É da Professora Beatriz Jaguaribe a tese segundo a qual "a literatura e outras artes retomaram o realismo estético, ou ‘o choque do r...

Adalberto Barreto e a Invenção da Verdade

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É da Professora Beatriz Jaguaribe a tese segundo a qual "a literatura e outras artes retomaram o realismo estético, ou ‘o choque do real’, como uma das manifestações mais importantes da cultura globalizada (a expressão ‘choque da cultura é assim definida pela professora: ‘a utilização de estéticas realistas que visam a suscitar efeito de espanto catártico no espectador ou leitor’)". 1

Em resenha publicada no jornal “O Norte”, do dia 2 de fevereiro de 2006, escrevi: “Após a leitura de ‘Concerto para arranha-céus’, livro de contos de Ronaldo Cagiano, a minha conclusão não poderia ter sido outra: a realidade está pintando no pedaço da ficção.
E pintando com todas as tintas, já que o ‘parque’ da ficção – e lembro, aqui, ‘Continuidade dos Parques’, conto antológico de Julio Cortázar – pouco a pouco vai cedendo lugar à realidade em todas as suas dimensões e latitudes”. E concluía: “Os ‘parques’, então, que antes possuíam mão dupla, reduziram-se a um só e com mão única, uma vez que a imponderabilidade do mundo real parece se sobrepor (?) ao mais engenhoso e fantástico dos enredos ficcionais”.

Conforme Machado de Assis, escritores existem para os quais a perfeição somente seria obtida no dia em que eles dissessem “(...) o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha”. Quer dizer, um dos equívocos dos realistas residia justamente no esforço hercúleo e vão de ser mais realista do que a própria realidade.

Hoje, passados mais de cem anos do falecimento do “Bruxo de Cosme Velho”, o realismo das minúcias deu vez a textos geralmente elípticos, telegráficos, mais devedores das técnicas jornalísticas do que das literárias. Isso sem contar que, além de carecerem dos ingredientes ficcionais, parecem ser mais roteiros de cinema do que literatura, mais elaborados para a visão do espectador do que para a reflexão do leitor.

Os textos de Adalberto Barreto são textos que chocam, sim; mas chocam muito mais pela carga de ternura que impregna personagens e tramas. E se extraem do real o enredo, a urdidura, os episódios, estes se assentam no quê de ficcional existe na construção das frases, nas metáforas, enfim,
em tudo o que Adalberto retira das muitas leituras que fez. Ou seja, porquanto encharcados de vida, os contos de “A Menina do espelho” também se nutrem das vertentes livrescas. E inovam. Sobretudo se levarmos em conta que o leitor – e falo do leitor voraz e veraz – já anda meio ressabiado de fluxos da consciência, de interrupções da ordem cronológica, de dissoluções da categoria de causalidade, de fragmentações de personagens etc. etc, justamente por se situar numa época inflacionada pela “tradição da ruptura”. Ou pela tradição da pseudo-ruptura. Daí Adalberto Barreto inovar quando restitui ao gênero conto a função de contar uma história com início, meio e fim. Quando assimila e dilui as técnicas narrativas sem o cabotinismo de quem escreve muito mais para se filiar a modismos do que pela necessidade de obedecer aos ditames do ‘eu profundo’”.

Por outro lado, são regionalistas da melhor cepa os contos de Adalberto Barreto, mesmo se considerarmos que o termo regionalismo soa de forma depreciativa por conta de alguns críticos já terem decretado a sua morte. Justamente aqueles que, incensando o Modernismo, assim procedem movidos pela intenção pura e simples de minimizar a importância do Regionalismo de 1930, cujos autores produziram obras muito mais importantes e definitivas do que os de 1922.

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Mas Adalberto Barreto é regionalista com o mesmo brilhantismo com que Marques Rebelo é um autor urbano, pois ambos dão conta do recado, principalmente quando extrapolam os estreitos limites da realidade para fazer uso dos ingredientes ficcionais. Que o diga – no caso de Adalberto Barreto – uma simples nota de pé de página no conto de abertura de “A Menina no espelho”: “O autor previne o leitor de que o seu incurável medo militar pode ter alterado suas lembranças dos fatos narrados e até criado alguns, por isso aconselha que tome este relato pela forma mais perdoável de um conto”.

Com tal advertência de teor metalingüístico, Adalberto Barreto parece sugerir que o conto, por mais realista que pretenda ser, estará sempre sujeito a se extraviar da verdade por injunções advindas, paradoxalmente, do mundo exterior. No caso do conto “O Bife”, o “medo militar”, que embora o autor o responsabilize pelas possíveis distorções do seu relato, é quem o abastece dos ingredientes ficcionais. E é justamente isso o que o diferencia de alguns autores que “retomaram o realismo estético ou ‘o choque do real’”, pois estes, quanto mais se empanturram de realidade, mais deixam escapar o que torna verossímil a mentira ficcional: a “invenção da verdade”.

1 Texto extraído da coluna “Rodapé”, de Rinaldo de Fernandes, do jornal Rascunho”, Curitiba, Paraná.

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  1. Muito bom.
    Quem, a não ser Adalberto Barreto ( que – pelo amor e, consequentemente, pelo conhecimento de sua terra – tinha no currículo a produção rural, a Sudene, o antigo Departamento de Estatística do Estado, a superintendência do grupo Correio da Paraíba, além de ser comentarista econômico do Jornal da Paraíba e consultor do Sebrae ) desceria a informações de microeconomia, como numa de suas histórias, assim?: “Fez vistoria na cerca toda, recobriu com marmeleiro de garrancho os pontos mais baixos, fortaleceu de vara nova os lances mais brechados” Ou: “Se você gosta de um traseiro de bode, peça para mostrarem o rabo ( para diferençar do cachorro, que no mais é parecido)”. Ou: “Pés de cajueiro serviam de arrimo às volutas de pimenta do reino”. Ou: “Conseguia para ela as mercadorias mais finas, tais umas mangas bacuris muito doces que foi pegar em Manitu”.
    Suas descrições de banquetes e de feiras sertanejos são incríveis, não só pela riqueza do vocabulário – mangalho, fuçura, miúdos, sarapatel, buchadas, perus cevados pelo bico, alguidás - como pela revelação do mecanismo desse mundo. “Se você subir ao Brejo pela embocadura de Pilõezinhos, em qualquer madrugada de sábado, com certeza vai esbarrar em caravanas de mulas e jegues de passo dolente, a gemerem no ritmo da caminhada, sob o peso de caçoás de cipó atulhados de mercadorias, os almocreves escanchados entre os esteios da cangalha, as pernas lançadas para frente e os corpos osculando ao passo das mulas”. Basta isso? Não: o mais importante, em Adalberto, é a poesia de que se serve a todo momento, provavelmente registros da própria memória, como faz ao falar – cinematograficamente - de um vento que faz “um giro travesso até o chiqueiro de Petronilo, agitando os chocalhos das cabras e jogando para o alto a anágua de morim de Demontila” (...) e que “virou de novo, vindo apanhá-los numa lufada” (,,,) e “envolveu-os”- veja, veja; veja isto: “numa frase inteira do xote Sabiá”.
    Fui chefe da carteira agrícola da agência do Banco do Brasil, em Pombal, por quatro anos. Por isso sei o quanto, com o conhecimento de modo profundo, da região - como no caso de Adalberto Barreto - alguém pode ter Os Sertões como livro de cabeceira e... soltar-se dele. Com garbo.

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    1. muito bom o seu texto, mestre solha. adalberto era isso mesmo. abraços.

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  2. Que bom que meu último e melhor amor vive na lembrança de amigos.

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  3. Adalberto Barreto um gênio da literatura....

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