Ser o primeiro, no sentido de ser o titular, o superior, o chefe, nunca foi fácil, em qualquer circunstância. Mas ser o segundo, no sentid...

A sutil arte de ser segundo

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Ser o primeiro, no sentido de ser o titular, o superior, o chefe, nunca foi fácil, em qualquer circunstância. Mas ser o segundo, no sentido de ser o substituto, o vice, o sub, então nem se fala: é mais difícil ainda. Se não é todo mundo que sabe ser o primeiro, como os exemplos nos mostram, menos gente passa no teste de ser o segundo. Claro que muitos não veem nenhum problema, nenhuma dificuldade em ser o primeiro ou o segundo. Tiramos de letra, dizem esses açodados que geralmente se saem muito mal, tanto sendo o primeiro como também o segundo. Tudo é arte: ser o primeiro e ser o segundo, mas a de ser adjunto é mais sutil e exigente, não há dúvida.

Esta reflexão me veio à mente a propósito do príncipe Philip, marido da rainha da Inglaterra, falecido recentemente. Queiramos ou não, por mais de meio século, desde 1947, quando casou-se com a então jovem monarca britânica, ele tornou-se uma presença, mesmo distante,
na vida de todos nós, ocidentais. Uma presença meramente midiática, certo, mas ainda assim uma presença, que passou a fazer parte do nosso imaginário coletivo, assim como outras figuras célebres da segunda metade do século XX, cuja ausência nos impactou, surpreendendo-nos.

Alguém poderá legitimamente indagar: Mas o que ele tinha a ver conosco, a ponto de ficarmos falando nele, agora que morreu? Nada, respondo incontinenti, nada de nada. E no entanto por que pensei nele – e no seu papel – ao saber de seu desaparecimento? Mais ainda: por que estou a escrever sobre ele, repercutindo sua morte, se tão longe estava de mim, de nós, brasileiros contemporâneos? Simplesmente, acredito, porque tudo que é humano nos interessa – ou deve potencialmente interessar -, como já dizia Terêncio, poeta e dramaturgo romano que viveu há mais de dois milênios: “Sou humano, nada do que é humano me é estranho”. Sabedoria pura.

Mas voltemos ao príncipe-consorte. Título que já diz e dizia tudo (ou quase tudo) sobre ele. Ele que era simplesmente o marido, nada mais que o esposo da rainha, ela sim todo-poderosa, nos estreitos limites das prerrogativas reais no Reino Unido, mas ainda assim figura central da Coroa, eixo da milenar monarquia. Ele, figura acessória, protocolar, sem poder algum. Obrigado a caminhar um pouco atrás da monarca, a só se manifestar depois da soberana, tudo em segundo lugar, eternamente mero figurante, sem voz e sem vez, pode-se dizer. Quantos suportariam isso por muito tempo, é de se perguntar.

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Pois ele suportou por mais de meio século. E fez mais: desempenhou com altivez, elegância e discrição seu papel secundário, atribuindo ao mesmo, com sua nobreza de comportamento, uma dignidade unanimemente reconhecida. E, com isso, sabendo ser o segundo com sabedoria, alteou-se, cresceu além da sua posição, à vista de todos.

A famosa série da Netflix, The Crown, não o retratou de forma simpática. É uma interpretação. E é até possível que fiel à realidade. Mas aqui não estamos falando dele na intimidade e sim de sua performance institucional. Claro que ele tinha defeitos, como todos nós. Mas a rainha, sua mulher por setenta anos, o enalteceu expressamente. O fato é que, publicamente, ele desempenhou bem a missão que lhe coube. Não é pouco.

Para ser um segundo (ou segunda) correto, a pessoa tem, antes de tudo, que conhecer o seu lugar, como se diz na linguagem cotidiana. Conhecê-lo, compreendê-lo – e sobretudo aceitá-lo. Tudo isso sem traumas, frustrações nem ressentimentos. Ou seja, numa boa, como quem diz: Sou segundo, tudo bem, e vou me esforçar para sê-lo da melhor maneira. Essa a receita mínima do sucesso de qualquer um nessa delicada posição.

Antes de tudo, o segundo deve ser um profissional do silêncio. Se tiver opinião, deve guardá-la para si. Sua voz não é a que deve ser ouvida, mas a do primeiro, que o emudece. A invisibilidade deve ser por ele adotada como uma segunda natureza, pois quem deve ser visto é o titular, que o ofusca. Tudo isso ele deve ser (não sendo), se tiver juízo e sabedoria.

No Brasil recente, tivemos um segundo que soube sê-lo sabiamente: Marco Maciel, vice-presidente de Fernando Henrique Cardoso. Durante oito anos praticamente não ouvimos a voz do longilíneo e astuto pernambucano. Até quando substituiu transitoriamente o titular, fê-lo da maneira mais reservada possível, despreocupado de marcar posição, desprendido no seu recato republicano. Nosso conterrâneo Luciano Maia também soube ser segundo, quando exerceu sobriamente o cargo de vice-procurador-geral da República, no mandado da procuradora Raquel Dodge.

Conta-se que o ex-presidente João Figueiredo não perdoou seu vice Aureliano Chaves, quando este o substituiu por ocasião de seu afastamento para operar-se do coração nos EUA. É que o vice mostrou-se muito operoso durante a interinidade, e aí o contraste mostrou-se desfavorável ao titular. Donde se conclui que até nos defeitos a primazia pertence ao primeiro.

Nas premiações do Oscar, presto sempre atenção àqueles e àquelas que ganham o prêmio de melhor ator e melhor atriz coadjuvantes. Exatamente porque não é fácil ser o segundo. Os que conseguem ser premiados nessa condição é porque possuem talento e valor suficientes para ser o primeiro. E não raro conseguem sê-lo, mesmo em papéis aparentemente menores, na sombra enganosa que, de forma irresistível, termina sempre por revelá-los em insuspeitada grandeza.

Como se diz, é preciso saber ser Napoleão, mas também saber ser Bonaparte.

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