Era fim de ano de 1953, uma manhã de redação só animada pelos sinais de radiotelegrafia do noticiário. Eu estava sozinho antecipando o not...

O fenômeno

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Era fim de ano de 1953, uma manhã de redação só animada pelos sinais de radiotelegrafia do noticiário. Eu estava sozinho antecipando o noticiário nacional da Meridional, a agência Associada, enquanto Felizardo Montalverne, o supervisor trazido de Fortaleza, era aguardado para o fechamento da página que ao meio-dia entraria em composição. Era o tempo do jornal quente com linhas fundidas em estanho e chumbo, que eu vi com um misto de espanto e milagre ao encarar a linotipo.

Vivíamos os primeiros dias de adaptação do jornal ao sistema Associado. De repente, encabeçando um tropel de passos que apontava na escada, destaca-se aquele rosto de asteca aciganado cuja intimidade com o mundo fazia-o invejado e famoso.

Rapazote, ainda sem segurança no emprego, eu não soube, diante daquele grande homem, o que fazer. Só a custo fui me acomodando à aparição, ao fenômeno. Era Francisco de Assis Chateaubriand em pessoa, fenômeno muito antes de o atacante Ronaldo ganhar esse cognome. Ventrudo, a calça de listras larga em cima e estreita na descida para os sapatos, sem esses tamanhos todos e tomando a sala inteira.

Aliás, tomava o que bem lhe apetecesse, como aconteceu com o próprio jornal O Norte, adquirido depois de uma conversa de meia hora no palácio de José Américo em que os antigos donos foram convencidos de que o jornal estaria melhor e mais prestigiado na cadeia nacional dos Associados do que com um fabricante de tecidos. Tinha pronto e acabado o que simplesmente desejasse, como o biografou Fernando Morais, acatando sentença antiga de José Américo: “Tudo o que faz é loucura, até ser feito”.

Atrás dele, já no topo da escada, vinha o então governador paraibano João Fernandes de Lima, que substituía José Américo, chamado para o Ministério da Viação.

Na parede havia uma reprodução em detalhe de um quadro de Portinari: “Está vendo aí, João”. E passou a explicar o expressionismo das figuras e a violência de cores ao séquito de amigos, jornalistas e políticos que o acompanhavam.

Embora não faltasse cadeira na redação, sentou num birô, afrouxou o sapato, sem parar a aula, todos o ouvindo beatificamente. Foi a minha primeira e única aula de pintura. Uma preparação para, anos depois, ouvir José Simeão Leal, convidado por ele para uma visita ao recém-inaugurado Museu de Arte Moderna, no Rio.

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  1. Deve ter sido uma situação inédita, esta vivida pelo jovem aprendiz, à época.
    Vivi situação semelhante ao ser surpreendido pela presença do Professor Zerbini, durante um plantão na Beneficência Portuguesa de São Paulo.
    Porém, diferente da personalidade arrogante de Chateaubriand, Prof. Zerbini era muito gentil, e tratou-me muito bem, me acalmando, até.

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