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Argumento de peso

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No intercâmbio com os outros, é próprio do ser humano argumentar. Argumentamos desde pequenos – desde que temos a incipiente consciência de que é preciso fazer as pessoas aderirem à nossa verdade.

A verdade do menino que vi no último domingo, na saída de um restaurante, era o desejo de um pacote de biscoito. Ele teria pouco menos de dois anos e quase não falava, mas utilizou os recursos de que dispunha com eficiência máxima.

Ia de mãos dadas com a mãe, quando ao passarem em frente a uma barraca deparou-se com o pacote colorido. “Mã... mã..” – balbuciou, numa espécie de advertência. Ao mesmo tempo estendeu uma das mãos para a guloseima, reforçando os monossílabos com um gesto indicativo de posse. Esse gesto veemente, peremptório, fez a mãe estacar tomada de susto e zelo.

Depois do “mã... mã”, o menino disse algo como “qué... qué”. Sempre assim, duplicado, como se com a repetição desse a entender que não desistiria facilmente. A mãe respondeu com um “Não!” cheio de intolerância adulta. A criança sentiu a arrogância desse monossílabo e mudou de tática; começou a bater os pés e a se torcer toda.

Junto com isso emitia uns sons ininteligíveis, em voz alta, que chamavam a atenção de quem passava. Parecia intuir que a mãe se constrangeria com esse vexame. Os adultos, afinal, são muito sensíveis ao julgamento dos outros.

Como os rudimentos de palavras não surtiram efeito, ele começara a argumentar com o corpo. Era o que nossos antepassados faziam – grunhir e dançar – quando se deparavam com um obstáculo intransponível. E como transpor aquele “Não!” a não ser por meio de uma dança ruidosa e espasmódica? O menino era esperto, sabia argumentar.

Vendo que várias pessoas olhavam para o seu filho, a mãe se sentiu de fato envergonhada. Mas não estava disposta a ceder. Trocou a negativa pétrea pela racionalização embebida em carinho. Disse com jeito, pegando-lhe na mão: “Filhinho, agora não pode. Você acabou de almoçar...”.

O menino sentiu a mudança de tom, mas não se comoveu com o diminutivo. Era preciso ser duro nessa hora. Em vez de amolecer seu coração, a troca do “ão” pelo “inho” lhe soou como um indício da vitória próxima. O argumento de que acabara de almoçar parecia irrelevante. Acabara de almoçar, sim, mas ainda estava com fome, ora bolas! E nada do que tinha comido, a maior parte à força, era tão gostoso quanto os ingredientes contidos naquele saquinho...

Foi sob o impacto dessa última ideia que ele partiu para a ofensiva final. Lembrou-se de que vencera contendas semelhantes graças ao apelo a mais de um recurso. Então voltou ao “qué... qué”, seguido de “mã... mã” e de um estratagema que sempre se mostrou decisivo nessas horas: a ameaça de que ia abrir o berreiro.

A mãe, aflita, ignorou o que poderia haver ali de teatral. Não ia pagar para ver. Preferiu comprar o biscoito.

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