Estreando em livro no auge da efervescência das vanguardas, Águia Mendes não fez do concretismo e seus desdobramentos uma espécie de cláus...

Uma obra em progresso

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Estreando em livro no auge da efervescência das vanguardas, Águia Mendes não fez do concretismo e seus desdobramentos uma espécie de cláusula pétrea, de verdade absoluta, pois, se assim o fizesse, calaria para sempre as muitas vozes “esquizofrênicas” que só os verdadeiros poetas sabem escutar e repercutir nos seus poemas. Não foi assim com Olavo Bilac, que ouvia estrelas? E com Ponge, que escutava as coisas? E ainda com o Ferreira Gullar do “Muitas vozes”?

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Mais do que um marco inicial de sua poesia, o seu livro “Jardim da infância” representou um ponto de referência, um fulcro gerador dos demais livros, na medida em que a sua dicção lírica ontem e hoje sempre se abasteceu de uma visão epifânica do mundo. Isso sem contar a recorrência a um humor sutil, requintado, responsável pela fatura de muitos dos seus poemas, sobretudo dos que compõem o livro “Sol de algibeira” (Ideia Editora, João Pessoa, 2010), a exemplo de “Os Mudos”: “os mudos/ quando brigam// (não importa/ a razão) // batem boca/ com as mãos”.

Mas se o eu lírico da maioria dos poemas dos seus livros anteriores criou raízes na infância e no que esta possui de pueril, de ingênuo, de jocoso, de sagaz, o de “Asa de cigarro” abandona parcialmente o lócus ameno, a zona de conforto, e passa a apreender uma realidade regida pela descrença, pelo ceticismo: “minha mãe diz que/ o mundo/ com a graça de Deus/ ainda vai/ ser um lugar justo e bom/ como nos sonhos caiados// vai porra nenhuma.

Em “Asa de cigarro” convivem lado a lado, fazendo contraponto, alguns poucos poemas de fatura em muito semelhante aos dos livros anteriores com outros poemas de uma nova safra, de uma nova messe, que já denotam um desvio no curso da práxis poética de Águia Mendes,
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procedimento usual do poeta desde “Jardim da infância”, quando já demonstrava o firme propósito de realizar um obra em franco progresso.

Pois bem, essa insatisfação constante proporciona à Águia Mendes frutos sumarentos, diferentes dos frutos pecos colhidos pelos que se extasiam com o imediatismo pedestre e monocórdico das elucubrações pretensamente poéticas.

Os leitores desse livro podem experimentar um certo estranhamento como sói acontecer com quem estivesse diante de um artista plástico cujas primeiras linhas sobre a tela menos explicitassem do que confundissem o espectador quanto aos reais objetivos propostos e almejados por ele. Então, somente aos poucos, paulatinamente, linha a linha, pincelada a pincelada, é que a obra vai adquirindo forma, cor e movimento. Também ao leitor de Águia Mendes cumpre conviver e se familiarizar com essa nova etapa de sua poesia, para, só então, poder usufruir da excelência de um poeta cuja obra faz a vez de uma espécie de moto-contínuo que lembra um verso lapidar de Paul Valéry: “La mer, la mer, toujours recommencée”.

Enfim, a exemplo do mar, a poesia de Águia Mendes se recomeça a cada verso, a cada estrofe, a cada poema, a cada livro, como se estivesse também a corroborar um verso antológico de Cecília Meireles: “A vida só é possível reinventada”.

* Prefácio do livro Asa de cigarro, de Águia Mendes, Editora Patuá, Rio de Janeiro, 2021.

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