Numa época em que dispunha de mais tempo livre, dediquei-me a viajar pela Península Ibérica. Nessas incursões, colecionei um conjunto de m...

Siesta em Zaragoza

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Numa época em que dispunha de mais tempo livre, dediquei-me a viajar pela Península Ibérica. Nessas incursões, colecionei um conjunto de memórias e de experiências que me acrescentaram muito, não somente culturalmente, mas, sobretudo, vivencialmente. Percorri um considerável terrítório da península, o que me permitiu ter uma boa idéia da sua maravilhosa diversidade, embora conhecê-la realmente demandaria muito mais do que viajar por anos contínuos. Na verdade, exigiria o empenho de uma vida inteira ou de várias.

Aquela parte da Europa foi denominada de “Ibéria” por causa do caudaloso rio “Iberus”, ou “Ébro”, aquele ao qual Cervantes se refere da seguinte forma em seu “Dom Quixote”:

“Dom Quixote e Sancho chegaram ao rio Ebro, e vê-lo foi um grande prazer, porque o contemplou e viu nele a amenidade das suas margens, a clareza de suas águas, a calma do seu curso e a abundância de seus cristais líquidos, cuja visão alegre renovou mil pensamentos de amor em sua memória.”

Do meu apartamento, vizinho ao local de nascimento do escritor Baltazar Gracián, o “Maquiavel espanhol”, eu contemplava a face sul dos Pireneus, cujos picos congelados no inverno contrastavam com o restante da paisagem ensolarada da península.

Vivendo na capital do velho reino de Aragão, tinha um excelente acesso a toda Espanha. Não por acaso Zaragoza é um dos princiais centros logísticos da Europa. Situada entre Madrid e Barcelona, dela emanam artérias que conduzem a diversos outros destinos fascinantes, sendo, ela própria, um lugar apaixonante e admirável.

A velha cidade, tantas vezes inundada pelo Ebro, tem dois mil anos de história, que se sobrepõem literalmente em camadas que se revelam a cada tentativa do “Ayuntamiento” fazer melhorias na estrutura urbana: primeiro aparece a cidade medieval, depois a romana e, por fim, a ibérica, a mais profunda. Em muitos casos a obra planejada é deixada para trás porque o conjunto arqueológico é precioso demais para ser comprometido ou vasto demais para ser recuperado e mantido adequadamente. São tantos sítios arqueológicos que uma cidade subterrânea paralela a atual poderia ser escavada e mantida como um imenso fóssil de um passado esquecido, caso isso fosse economicamente possível. Há exemplos pontuais do que poderia ser isto, como é o caso das Termas Romanas e do subsolo da Plaza del Pilar.

Para se proteger da volubilidade do rio que a corta e que tantam vezes a vitimou, a cidade de Zaragoza canalizou o Ebro, que agora só pode ser acessado através de uma escadaria. No verão, as suas margens verdes se convertem num grande parque que acompanha toda sua tragetória pela cidade.
No inverno, as suas laterais se cobrem de lama congelada, nada convidativa ou segura para quem desejar tocar suas águas durante a estação.

O antigo nome de origem ibérica, Salduie, foi atribuído pelo sedetanos, o povo autócone que ali viveu e fundou uma cidade-Estado por volta do século III antes de Cristo. Pouco antes de ser submetida pelos romanos, Salduie chegou a se extender por dez hectares. Com a romanização, a vila foi rebatizada em honra ao imperador Augusto César em 14 a.C., recebendo o nome de Caesaraugusta, assim permanecendo por toda a Idade Média até a chegada dos árabes no ano 714, quando passou a se chamar Saraqusta. Após a reconquista católica, em 1118, o nome Çaragoça passou a ser adotado até que a grafia se modificou chegando a sua versão atual: Zaragoza — escrita em português como Saragoça.

Do período árabe permaneceu o mudéjar aragonês, sendo a Aljafería o principal exemplo desse estilo. Este importante monumento hoje abriga a sede do governo aragonês e é considerado como a maior construção árabe ao norte do mundo. Após a Reconquista, foi escolhido como moradia pelos reis da Coroa de Aragão, que o preservou por sua imponência e esplendor. Trata-se de uma estrutura de grande beleza que lembra a Alhambra, de Córdoba, numa escala menor, mas não menos exuberante.

Alguns feriados da cidade remetem ao período medieval, como o de Santa Águeda, a mártire que foi mastomizada por não renunciar ao seu voto de castidade. No feriado em sua memória, as docerias da cidade preparam a “teta de Santa Agueda”, que tem o formato de um seio. Também há outros doces com motivos religiosos, como o “roscón de San Valero”, feito em honra ao patrono de Zaragoza. Este é um bolo de forma circular com um buraco no meio, preparado com massa doce e adornado com frutas cristalizadas e açúcar de confeiteiro na parte de cima. As sobremesas aragonesas são todas lindas de se ver, mas não tão agradáveis ao paladar para quem tem a experiência dos doces brasileiros.

As sobremesas tradicionais européias, em geral, não são muito adoçadas. Como antigamente o açúcar por lá era algo raro, as pessoas se acostumaram a comer doces menos doces dos que os brasileiros. É o que imagino. Hoje, porém, quando o açúcar é um artigo tão barato e acessível, os europeus se tornaram fits, diets ou veganos. Ninguém por lá consome mais o produto, considerado como um veneno por comerciais e programas de TV. Nas prateleiras dos supermercados há somente alguns quilos de poucas marcas para serem consumidos por seres bizarros e exóticos.

Talvez o episódio mais marcante na historia da cidade tenha sido a batalha entre os isabelinos e os carlistas em 1838. Na ocasião, os zaragozanos recusaram o imperador que Napoleão lhes impôs. A resistência causou enormes baixas e sofrimentos a sua população, que foi praticamente dizimada pelo exército francês. Quando os últimos resistentes foram submetidos, estavam esqueléticos e famintos. A mortalidade foi tamanha que a cidade teve de ser repovoada. No dia 5 de março de cada ano, os moradores se reúnem no Parque Tio Jorge para comemorar a sua identidade cultural e passar o dia inteiro comendo, quem sabe numa catarse da experiência famélica vivida por seus antepassados.

Devido ao traçado urbanístico medieval, as ruas da parte antiga são estreitas e favoráveis a proliferação de doenças respiratórias durante o inverno. Alíás, a gripe sazonal tem até data para chegar. Quando morava lá, um jornal anunciava: “a gripe chega semana que vem”. Acho que durante os anos que ali vivi, devo ter sido vítima de todos os surtos gripais que por lá passaram.

É uma cidade grande, rica, bonita. É agradável caminhar por suas ruas, desde que, no outono e no inverno, esteja-se atento às pancadas de vento que atingem os transeuntes. As mais intensas chegam mesmo a derrubar os desavisados. Nas esquinas parecem que ficam ainda mais fortes. Eu mesmo fui desafiado várias vezes a equilibrar o meu centro de massa.

A água que abastece a cidade é muito caucária, o que ocasiona gases. Por causa disso, a maioria das pessoas prefere comprar a água engarrafada que vem dos pirineus.

Considerada uma cidade boêmia por causa da Universidade homônima, Zaragoza tem a maior concentração de bares de toda Espanha. Lá se pode vivenciar, de fato, a cultura da “tapería”. Pode-se caminhar, parar num bar, tomar uma copas, “tapear” um pouco, o que significa comer “tira-gostos” de todos os tipos, sabores, cores, tamanhos e formas imagináveis e inimagináveis e, depois, caminhar um pouco mais e, novamente, debruçar-se num balcão de bar e repetir a façanha. Tem coisa melhor?

Interessante, porém, foi o dia em que descobri a “siesta”, instituição nacional espanhola, adotada também em Zaragoza, que consiste na sonequinha do meio dia, que é sagrada por lá. O termo vem do latim e se refere a “hora sexta”, que equivale às doze horas.

Recém chegado a cidade e sem saber das tradições locais, sai de casa ao meio dia para ir ao banco. Quando piso na rua, em pleno dia útil, deparei-me com uma cidade fantasma: estava tudo fechado. Nem um só vivente sequer no passeio público e nem um só veículo transitando. Pensei que havia explodido uma bomba de neutrons ou que a cidade tivesse sido evacuada. Dobrei várias esquinas e não encontrei ninguém para me relatar a catástrofe. Sem saber o que ocorria, voltei para casa e liguei a TV, que tampouco noticiava qualquer calamidade ou abdução alienígena coletiva. Intrigado, dirigi-me novamente a rua e lá estava tudo em perfeita ordem, funcionando normalmente. Pensei, então, ter vivenciado alguma experiência sobrenatural, quiçá uma viajem a uma dimensão paralela, e procurei agir com naturalidade. Tão logo pude, contei o ocorrido a um amigo espanhol que, depois de gargalhar, explicou-me o que era a “siesta”, costume que acabei por achar muito simpático e também adotar.

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