Um dos meus filhos, Gustavo Olímpio, me traz de presente um aspirador com dispositivo para sugar o pó entranhado nos livros. Traz a gener...

Como uma folha solta

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Um dos meus filhos, Gustavo Olímpio, me traz de presente um aspirador com dispositivo para sugar o pó entranhado nos livros. Traz a generosa e oportuníssima vantagem de me dispensar de recorrer ao tamborete. A haste sugadora foi lá em cima e, no primeiro momento, ao inaugurá-la, faz despencar aberto ”Os trabalhadores do mar” na tradução de Machado de Assis, deixando soltar-se um papel dobrado a que dou pouca importância.

Agora eu era herói. E o meu cavalo só falava inglês. Chico Buarque / Sivuca Tinha eu, então, a idade dos curumins. Meu pai tentava ...

Hopalong Cassidy esteve em Campos do Jordão

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Agora eu era herói.
E o meu cavalo só falava inglês.
Chico Buarque / Sivuca

Tinha eu, então, a idade dos curumins. Meu pai tentava iniciar-me nos segredos da costura como modesto aprendiz em sua oficina na Vila Abernéssia e, como recomendava a prática de então, encarregava-me de manter aceso o carvão do ferro de passar, molhar as casimiras antes que Nicanor as passasse. Algumas vezes permitia-me o dedal para alinhavar algum forro de paletó, cujo prazo para entrega exigisse temporariamente minha promoção, de aprendiz a meio oficial, o que ainda muito me distanciava de meu pai na hierarquia da profissão, uma vez que ele deixara a Alfaiataria Globo, na Rua do Ouvidor, já na condição de contramestre,
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último e respeitoso degrau na escala dos profissionais da costura. Veio do Rio de Janeiro até Campos do Jordão para tratar dos pulmões. Aqui casou e estabeleceu seu negócio.

Minhas tardes eram assim: meu pai quase sempre ralhando comigo e Nicanor rindo de meu embaraço. Éramos os três a dar conta das encomendas, que em alguns meses rareavam, noutros vinham com abundância; e então, trazíamos o velho rádio de galena para que pudéssemos adentrar à noite no trabalho, sem que perdêssemos as novelas da Rádio Nacional. Nessas noites, acompanhava-nos minha mãe. Não foram poucas vezes que a voz melodiosa de Olga Nobre levou-a as lágrimas. Ela e o sentimental Nicanor.

As manhãs entregava-as sem muito entusiasmo ao Grupo Escolar. Pelejava com a tabuada e a caligrafia. Ao meu pai a preocupação era com os progressos que eu pudesse obter nas letras e no ofício. Assim, com igual rigor cobrava-me bom desempenho nesses dois afazeres. A paga pelo esforço nessas obrigações era a bagatela semanal de vinte cruzeiros, pecúnia que eu consumia nas matinês dominicais do Cine Glória ao lado de Nestorzinho, Angelino e Cecéu.

Éramos parceiros de escola e de sonhos.


Sábados não havia sem que corrêssemos à estação, esperando pela gôndola que chegava de Pindamonhangaba, pontual e rumorosa. Cecéu, o mais ansioso, mergulhava sempre seus olhos no horizonte e nos movimentos do velho Anacleto que consultava o velho patacão, a controlar o tempo e suas obrigações com a Estrada de Ferro. — Quatro e quinze! – anunciava. Depois olhava-nos com ternura, revelando cumplicidade com nossas expectativas – quatro e meia ela chega.

Chegava sempre e sempre no horário. Angelino roia as unhas.

Quem será que ela vai trazer hoje?

Logo depois despontava prateada e sacolejante apitando nos cruzamentos. Depois aportava na estação. Anacleto recolhia a encomenda do maquinista. Desembrulhava, olhava-nos com pose de arauto e anunciava quem viera nos visitar lá nos autos da Mantiqueira.

— Chegou o Tom Mix!

Era assim que chegavam todas as semanas aqueles forasteiros galantes e intrometidos: em grossos rolos de celulose.

Sempre fomos, os quatro, pontuais naquele rito semanal de oferecer hospitalidade calorosa àquele paladinos, de entregar-lhes nossos corações e tantos
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outros que pudessem pulsar acelerados nas barulhentas matinês do Cine Glória.

Não há ninguém de duvidar de nossa intimidade com seus feitos, sua biografias e principalmente com suas habilidades.

— Briga é com o John Wayne – desafiava Cecéu.

— É que ele nunca experimentou um murro do Buck Jones – reclamava Nestorzinho.

Eu não admitia cotação inferior ao meu paladino.

— Pode juntar os dois que não dão conta do Gary Cooper.

Tínhamos, todavia, concordância do que ia além das truculentas fronteiras da força muscular e adentrasse no mágico território da perícia. Concordávamos que pontaria era mesmo com Randolf Scott, que no laço e montaria Bob Steele era insuperável e que Allan “Rock” Lane era um porqueira, Roy Rogers era um pancudo e só prestava mesmo era para cantar. Assim inveredávamos pelos intrigantes labirintos dos defeitos e das vicissitudes. Muitos outros passaram pelo crivo impiedoso dos nossos julgamentos: Tom Tyler, Joel McCrea, Ray Carrigan, Ken Maynard, Tim McCoy, Hoot Gibson e outros tantos que fossem recolhidos naquele fim de mundo pelas mãos diligentes do velho Anacleto.

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Aos domingos, inaugurávamos as manhãs com nossas fantasias memoráveis nos terrenos desocupados da Vila Ferraz, ao sopé do morro da santa Casa, até onde fossem capazes nos levar aquelas ilusões de meninos. Um quarteto de cavaleiros, aboletados em cabos de vassoura a guisa de montaria.

Assumíamos a fleuma e postura de nossos preferidos. Eu gostava mesmo é de ser o Gary Cooper, Nestorzinho se achava o Buck Jones, Cecéu era o John Wayne e Angelino o Tom Mix. Éramos todos mocinhos. Os bandidos sanguinários e os índios perversos viviam apenas em nossas alucinantes imaginações, ou se travestiam de qualquer intruso que se intrometesse em nossas contendas. Aos nossos garanhões, fogosos como os da tela, conservávamos a fidelidade de seus senhores. Só eu mesmo, assim com Gary Cooper, não adotava uma única montaria. O cavalo de Cecéu era o Duke, de Nestorzinho o Silver e de Angelino o Old Blue.

Mais do que todos, eu me achava imbatível! Gostava de esmurrar o Jack Palance. Muitas mocinhas estiveram ali comigo. Eu as protegia dos peles-vermelhas, do terrível Touro Sentado. Sabiam que índio comigo era ali oh!, no cano do meu Colt! Muitas vezes fui ferido em combate, mas Angelino, ou melhor dizendo, Tom Mix, ajeitava os ferimentos com meu cachecol e eu ficava prontinho para beijar Jennifer Holt...Até na boca; se ela quisesse, é claro. Sempre era Dona Matilde que punha fim a nossos devaneios. Chamava por Cecéu, e então, descobríamos que era hora do almoço. Depois o banho e os aprontamentos. Minha mãe reclamava graxa nos sapatos e separava-me a melhor casimira para que eu, Cecéu, Angelino e Nestorzinho nos encontrássemos defronte ao Armazém Cristal, do Seu Pina, e iniciássemos a marcha rumo ao Cine Glória.

Na portaria, sempre Simão Cireneu. Eclético. Era ele também quem pintava os letreiros coloridos e reproduzia magistralmente as cenas mais emocionantes da película. Eram figuras perfeitas em letras góticas que anunciavam o espetáculo da tarde: “Os falsários do Oeste”. À nossa chegada, sempre além do título e da gravura, desfilava sua arte de relatar contendas com as quais iríamos nos deliciar nos instantes seguintes.

— Vão ver só a surra que Bob Steele aplicou no George Chesebro. Não deu nem pro começo — e gesticulava como fosse ele o autor do nocaute.

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Depois, tínhamos que dividir nossa euforia com a inquieta multidão que fazia do Cine Glória uma arena ímpar de virtudes, onde jamais pudemos presenciar uma vitória sequer do mal sobre o bem, da realidade sobre o mito, do cotidiano sobre os nossos sonhos.

Mas um dia, fez-me a vida perceber que além daquele quintal, havia bem mais do que os beijos de Jean Arthur e Jennifer Holt, do que as provocações de Jack Palance, do que o tiro certeiro do meu Colt e de nossas intrépidas cavalgadas atrás de apaches e chayenes.

Eram fartas as encomendas. Meu pai, Nicanor e eu nos entregávamos com afinco ao corte da casimira e do linho inglês. A premência dos prazos fez-me arriscar meu primeiro molde de colete e muito elogios ganhei pela exatidão do meu traçado.
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Ouvi orgulhoso meu pai repetir várias vezes:

— O menino tem mão. Tem mão!

Minha mãe traria o jantar e nem as novelas tiraram nosso ímpeto. Era Dr. Adhemar que estava para chegar com Dona Leonor para inaugurar mais um sanatório. Nosso estabelecimento nunca atendera gente tão importante. Até Doutor Silveira nos encomendara seu terno, e nossa modesta “Alfaiataria e Camisaria Paris” começava a ganhar fama na cidade. Meu pai, satisfeito com o andamento dos negócios, aventava a possibilidade de livrar-se da hipoteca de nossa casa, andassem as coisas como iam.

Chamado à responsabilidade não compareci à estação naquele sábado. Mas Angelino me viera até ao trabalho trazer-me a novidade.

— Chegou o Hopalong Cassidy!

Eu já ouvira falar dele. Simão Cireneu me contara. Roupa preta, cavalo branco. Bom de briga, bom de tiro. Revólver com coronha de marfim e ainda por cima não era de namorico. Era a primeira vez que Willian Bloyde ganhava nossas montanhas ostentando sua mais famosa personagem: Hopalong Cassidy. Chegava com atraso de mais de uma década, porque o Cine Glória não guardava critérios cronológicos. Aceitava de bom grado nossos heróis quando estes já tivessem entretido platéias de maior renome. Sabíamos esperar.

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A noite chegou com a frenética clientela num interminável “aperta aqui”, “ajeita ali”, que a mim muito incomodava, e que meu pai com solicitude não muito costumeira, atendia demarcando novas posições para o alinhavo. Assim fomos entregando as primeiras encomendas, e quando um cabide ganhava um colete que fosse, não podíamos esconder nossa euforia. O sono atirou-me em uma velha poltrona, mas o sol já me encontrou pelejando com as tesouras, e quando minha mãe chegou para atender os reclamos matinais de nossos estômagos eu ia percebendo que o Cine Glória estava ficando cada vez mais distante. Mais ainda, quando Cecéu apareceu reclamando a pontaria de Gary Cooper para os embates daquela manhã, e meu pai com um olhar de rabicho arrefeceu minhas pretensões.

As horas impiedosas voavam, e a cada quarto passado, eu consultava Nicanor, como a lembrar meu pai pelo adiantado delas, dos meus proventos, que ele ainda não se lembrara de “acertar minhas contas” como fazia todos os domingos. Ele, indiferente às minha ansiedades, acionava os pedais. À hora dos aprontamentos, como minhas insinuações se tivessem mostrado vãs, recorri à lágrimas, num último recurso de lembrar meu algoz, que naquela tarde era Hopalong Cassidy instalando seu nome na galeria de nossos astros prediletos. Mas meu pai não entendia de cowboys como eu não entendia de hipotecas. Mas como as armas daquele forasteiro não tinham calibre para resgatar promissórias,
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recomendou-me a prudência que eu deixasse as lágrimas e ficasse com as agulhas.

Não fui me encontrar com Angelino, Nestorzinho e Cecéu. Era a primeira vez que meu coração experimentava a dolorosa sensação da impotência. O mundo era definitivamente maior do que meus sonhos. A hipoteca da minha casa não deixava lugar para aquelas fantasias que somente nós, eu Angelino, Nestorzinho e Cecéu podíamos compreender suas mágicas dimensões. De súbito meu pai começou a ralhar comigo, que eu não tinha responsabilidade com a vida, que se ele não contasse com o próprio filho, com quem iria contar? Disse ainda, que eu estava ficando meio aluado com aquela história de cinema, que ele estava velho e doente e que de uma hora para outra, oh!... E quem iria tomar conta dos negócios? E completou:

— Você? Com garrucha de mentira na cinta?

Terça-feira teríamos que entregar o que faltasse de encomendas. O homem ia chegar na quarta e ai se não estivesse tudo pronto! Mas eu não queria saber do Adhemar de Barros, do Jânio Quadros, do Marechal Lott, de ninguém, queria mesmo era ver o Hopalong Cassidy, e para mostrar a força de minha preferência atirei-me novamente às lágrimas e aos soluços.

Passados hoje tantos anos, não posso crer que meu pai fosse cruel àquele ponto de atirar-me ao rosto o ferro de passar. Foi coisa do momento, do medo de perder nossa casa. Deixou-me com essa cicatriz. Ele mesmo nunca se perdoou por isso. Morreu dois anos depois quando os pulmões fraquejaram de vez. Creio que o amo. Sempre o amei. Não o amasse, não estaria aqui, na “Alfaiataria e Camisaria Paris” como sempre ele desejou. Nunca e por motivo algum abro a alfaiataria aos domingos. Algumas vezes confesso que choro, por meu pai, por essa cicatriz... Mas principalmente, por lembrar que o Cine Glória não existe mais.

Entre tantas outras coisas, impressionou-me, no romance “O Jogo da Amarelinha” (“Rayuela”) , de Júlio Cortázar, o problema de seu persona...

A morte e 'El sentimento de no estar del todo'

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Entre tantas outras coisas, impressionou-me, no romance “O Jogo da Amarelinha” (“Rayuela”) , de Júlio Cortázar, o problema de seu personagem Horácio Oliveira:

“el sentimento de no estar del todo”,

que deu nome para algo estranho que eu também vivia.

Num ensaio posterior a respeito, Cortázar diz se sentir “siempre un poco más a la izquierda o más al fondo del lugar donde se debería estar”.

Aconteceu em Florença. E foi incrível. Não por ser lá, embora naquele contexto inspirador tudo é mais possível. O fato poderia ter ocorrid...

Afinal, era Florença...

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Aconteceu em Florença. E foi incrível. Não por ser lá, embora naquele contexto inspirador tudo é mais possível. O fato poderia ter ocorrido em qualquer cidade do mundo, sem distinção. E tanto inevitavelmente emocionaria o mais insensível dos seres.

Será que precisamos ter um fato absolutamente pessoal para poder colocar a nossa coragem em movimento? O que é indignação? Será que v...

O que é coragem?

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Será que precisamos ter um fato absolutamente pessoal para poder colocar a nossa coragem em movimento?

O que é indignação?

Será que vivemos tantos desafios e absurdos por tanto tempo que nos acostumamos e consideramos tudo normal?

Creio que algumas palavras de nosso vocabulário precisam entrar no debate a fim de que encontremos para elas um “novo” significado que seja capaz de evocar a sua essência e ao mesmo tempo invocar a coragem e a indignação própria dos atributos humanos que estão, sem dúvida alguma, entrando no que Roberto Crema chama de “normose” - uma espécie de fungo, musgo que paralisa e tira da visão esses atributos primários que antecedem a todos os outros atributos, inclusive o amor e a fé. Sem a coragem o amor vira algo distante de seu significado original, vira um conjunto de regras e padrões sociais, que aos poucos vão o empalidecendo e retirando a sua força transformadora. Sem a coragem a fé vira um instrumento de controle com base em inverdades opressoras que dão asas aos preconceitos de todas as formas…

O fanático é alguém excessivamente aferrado a um credo, um sistema, uma ideologia. Ele não manifesta apenas uma adesão; de tal...

Fanatismos

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O fanático é alguém excessivamente aferrado a um credo, um sistema, uma ideologia. Ele não manifesta apenas uma adesão; de tal modo se compenetra daquilo em que acredita, que a priori despreza qualquer valor ou sentimento distintos dos seus.

Lendo agora as memórias de um intelectual brasileiro que acompanhou de perto, e atentamente, o desenrolar da célebre revolta estudantil, a...

Eles só queriam fazer amor

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Lendo agora as memórias de um intelectual brasileiro que acompanhou de perto, e atentamente, o desenrolar da célebre revolta estudantil, até hoje comentada e que iria se espalhar pelo Ocidente, pus-me a refletir sobre a imprevisibilidade de certos acontecimentos da história. Não de todos, concedo, pois que existem aqueles cujas premissas vão se formando de forma tão clara e inequívoca, à vista de todos, que sua eclosão não chega a surpreender, já que vêm marcados pelo selo das coisas inevitáveis. Mas em muitos casos, não há dúvida de que os acontecimentos surgem fora de qualquer previsão, desencadeados por causas às vezes banais, só podendo ser compreendidos a posteriori,

No segundo ano de pandemia, em que mais uma vez os festejos juninos foram sem graça, consola-me recordar o tempo recluso na memória. Sã...

Festejos juninos sem graça

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No segundo ano de pandemia, em que mais uma vez os festejos juninos foram sem graça, consola-me recordar o tempo recluso na memória. São João sem fogueira, quadrilhas juninas (hoje as quadrilhas imitam escolas de samba), comidas de milho e boas conversas, não agradam.

Na época de criança no sítio Tapuio, que continua compondo a paisagem da memória afetiva sempre recordada como alimento para a paz do espírito, alguns lembravam das festas juninas na fazenda quando nossos antepassados ali chegaram, de carro-de-boi e facão, abrindo veredas para plantar esperança e cultivar família.

MANUAL DE QUESTÕES ELEMENTARES SOBRE ENGENHARIA DOMÉSTICA   O que de perene resta da rupestre arte de equivocar-se? Seria f...

Luz apagada

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MANUAL DE QUESTÕES ELEMENTARES SOBRE ENGENHARIA DOMÉSTICA
 
O que de perene resta da rupestre arte de equivocar-se?
Seria flagelo o silêncio  ou equívoco de enganar-se? Morre-se por tentar ou ignora-se para salvar? Pode ser a morada mórbida  como um claustro? Abrir a porta — metáfora  ou ato de desespero? Seria a paixão fonte de saudade e motivo de erro? O mínimo é indispensável ou vale mais o exagero?  O que se atira para fora  é sobra ou esperança? Na sanha dos corpos escreve-se uma aliança?

Li uma citação de Andrew Carnegie: “Há muitas pessoas vivendo numa prisão imaginária, são os prisioneiros de suas próprias mentes, ali jog...

Toda montanha pode ser ultrapassada

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Li uma citação de Andrew Carnegie: “Há muitas pessoas vivendo numa prisão imaginária, são os prisioneiros de suas próprias mentes, ali jogados pelas limitações impostas a si mesmas, aceitando a pobreza e a derrota.”

As montanhas dos nossos obstáculos íntimos não são nada fáceis de serem vencidas. Cada um possui as suas com peculiaridades bem únicas, mas todas elas poderão ser vencidas, ultrapassadas, aproveitadas, vividas.

Todas as noites é sempre a mesma história. Depois de passar o dia sendo disputada pelos nossos filhos e netos e a todos servir sem fazer d...

Prazeres noturnos

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Todas as noites é sempre a mesma história. Depois de passar o dia sendo disputada pelos nossos filhos e netos e a todos servir sem fazer distinção, sem demonstrar predileções que possam causar ciúmes, é chegada a hora de ela me acolher para alguns momentos mais íntimos.

Ela espera pacientemente, até que me decida a ceder ao seu apelo. Às vezes demoro muito a ir para o quarto, escrevendo alguma coisa até tarde, ou assistindo um bom filme, um documentário sobre a natureza, um noticiário ou um debate político ou cultural. Mas ela não perde a paciência, apenas me aguarda.

sem fórmula não piso a embreagem, piso a paisagem e a ponho em primeira, segunda, terceira e quarta de segunda a sexta. (às ...

Paisagens vistas de um retrovisor

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sem fórmula
não piso a embreagem, piso a paisagem e a ponho em primeira, segunda, terceira e quarta de segunda a sexta. (às vezes dou-lhe ré, mas ela sempre me escapa). aos sábados e domingos deixo-me ficar em ponto morto diante dessas fotos já sem cor:

Parado em busca de um transporte que pare e o leve. Inicialmente, acredita ser enviado ao futuro num ônibus com uma placa qualquer com u...

Paradas repetidas

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Parado em busca de um transporte que pare e o leve. Inicialmente, acredita ser enviado ao futuro num ônibus com uma placa qualquer com um número e um nome indicativos de um destino previsível. De fato, um caminho feito em ritmo de dejá-vu, uma volta ao mesmo lugar, uma revolta ao ponto inicial. E um veículo se aproxima. Braço esticado, velocidade reduzida, embarca, senta, respira, transpira.

Diante da resposta à pergunta de um taxista paquistanês, em Nova York, sobre quais eram os inimigos da Itália, Umberto Eco responde que os...

Precisamos realmente de um inimigo?

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Diante da resposta à pergunta de um taxista paquistanês, em Nova York, sobre quais eram os inimigos da Itália, Umberto Eco responde que os italianos não têm inimigos, o que foge à total compreensão do seu interlocutor. A partir daí, Eco constrói o instigante ensaio “Construir o inimigo”, que abre e dá título à mais recente edição de seu livro Construir o inimigo e outros escritos ocasionais (tradução de Eliane Aguiar, 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2021). São quinze ensaios sobre assuntos diversos, escritos e pronunciados, a maioria em Bolonha, entre os anos de 2001 e 2010. Destes,

O causo me chegou pelo meu compadre, Paulo César, padrinho de meu rebento Cauê. Este meu amigo, foi professor de Cálculo no curso de engen...

O atrito

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O causo me chegou pelo meu compadre, Paulo César, padrinho de meu rebento Cauê. Este meu amigo, foi professor de Cálculo no curso de engenharia de uma conceituada faculdade pública lá de Itajubá, sul de Minas. Foi de lá que ele me veio com esta história. Verdade? Meu compadre não iria mentir para mim.

Há uma tendência natural a achar que a aparente opinião da maioria revela a verdade. Somos imbuídos a compreender que a realidade dos fat...

Distorção perceptiva

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Há uma tendência natural a achar que a aparente opinião da maioria revela a verdade. Somos imbuídos a compreender que a realidade dos fatos está no olhar majoritário das pessoas. Quando assim nos comportamos, assumimos o risco de adotar o que se chama de “distorção perceptiva”. Recusamos o direito de pensar por nós próprios. Deixamo-nos ser influenciados pelas informações que nos são transmitidas, sem o cuidado de analisá-las ou interpretá-la

Há mais de 20 anos, quando vi na TV a notícia da morte de Linda McCartney, ela aparecia cavalgando com Paul ao som de uma de suas belíssim...

O dia em que encontrei um Beatle

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Há mais de 20 anos, quando vi na TV a notícia da morte de Linda McCartney, ela aparecia cavalgando com Paul ao som de uma de suas belíssimas canções. Lembrei-me de um dia, na primavera de 1987, quando estava na cidade de Bath, Inglaterra. Fui conhecer essa cidade linda e famosa por suas termas e arquitetura romana, quando li no jornal que Linda McCartney faria uma exposição de fotografias no dia seguinte. Aventurei-me a ir à galeria, para dar uma espiada de véspera...

O coração respondeu, em 1958, com batidas mais fortes ao aviso da escola primária, no Recife. Estava lá no quadro negro em letras grandes...

Acordai, João

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O coração respondeu, em 1958, com batidas mais fortes ao aviso da escola primária, no Recife. Estava lá no quadro negro em letras grandes de giz: “Férias a partir de 15 de junho”. Notícia melhor então não havia. E a data assinalada com antecedência de uma semana me recomendava a providência: a mudança das melhores peças de roupa do armário para a mala. Disso e de uns 20 gibis, alguns ainda não lidos.

“Se Deus quiser, ano que vem o São João vai ser o melhor de todos os tempos!”. Esse foi um dos desejos que notei – em tom de prece – na ag...

Junho é sentimento!

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“Se Deus quiser, ano que vem o São João vai ser o melhor de todos os tempos!”. Esse foi um dos desejos que notei – em tom de prece – na agenda no dia primeiro de junho de 2020. Esperava já estar livre desse mal que tem arrasado o mundo inteiro, mas não, ainda não. Fincar o pé em mais um mês de junho assim é estranho, triste demais. Guardo no peito a importância que esse mês possui, desejoso que a normalidade um dia chegue.

Quando lancei pela Codecri, em 84, ZÉ AMÉRICO FOI PRINCESO NO TRONO DA MONARQUIA, em que apontava semelhanças d"A Bagaceira" - ...

Hamlet e A Bagaceira

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Quando lancei pela Codecri, em 84, ZÉ AMÉRICO FOI PRINCESO NO TRONO DA MONARQUIA, em que apontava semelhanças d"A Bagaceira" - "que rompia com a influência da literatura inglesa sobre a brasileira" - com o "Hamlet" - do mais inglês dos ingleses - Shakespeare -, semelhanças que incluíam pontos marcantes na vida do próprio autor, que literalmente transitava num palácio, o da Redenção, nas tramas que nos levaram à Revolução de 30, tive o livro contestado por Hildeberto Barbosa Filho, José Octávio de Arruda Mello e Wellington Aguiar - três nomes de peso, no estado - cada um num dos nossos grandes jornais, na época: Correio da Paraíba, A União e Jornal da Paraíba. Meu "ensaio com estrutura de romance policial" foi encarado pelos três como coisa tipo cloroquina do Bolsonaro, conceito com que permanece até hoje.

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Quando meu livro saiu em capítulos, pelo Correio da Paraíba, bem antes da publicação no Rio, o escritor, já longe das palavras entredentes que me dirigira quando eu fora à sua casa lhe falar da obra, me mandou um cartão contido: “Você leu meu romance com lentes de aumento. Seu estudo é lapidar e profundo. Mas não pode ter havido influência. Os dramas humanos se repetem”.

Na verdade, eu via algo, ali, como o que Joyce - explicitamente - fizera com a "Odisseia" ao criar o "Ulisses", publicado oito anos antes d’A Bagaceira". Talvez até ... inconscientemente, pois quando - depois do primeiro choque nosso - ele me acompanhou até o portão de sua casa, em Tambaú, eu lhe perguntei se já notara como o começo do romance dele, com os flagelados indo à casa-grande do Marzagão pedir ajuda, repetia o começo do "Édipo", com o povo de Tebas, assolado pela peste, fazendo o mesmo no palácio real, parou e disse: "É mesmo!"

Em 2005, por sinal, em minha HISTÓRIA UNIVERSAL DA ANGÚSTIA, publicada pela Bertrand Brasil, eu incluiria um romanceamento, meu, do "Édipo" e, outro, do "Hamlet".

Tudo isso começou quando associei o Lúcio - angustiado filho do Dagoberto e "que se faz de doido pra viver melhor" - a Lucius Junius Brutus, modelo evidente da saga dinamarquesa de Shakespeare: morto, em Roma, seu pai, Rei Tarquinius, o jovem – pra escapar com vida e vingar-se – fizera-se de doido (daí seu apelido de Brutus, que acabaria sendo o de sua família).
O resto foi fácil. Se o angustiado estudante de direito, Lúcio - de férias na fazenda Marzagão, em Areia - era o angustiado Príncipe universitário de Wittenberg - de férias na Dinamarca, o pai, Dagoberto Marçau, dono da terra, era o Rei Cláudio, padrasto de Hamlet. Soledade, paixão de Lúcio (e do pai dele), era Ofélia - paixão do Príncipe - e, ao mesmo tempo, Gertrudes, Rainha da Dinamarca (paixão do padrasto e - segundo Freud - também do filho). O falastrão Valentim - pai de Soledade - era o falastrão Polônio - pai de Ofélia, que ao vê-lo morto, enlouquece e sai cantando algo que falava de uma donzela que, no dia de São ... Valentim, perdera a virgindade. Pirunga - irmão de criação de Soledade - era Laertes - irmão de Ofélia.

'HAMLET E O COMPLEXO DE ÉDIPO, de ERNEST JONES, discípulo e biógrafo de Freud, foi essencial para mim, nesse estudo. Tudo que, nele, é hipótese, encontra, n’A BAGACEIRA", possibilidade da confirmação. Pergunta-se, por exemplo: Laertes teria, mesmo, um amor incestuoso pela irmã Ofélia, como assegura Jones? N'A Bagaceira”, Pirunga é apenas irmão de criação de Soledade e a deseja ansiosamente, quer casar-se com ela. O Príncipe sentiria, mesmo, um amor criminoso pela mãe? N'A Bagaceira”, Lúcio não consegue possuir Soledade, porque ela se parece tanto com senhora do Marzagão - falecida no parto em que o rapaz nascera - que ele chega a fazer que desenha o retrato da moça, mostrando-lhe, em seguida, a fotografia da finada. É isso.

A vida fascina justamente por seu intrincado modo de agir, que não se esclarece quando cloroquinamente tratado.

Há muitos epítetos que rondaram a carreira do insigne cineasta francês François Truffaut, morto prematuramente aos 52 anos, em 1984, devid...

O olhar genial de Truffaut sobre a infância

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Há muitos epítetos que rondaram a carreira do insigne cineasta francês François Truffaut, morto prematuramente aos 52 anos, em 1984, devido a um câncer no cérebro. Um deles é o de que era o “cineasta da ternura”. Outro, “o cineasta da infância”. São rótulos que a imprensa e os produtores criam para vender filmes. Com efeito, Truffaut era um homem de extrema elegância — e não só cinematográfica —, espiritual inclusive. No caso de seu valiosíssimo clássico “Os incompreendidos” (“Les 400 coups”), a infância nunca fora retratada de forma tão poética, tocante e melancólica. Portanto, no que tange a essa película, vale o chavão que marcou o diretor francês.

Composta em 1951, a música de Luiz Gonzaga/José Fernandes anunciava a chegada do São João. Tempo de decorar a casa com bandeirolas, compra...

'Olha para o céu, meu amor'

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Composta em 1951, a música de Luiz Gonzaga/José Fernandes anunciava a chegada do São João. Tempo de decorar a casa com bandeirolas, comprar fogos de artifício e enfrentar o “banho de chuva’, que chegava em junho, para escolher o “melhor” milho nas feiras livres... na casa a mobilização de todos no preparo das comidas típicas. Ralar, peneirar com a urupema a massa mais espessa para pamonhas e com a peneira fina para canjica.

Leio que o edifício do Ipase vai ser restaurado e adaptado para moradia popular. A ideia não é nova, já se ouviu falar nisso em promessas...

O que fazer do Ipase

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Leio que o edifício do Ipase vai ser restaurado e adaptado para moradia popular. A ideia não é nova, já se ouviu falar nisso em promessas de intervenções anteriores. Felizmente ficou na promessa.

“Ando sofrendo de uma ideia fixa que está me matando” - assim escreveu ele ao amigo desculpando-se pela incapacidade de se fazer presente....

O triunfo do delírio

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“Ando sofrendo de uma ideia fixa que está me matando” - assim escreveu ele ao amigo desculpando-se pela incapacidade de se fazer presente. “Encontro-me em um estado lastimável, com nervos exaltados e incapaz de manter uma conversação com algum nexo. A profunda melancolia provoca-me alucinações e até convulsões”, complementou.

No bairro onde habito, ainda apresentando aspecto rural apesar dos grandes edifícios erguidos em seu entorno, vez por outra aparece um car...

O canto do carcará

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No bairro onde habito, ainda apresentando aspecto rural apesar dos grandes edifícios erguidos em seu entorno, vez por outra aparece um carcará que nos desperta ao alvorecer. Impertinente e vadio, ao que suponho, solitário, sobrevoa à cata de alguma coisa. Em certa ocasião, numa manhã chuvosa, já me encontrando no espojeiro de minhas leituras, tentei descobrir qual espécie desta ave sobrevoava ao redor de minha casa, mas não consegui.

Noutra ocasião, ainda à mesa do café, lá fora o carcará mais uma vez anunciava a solidão dos animais que perderam sua paisagem, que catam espaço para viver e repousar. Carregamos a mesma sina de viver cada um sua agonia, num voo rasante entre nuvens nebulosas dos tempos atuais.

Quando fechei o livro Sagrado das leituras diárias, peguei o lápis e as folhas de papel que estavam ao meu lado, com as anotações sobre o período quando perambulava pelas capoeiras e roçados do Tapuio de minha infância, tempo quando escutava e observava gaviões que plainavam sobre a mata espessa e capoeiras de nosso sítio. Agora o canto e seus olhares de outro gavião retornam-me às manhãs chuvosas do meu passado, como lenitivo e emplastro sobre as feridas, fazendo-me prisioneiro da saudade sem fim.

Vai para longe, carcará, leva a saudade que não consigo reduzir nem conter os anseios que atormentam. Caminhar pelas veredas de Serraria, com a camisa aberta ao peito, como cantou o poeta, seria o bálsamo a ungir esta nostalgia. Não é preciso permanecer tanto tempo rondando minha casa, mesmo às escondidas, porque esse seu cantar basta. O retinir do seu canto me faz lembrar as manhãs quando andava pela capoeira, solitário, narrando para as sombras invisíveis - a minha própria sombra - os devaneios atormentadores.

Antigamente no meu caminhar soturno pelas veredas de minha terra escutava o canto dessa ave que ribombava na solidão das grutas, onde também retinia a ária silenciosa do meu coração, que sufocava e ninguém ouvia.

Em todo o momento, fosse em dias chuvosos, nos dias com sol, nas noites enluaradas ou frias quando ocorriam os festejos juninos, seu cantar estava sempre comigo. No sítio andava pelas capoeiras a passos lentos para não espantá-lo. Ele e eu regíamos nossa solitária orquestra, cada um com sua dor.

Naquela manhã, o carcará urbano, solitário, pareceu evoluir das nossas lamentações. Seu canto intermitente, às vezes longínquo, tinia aos meus ouvidos. Olhava pela janela, por onde o vento frio penetrava na sala, mas não o avistava. Retornando aos afazeres, envolto meditações acera de passagens do Cântico dos Cânticos, ainda sem acomodar no papel os pensamentos que vagueavam pela mente, tentava afastar as antigas lembranças do passado que buliam comigo. Agarrei o lápis e comecei a rabiscar este remendo de crônica.

Quando cursava a graduação em filosofia, ainda bem jovem, eu tinha um colega que era, digamos, um tanto quanto fora dos padrões socialment...

Para além da 'mente'

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Quando cursava a graduação em filosofia, ainda bem jovem, eu tinha um colega que era, digamos, um tanto quanto fora dos padrões socialmente aceitos. Ele estava sempre com uma camisa social aberta até o umbigo e conduzia consigo uma pequena mala de viagem carregada. Além do visual exótico, o seu comportamento tampouco concorria para que fosse considerado como alguém ponderado e equilibrado. Apesar disso, era um aluno que fazia intervenções pertinentes.

17 anos de morte e vida. Neste mês de junho completam-se 17 anos do rompimento da "Barragem de Camará", a mesma que invadiu...

A fúria de Camará

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17 anos de morte e vida.

Neste mês de junho completam-se 17 anos do rompimento da "Barragem de Camará", a mesma que invadiu intempestivamente a cidade de Alagoa Grande-PB.

Parece que foi ontem!

A vida passa, e tantas vezes, não nos pede consentimento, nem nos dá conhecimento dos desvãos de suas íntimas surpresas avassaladoras.

A barragem se rompeu! E, do ninho onde dormiam as suas águas, rompeu-se com um barulho de vulcão, a sua quietude e, inesperadamente — de madrugada — ainda no escuro da noite, desaguaram todos os seus terrores e fantasmas.

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Como uma gigantesca serpente veloz pelas grutas dos caminhos, margeando a Serra da Borborema, foi fazendo suas ranhuras pelo chão da terra, ainda adormecida do Sertão do Paó.

Numa invasão gravíssima, num frio árduo da madrugada do mato brejeiro, desde o furor de suas comportas estranguladas na cidade de Alagoa Nova, atirou-se, destruindo quase tudo, e sem clemência!

Das agonias que a sua ira deixou, ficaram as sequelas de um tempo de assombrações e perdas irreparáveis.

Passados 17 anos, só os sarcófagos vieram à tona. Esses da nossa imaginação. Todos cheios de restos de casas simples, sem cadeiras nas calçadas, misturadas com os sambaquis, pedaços de pontes, encostas, restos de móveis, colchões que boiavam ao léu sem servir mais para o sono tranquilo dos
homens, das mulheres, das crianças e dos bichos de criação e de estimação.

Cada um se somando à sua história, à própria culpa da sorte que o destino atribuiu a um caso negligente. E foi!...

A oficina de Jorge Alemão virou leito na água turva da inundação. As águas levaram todas as fundações de sua oficina, só deixando os consertos das máquinas pesadas dos engenhos, e dos tachos e moendas que o eficiente Jorge reconstruiu em Alagoa Grande e deixou na memória da cidade. Se vivo fosse, aquela devastação teria sido considerada uma terceira guerra, do tipo daquelas que destroem os indefesos, tais quais as ruinas da Segunda Guerra que lhe tangeram da Alemanha para Alagoa Grande, capital dos quilombolas. E assim, as águas que rolaram durante o revés, só poderiam esbarrar na simbologia feita de espera, após os ventos enxugarem a rebelião e o desastre, e desenharem no espelho das águas enlameadas, a partitura de algum opus de Ludwig Van Beethoven e Johan Sebastian Bach, seus conterrâneos do céu.

O "Clube 31" - por exemplo - onde noites maviosas entraram na relação das coisas eternas, saudosas, sagradas, ficou estremecido! Enfraquecidas as suas bases, empurraram-no para o chão. Aquele castelo de enlevos de música e de paixões bem que deveria ser reconstruído noutro lugar da cidade, no mesmo formato, porém, numa versão maior. Deveria, sim, para grandioso ser o espaço a fim de rememorar o que dele cresceu tanto e muito se eternizou.

Também revitalizados deveriam estar os outros monumentos, tal qual a “Estação Ferroviária”, ora carrilando o vagão do abandono, fora da linha de qualquer interesse político, estilhaçado pelos anos, em plena lembrança viva ainda, apesar de tudo, sem a concretude merecida da memória oficializada. Enfim, o prédio ainda agoniza, morrendo lentamente ao cair dos seus últimos rebocos. Sem trem, sem trilhos, sem rumos. Só as viagens fenomenais estacionadas na configuração do passado.

E outros tantos patrimônios ceifados, a exemplo da Banda de Música, extinta por um canalha, regida por um dobrado mal composto e um espírito roto que a desafinou e a jogou para as bandas do lixo. São valores tangidos, brutalmente, do convívio do povo, esse que tanto precisa ficar contente e sorrir mais um pouquinho, além da vida!

Muitos estão alimentados por alguma beleza que poderia ser mais bem cuidada. Estão metidos numa ilusão! Essa é a sustentação, ou diria, o consolo de quem não quer reconhecer que essa terra amada poderia ser maior e ter mais brilho e mais beleza!

Outros patrimônios urgem, e não foi só a ira de Camará, mas os atos de destruição que todos veem, todos sabem, e quase todos se calam, mas nunca apontam para os culpados, justamente, em época de eleição.

Alagoa Grande não merece esse padecimento. Isto é muito sério!!! Ou melhor, seríssimo!!!

Por outro lado, não podemos ir só envelhecendo nessas lamúrias, advindas de tantos reveses e tantos Camarás da vida, pela natureza tempestuosa, mas também pelo não saber cuidar, pelos maus tratos, e essas omissões de gente com viseiras, sem amor e sem excelência nenhuma.

Quando Deus, já exausto, parou de fazer a Natureza e viu que da sua lista ainda faltava uma criação, decidiu fazer um ser que fosse a sua ...

Uma divina obra-prima

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Quando Deus, já exausto, parou de fazer a Natureza e viu que da sua lista ainda faltava uma criação, decidiu fazer um ser que fosse a sua imagem e semelhança. E fez o Homem a partir do barro.

Bom, isso é o que a Bíblia diz. Mas ela não fala que, após algum tempo observando o homem interagir com a natureza, começar a olhar para as plantas e os bichos de cima para baixo, perguntar-lhes “você sabe com quem está falando?”, não gostou muito do que viu.

Gilberto Freyre escreveu dois artigos de enorme importância para a bibliografia crítica de Augusto dos Anjos. O primeiro foi redigido em i...

Gilberto Freyre, leitor de Augusto dos Anjos

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Gilberto Freyre escreveu dois artigos de enorme importância para a bibliografia crítica de Augusto dos Anjos. O primeiro foi redigido em inglês e publicado em The Stratford Monthly (Boston, setembro de 1924). Traduzido para o português por Miguel Lopes Viera Pinto, está reproduzido em Perfil de Euclides e outros perfis, que foi publicado em 1944 pela José Olympio, na série Documentos Brasileiros.

Diz-se, não sem razão, que a primeira impressão é a que fica. Sim, mas não sempre. Vejamos. Claro que a impressão inicial tem muita força,...

Primeiras impressões

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Diz-se, não sem razão, que a primeira impressão é a que fica. Sim, mas não sempre. Vejamos. Claro que a impressão inicial tem muita força, até porque é a que fica para sempre quando não temos a oportunidade de aprofundá-la e de revê-la (quando é o caso). Vê-se, portanto, que não raro essa impressão inaugural é equivocada, motivo pelo qual ela não fica, não deve ficar. E aí o que vai ficar é a segunda ou a terceira impressão, aquela que nos oferta a versão mais verdadeira ou mais aproximada da verdade das pessoas e dos fatos. Ainda bem.

Anselmo de Lyra, 52 (Bairro Mauricio de Nassau) Minha mãe descansava o horizonte na tarde desenhada tão leve e eu morto ...

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Anselmo de Lyra, 52 (Bairro Mauricio de Nassau) Minha mãe descansava o horizonte na tarde desenhada tão leve e eu morto de felicidade me deliciava