquilo sem limites, telefone fixo grátis” e mais que esqueci para não abusar dos que me leem. O que me tornava irritado era a vozinha de muriçoca da funcionária da empresa telefônica. Desconfiei de que não era de ser humano. Basta de suposições (juízo temerário, dizia a catequista, é pecado); encarei, então, o desafio dialogal, a escutar, segundo a segundo, na ligação inoportuna o que deveria fazer para obter a condição de cliente vip. Tecla l, 3, 5 para isso e aquilo.

Havia momentos de silêncio total. A voz falava que aguardasse um instantezinho. Vinham outras dicas para atingir as vantajosas propostas. Foi quando, perdendo as estribeiras, deixei escapar uma pornografia. Mas ela continuou, não repeliu o maltrato; toquei a tecla desligar do meu aparelho. Agora, livre, continuei a me divertir em preencher as palavras cruzadas. Estas me divertiam, me atiçavam a memória, exercício usual para desenvolver o vocabulário.

As palavras cruzadas na conversa telefônica, ao contrário, me deixavam embotado, tenso, irritado. Foi quando, tocou o celular. Quis não ir atender. Fui. Era minha filha. Suspirei aliviado. Constatei a diferença da entonação vocal: era de ser humano, sem aquele zumbido que, há pouco, me fritara a audição. Desconfio de que conversei com um robô. Cai no golpe da propaganda artificial.

Concordam?

comente
  1. Muito bom! Já passei por isso. Agora não passo mais, pois desenvolvi a minha tecnica: atendo com a voz trêmula, E DIGO: "Dona, eu sou interditado pelo juiz..." Aí ela é quem desliga, para a minha satisfação. Guardo o aparelho sorrindo igual a Mutley, o cachorro cretino do Dick Vigarista!

    ResponderExcluir

leia também