Sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã. James Dean James Byron Dean, ator norte americano, morto p...

Ainda quero ver a Acrópole

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Sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.
James Dean

James Byron Dean, ator norte americano, morto precocemente aos 24 anos num acidente automobilístico, é o autor da frase usada como epígrafe desta crônica. Foi símbolo de uma rebeldia que se alastrou mundo afora e respingou por essas bandas no final da década de cinqüenta. Vestia-se aqui como James Dean aparecia nos seus filmes, penteava-se cabelo ao jeito dele e chutava-se o balde do comportamento convencional como ele o fizera inclusive nos dois únicos filmes que assisti, dos apenas oito em que atuou. Só vi, já nos tempos do vídeo cassete, “Rebel without a cause” (Juventude Transviada) e “Giant” (Assim Caminha a Humanidade). Foram películas emblemáticas.
Os garotões de Copacabana passaram a andar ao jeito dele e as mocinhas ajeitavam suas madeixas à moda de Natalie Wood, parceira de Dean em Juventude Transviada. E como por aqui, a Cidade Maravilhosa (naqueles tempos, era mesmo!) ditava o comportamento dos palacetes às brenhas da nação, vendeu-se calças jeans aos borbotões pelo país afora (a da grife Far West era a preferida) e se gastou muita brilhantina para segurar à prumo o topete da moçada tupiniquim.

O cinema fazia a cabeça de muita gente e a rebeldia parida das telonas naqueles anos, ditos dourados, estava muito longe do alcance daquela, mais politizada, que, coisa de doze anos depois, Daniel Cohn-Bendit incendiaria a França naquele histórico maio de 68. Foram coisas diferentes e hoje não quero me atolar em searas mais complexas, fico em águas rasas, quero me restringir a algo que me bateu forte quando abri uma velha revista e lá estava ele, o rebelde sem causa, com aquela cara de menino malcriado, esse danado do James Dean.

Não há como não falar dele e não refletir sobre a brevidade da vida. Não é necessário morrer aos 24 anos para aceitarmos a premissa de que a vida é cruelmente breve. Pode-se morrer depois dos 80, não importa, nossa existência é muito curta. É essa sensação que me traz hoje aqui para fazer tremular a bandeira do “não vai dar tempo”. E não vai mesmo! Isso me angustia. E por falar em coisas que não vou ter tempo de fazer...

Ali na minha estante, há gente famosa que não vou dar conta de ler, ainda que costumeiramente leia três a quatro livros por mês. Vou nessa média, sem contar os de crônicas, poesias ou contos. Destes, costumo ler um tiquinho de poesia hoje, uma crônica amanhã, quem sabe um conto depois. Leituras para aqueles momentos de solidão, fazendo coisas que ninguém pode fazer por nós quando passamos à chave nossas intimidades. O leitor sabe do que estou falando. Mas neste mês a média certamente vai cair, tenho à minha frente aquele “fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor”, tudo isso em uma maçaroca de quase setecentas páginas para eu derrotar. Estava me devendo a leitura de Dom Quixote, mas logo devorarei o cartapácio de Cervantes.

E os filmes? Nem que vivesse o que me resta de tempo neste planeta com os olhos pregados nos netflix da vida, daria para ver o que de mais interessante a sétima arte produziu. Vi coisas boas, muitas ruins, mas me faltam alguns clássicos.
Alguns? Certamente não, muitos! Tenho que me conformar. Não vai dar tempo.

Bem as viagens... ainda quero ver o Coliseu em Roma e Acrópole em Atenas. Quem sabe dar uma chegada lá naquele desfiladeiro, o das Termópilas, onde trezentos espartanos deram uma histórica pisa nos soldados de Xerxes, o rei persa. Ia ser bom conhecer esse lugar. Preciso e mereço dar um pulo fora do Brasil. Aliás, além de nossas fronteiras, só conheço Teresina. Alguém já ouviu falar dessa localidade? Pois se não ouviu, saiba que existe. Nesse quesito – viagens – ainda posso driblar o tempo, mas preciso de proventos suficientes e ai, como se diz, o bicho pega.

Como preconizava um amigo meu: “quem não pode fazer o que deve, deve fazer o que pode”. E não é verdade? Então vamos lá. Ficar rico? Desperdicei as oportunidades. Agora Inês é morta. Vou, então, fazendo de conta que viverei para sempre, assim não fico triste. E para não mais perder tempo diante das poucas oportunidades que ainda vierem, vou viver com a pressa de que esses fossem meus últimos dias . É o jeito de se livrar dessas angústias que o calendário nos impõe. Vamos então, como diriam velhos marinheiros, navegando... “E la nave va”.

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  1. Beleza, Paiva. Eu mesmo tive blusão de couro cheio de zípers como os dele e me penteava de modo igual. Você acetou em cheio. Como acerta sempre: suas crônicas são ótimas.

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