Minha sede não é qualquer copo d'água que mata Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar Essa sede é uma sede que só se desata Se...

O silêncio dos amores

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Minha sede não é qualquer copo d'água que mata Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar Essa sede é uma sede que só se desata Se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia Sonho colher a flor da maré cheia vasta
Caetano Veloso & Waly Salomão, Talismã

Para Cristian


Ele ama Maria Bethânia. Eu, Caetano.

Há uma coisa que é entre ele e eu. Há entre nós uma errância, um vagar lento e sempre e sonoro. Nosso encontro deu-se, assim, por entre notas, por entre sons e sonhos. Certo dia nos vimos num cinema, num filme chamado A Casa do Lago, sobre um casal de solitários unidos por uma casa. Passam dois anos trocando cartas, naquilo que poderia ser a real forma de amor: o sonho e o desejo que não se realizou.
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Depois, vagamos juntos pela orla. Comemos na Toca da Esfiha. Poucas palavras, como se pede os encontros de errantes.

O amor vive de si mesmo. Ele não necessita de eus, de tus ou mesmo de nós. Um verbo único sem complementos ou objetos. Talvez uma palavra até intraduzível pela sua incompletude. Mas ele existe entre ele e eu. Nos nossos nós.

Como nó enovelado, nada de puxar fios. Puxar fios gera tensão, pois o novelo a si mesmo se enrosca. Ao novelo só resta rolar e ceder fios para a tessitura maior da vida.

Amar assim, com extravagância, é nódoa de caju em roupa branca. Deixa-se de molho, lava-se, enxagua-se, mas a marca amarelada como as páginas de um livro velho está lá, tênue, porém lá.

Amar assim, com tranquilidade, é cicatriz em risco. Um rasgo que um dia sangrou e que o tempo fechou numa colagem de recordações.

Ele é calado. Dentro dele um eco silencioso como as raízes das árvores que estrangulam a terra sem ruído. Quando quieto está, me parece um lago plácido dormindo entre os vales que o abrigam.

Há entre nós um sentimento silencioso. Aqueles sileciozinhos que fazemos ao contemplar coisas simples. Amor das coisas singelas, daquela foto de um dia de sol quase já toda desbotada pelo zelo das caixas que guardam memórias. Aquela quietude dos sapatos jogados no canto da sala, os aromas de incenso pela casa calada em seus cantos, os cantos que juntos ouvimos percebendo as letras que se enrolam às notas como amantes, como a maciez da colher cortando o doce de leite.

Há um caminhar nosso, um arrasto de rastros pelas ruas e seus becos.

Quando o dia se chega com seus solares e o dia resmunga suas palavras dementes de preguiça e sono, eu o vejo com as palavras que esbarram no silêncio dos seus lábios.
Como se a palavra fosse um degredo, como se apenas as palavras em versos pudessem existir e nenhuma outra mais. Pois há sensações que só podem ser vistas, nunca descritas. Aquela emoção de se olhar para uma obra de arte e tentar descrevê-la em palavras vãs. Palavras, só as da poesia.

Às vezes parece que nosso tempo é o infinito. Um tempo que sopra as brisas e deitam ondas em rochedos tão duros. O tempo, o tempo. Mesmo a mais dura rocha some em areia diante do tempo.

O tempo, assim, amadurece o amor. Amores que são feitos de sorrisos e também de goteiras de lágrimas. A vida é barro forte. A lágrima é o que dissolve a dureza do barro, tornando plástica a vida.

Ele é pisciano. Das sombras, da água, das lavandas, das meias palavras. Alguém que se deixa inundar. Eu sou virginiano. Da terra, do sândalo, dos mistérios e palavras ácidas. Dizem os astros que somos os opostos complementares O prático e o místico. Mas nossas mãos se tocam, um com a cabeça nas nuvens, outro com os pés no chão. Assim são nossos dias.

Vem o Sol e suas luzes. Vem o fruto e sua doçura. Vem o fim. Perece o fruto e volta a terra. Vem a terra, mãe que agasalha a semente no eterno vir-a-ser, no qual se resume infindavelmente o ato de amar.

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