Céu de bombas Não interrompam o cotidiano das serpentes. Elas não buscam no homem seu veneno. Jorge Elias Neto Por que choras por mim ...

O poeta sofre com o seu povo

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Céu de bombas
Não interrompam o cotidiano das serpentes. Elas não buscam no homem seu veneno. Jorge Elias Neto
Por que choras por mim meu pai? Cumpri com o que me coube nessa Gaza de feras. Em cada criança morta, sacrificada, um objetivo insano. Despeço-me do dia sob flashs e bombas. Uma fome doentia molhou teu corpo com meu sangue. Estrelas dos profetas cruzaram os céus e pulverizaram os créditos de minha infância. A ambição de poder comeu meu destino. Com a força, roubaram-me o sorriso. Meu pai, nem sei perguntar por quê. Não tive tempo para me nutrir de ódio. Pensando bem pai, que às lágrimas partam. Transpareças a indignação em teu rosto nas telas indiferentes do Mundo. Sobretudo creia pai, creia no triunfo do olhar de tua filha, fosco de morte, voltado para esse lindo céu, reluzente de bombas, nessa noite de um domingo de fúria.




O ex-deputado do Knesset (parlamento israelense), Uri Avnery (também ex-combatente que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz), afirmou que uma das frases mais sábias que ouviu em sua vida foi pronunciada por um general egípcio em resposta ao questionamento do por quê dos egípcios terem conseguido surpreender Israel em na guerra em outubro de 1973. A esse questionamento o general respondeu:

“Em vez de ler relatórios dos serviços de inteligência vocês deveriam ler nossos poetas”.

Ao longo da história muitos poetas alternaram momentos de puro lirismo com outros de completo envolvimento com causas nacionais. Poderíamos lembrar, entre outros, de Maiakowski, Walt Whitman e o nosso Thiago de Mello.

Outros poetas, embora não diretamente envolvidos com temas sociais, produziram obras plenas de imagens voltadas para a realidade de sua coletividade. Basta lembrar de Drummond e seu livro “Rosa do Povo”.

É certo que não devemos ignorar que a história da civilização se confunde com a imposição do horror ao ambiente e às gentes, utilizando-se da barbárie para impulsionar o processo civilizatório. Adorno e Horkheimer frisam que a civilização – a qual nos ilude como um processo inteligente que busca beneficiar a sociedade e expandir o conforto e a segurança –, na realidade, possuem várias facetas aterradoras, inclusive aquela que recalca ou revela “o desejo de destruição dos civilizados
* Benjamin Rodrigues Ferreira Filho. A técnica de destruição e o sofrimento humano. Em “Ver e entrever a comunicação – Sociedade, mídia e cultura”. Arte e Ciência Editora, 2008.
que jamais puderam realizar totalmente o doloroso processo civilizatório”. Para esses filósofos “não se pode abolir o terror e conservar a civilização. Afrouxar o primeiro já significa o começo da dissolução” *.

Mas onde se situaria o poeta e sua poesia nesse contexto? Escrevi certa vez:


Caramelos... Caramelos. Seguem os poetas revirando a relva carbonizada em busca de caramelos...

Muito se diz da inocência do poeta em crer no poder da poesia. Mas o que fazer quando da clarividência do absurdo humano? Quando de uma indignação pusilânime?

Será o poema apenas uma “salmoura” para seu sofrimento e de seus eventuais leitores?


Ao poema cabe despejar sobre o chão, e na cara dos facínoras, uma resma de dúvidas. De algum ponto, cabe o recomeço.

“A arte existe para que o homem não morra da verdade” — assim disse Nietzsche, mas será só essa a força do poema?

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Quando li o romance Neve, de Pamuk, confesso que inicialmente não consegui entender o poeta Ka que em meio à uma revolução conseguia atingir um momento de total estesia e escrever poemas inicialmente dissociados do que ocorria à sua volta. Mas penso que as coisas não são bem assim...

Para todo aquele que sabe o papel histórico do poema nos países árabes é fácil entender que não é assim que sempre ocorre.

Foi no papel da poesia em manifestar os sentimentos mais profundos de seu povo que pensou o general egípcio ao responder ao questionamento feito pelos soldados judeus. Não se deve ignorar a tradição de um povo, ainda mais de um povo com uma história milenar. E como disse Uri Avnery:

“Só onde se compreendam estes sentimentos pode haver verdadeira paz. A paz costurada pelos políticos não vale grande coisa, se não houver alguma paz entre os poetas e a emoção dos muitos que a poesia manifesta.”

Finalizo deixando minha homenagem ao poeta Mahmoud Darwish, considerado o “Poeta Nacional da Palestina”. “Nunca quis ser o poeta nacional. Não queria fazer poesia política; queria ser lírico, poeta do amor. Mas para qualquer lado para o qual se virasse, o longo braço do destino dos palestinos o alcançava e o arrastava de volta.”

Deixo apenas um conselho final aos possíveis críticos: desarmem-se de seus conceitos teóricos e estilísticos diante de um poeta que sofre com seu povo — tentem apenas sentir com os olhos...


Confissão de um terrorista!
Mahmoud Darwich Ocuparam minha pátria Expulsaram meu povo Anularam minha identidade E me chamaram de terrorista Confiscaram minha propriedade Arrancaram meu pomar Demoliram minha casa E me chamaram de terrorista Legislaram leis fascistas Praticaram odiada apartheid Destruíram, dividiram, humilharam E me chamaram de terrorista Assassinaram minhas alegrias, Seqüestraram minhas esperanças, Algemaram meus sonhos, Quando recusei todas as barbáries Eles... mataram um terrorista!



Chamada da Tumba
Mahmoud Darwich
Em memória do massacre de Kafr Kassem
I Minha morte aconteceu há oito anos Tenho a mesma idade de meu pai Chamamos a todos os viventes A todos os que querem viver por muito tempo Sobre a terra Não debaixo dela A todos os que querem Que a trigo madure em seu campo Semear e colher Que a massa fermente em seus lares Fazer o pão e comê-lo Nós lhes pedimos: não durmam Se querem viver por muito tempo Sobre a terra Não debaixo dela Montem guarda... aqui o sol é de barro e miséria Nossa idade se conta em anos de morte Minha morte aconteceu há oito anos Tenho a mesma idade de meu pai II Dizemo-lhes Não queremos sobre nossas tumbas Nem água nem flores Nada está vivo aqui Apenas os casulos de víbora e os vermes Dizemo-lhes Não queremos roupas de luto Não há na tumba outra cor Que a preta Dizemo-lhes Não queremos canções tristes Intermináveis Dormimos aqui E nosso retorno é impossível Dizemo-lhes Cantem pela terra que permanece Rebelem-se Ensinem nossa história sombria Aos filhos A fim de que nosso sangue Permaneça na bandeira dos criminosos Como sinal de catástrofe Pedimos-lhes Protejam os fracos das balas Para que os que vivam fiquem salvos E os que nascerão no futuro Ainda goteja a fonte do crime Obstruam-na E permanecem vigilantes Prontos para o combate



Árvore dos salmos
Mahmoud Darwich No dia em que minhas palavras forem terra... Serei um amigo para o perfilhamento do trigo No dia em que minhas palavras forem ira Serei amigo das correntes No dia em que minhas palavras forem pedras Serei um amigo para represar No dia em que minhas palavras forem uma rebelião Serei um amigo para terremotos No dia em que minhas palavras forem maçãs de sabor amargo Serei um amigo para o otimismo Mas quando minhas palavras se transformarem em mel... Moscas cobrirão Meus lábios!...



Eu sou de lá
Mahmoud Darwich Eu venho de lá e recordo que nasci como todo mundo nasce, tenho uma mãe e uma casa com muitas janelas, tenho irmãos, amigos e uma prisão. Tenho uma onda marinha que a gaivota arrebatou tenho uma visão de mim mesmo e uma folha de capim tenho uma lua passada no auge das palavras tenho uma comida divina de pássaros e uma oliveira além da quilha do tempo atravessei a terra antes que espadas tornassem os corpos banquetes. Eu venho dali. Eu faço o céu retornar à sua mãe quando por sua mãe o céu chorar, e eu choro querendo o retorno de uma nuvem para me conhecer. Eu aprendi as palavras de tribunais manchados de sangue de forma a quebrar as regras. Eu aprendi e desmantelei todas as palavras para construir uma única: Lar.

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