Foi em Cabedelo. Faz tempo. Uma senhora grisalha, já avançada na casa dos setenta, dá entrada numa ação judicial de divórcio. Quer se se...

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Foi em Cabedelo. Faz tempo. Uma senhora grisalha, já avançada na casa dos setenta, dá entrada numa ação judicial de divórcio. Quer se separar do marido, ele um pouco mais idoso que ela. É uma mulher simples, do povo, como se diz, uma dona de casa casada há muitos anos, que teve filhos, criou-os com as dificuldades previsíveis, agora tem netos que a visitam apenas de vez em quando, sem grandes demonstrações de afeto. Sua vida parece completa, sem graça, exaurida, como se lhe restasse somente aguardar o fim, quando Deus fosse servido. Uma vida como tantas outras; uma existência sem outro sentido aparente, salvo esse de ser esposa, mãe, Nada mais além disso. Aos olhos de muitos, parece pouco esse destino comezinho; aos olhos dela, também, principalmente nos momentos em que ela,
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sem saber a razão, pressente que as coisas poderiam ter sido de outra forma. A velha questão que o poeta Bandeira tão bem colocou: a vida toda que poderia ter sido e que não foi.

Para o marido, a família e os amigos essa intempestiva ação de divórcio é uma surpresa. Mais que isso: é um enigma. Ninguém compreende como uma mulher casada há tantos anos, já praticamente no fim da vida e sem motivo aparente, resolve de uma hora para outra se separar do marido. Fosse ela mais jovem e atraente, quem sabe poderia ter se enrabichado por outro homem. Aí até daria para entender. Mas não era o caso. Que se soubesse, nada de mais acontecera. Nenhum fato, nenhuma revelação. Que danado deu nessa mulher, todos se perguntavam, perplexos.

Nas ações judiciais de divórcio, a primeira audiência é chamada de conciliação porque nela o juiz tenta dissuadir as partes litigantes do desejo de separação, procurando reconciliá-las, restabelecendo a chamada paz conjugal. E assim fez o juiz do feito, ele próprio um pouco surpreso com aquele inusitado casal de cabelos brancos. Em verdade, a despeito de sua já razoável experiência profissional, o julgador nunca se deparara com um caso daqueles. Já decidira sobre a separação de muitos casais, mas nunca de cônjuges idosos como aqueles.

Como a mulher era, nesse caso, a parte autora da ação, foi a ela que o juiz se dirige primeiramente. Após a introdução de praxe, fez-lhe as seguintes indagações: Seu marido é adúltero, tem outra mulher? Seu marido se embriaga habitualmente? Seu marido bate ou maltrata a senhora de alguma forma?
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Perguntas todas pertinentes numa situação como aquela. É o que os juízes costumam perguntar nesses casos, buscando identificar, quando não sabe, o motivo da desunião.

A mulher, serena, responde ao juiz: Não, doutor, ele, que eu saiba, não tem outra mulher, ele não se embriaga e não me bate nem maltrata. Para falar a verdade, ele é um bom marido, bom pai e cumpre suas obrigações de dono de casa. Não tenho o que reclamar nem o que dizer dele não, doutor.

O juiz está visivelmente pasmo diante de tais respostas. Definitivamente, não compreende a razão daquilo tudo. Pois se o marido é um homem quase exemplar, o que teria levado a mulher àquela decisão? Todavia, resta-lhe seguir o ritual da lei e concluir o interrogatório com a inquirição derradeira: Mas então por que a senhora quer se divorciar de seu marido a esta altura da vida?

Ela olha com calma os olhos do juiz e responde simplesmente, de modo definitivo: É enfaro, doutor, enfaro.

O juiz, homem também casado e maduro, balança verticalmente a cabeça e encerra a audiência com uma palavra apenas: Compreendo.

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  1. Perfeitamente Francisco Gil Messias!!!
    " O enfaro é uma ameaça permanente"
    Paulo Roberto Rocha

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