Num livro de canto, no térreo da estante, encontro recortada, com algumas correções, crônica que assino em 31 de janeiro de 1979 sob o “Ch...

O choque do presente

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Num livro de canto, no térreo da estante, encontro recortada, com algumas correções, crônica que assino em 31 de janeiro de 1979 sob o “Choque do futuro” de Alvin Toffler. Não a reproduzi em nenhum dos livros. E me surpreendo, agora, decorridos mais de quarenta anos, reagindo da mesma forma, sob o mesmo espanto, como se o choque saísse do instantâneo para o permanente. Toffler, ao tempo de sua reflexão, sente-se “esmagado pela rapidez com que se verificam as mudanças e alterações sociais na chamada sociedade tecnológica”.

Já era para eu estar adaptado, assimilando naturalmente as mudanças, tal como pôde fazer sem atropelo, no desembaraço de sua inteligência, meu colega de ginásio,
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ativo enquanto vida teve, o confrade Juarez Farias.

Relendo a crônica de 1979 vejo o quanto ando me repetindo, estranhando um presente social de desigualdade que há quarenta anos não era novidade. A crônica de hoje, a crônica de ontem, a mesma conversa, o mesmo enfoque: “Não precisa ir muito longe – dizia eu no jornal de papel dos velhos Associados - aqui no baixo Róger ou na linha do trem de Mandacaru, as gravuras de Rugendas e as descrições dos primeiros cronistas continuam em viva atualidade. Cinco séculos se passaram, do feudalismo ao capitalismo, da revolução comercial à industrial, sem deixar rastro nem mossa no Brasil capoeira adentro, à margem dos rios, das cidades e da consciência social e política.”

Escrevia de olho na Sudene, já perdendo as esperanças, longe de imaginar que Celso Furtado viesse a escrever, dez anos depois, “A fantasia desfeita”, já se valendo, na página de abertura, de uma citação de Erasmo de Rotterdam, que mais cresce de sentido hoje, por isto aqui integralmente copiada:

“Recordemos a ficção platônica dos prisioneiros encarcerados na caverna, de onde não veem mais do que a sombra das coisas. Um dentre eles, que lograra escapar, retornou ao antro e revelou aos companheiros que havia visto os objetos reais e quanto era errôneo imaginar que fora das sombras nada existia no mundo. Riram do seu delírio e o expulsaram.” O grande Celso foi buscá-la no “Elogio da Loucura”.

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O que também pode justificar o meu samba de uma nota só, a mesma em meio século, é que numa apreciação mais próxima destes tempos de delírio tecnológico, uma pensadora e escritora de muita clareza, Lilia Moritz Schwarcz, mestra da USP, não pinta as coisas muito diferentes. Em seu livro mais novo “Sobre o autoritarismo brasileiro” trata o descompasso extremo entre as classes sociais do nosso país como “a naturalização da desigualdade”.

Tão natural que os poderes montados sob juras à Constituição conquistada em 1988 não dão por ela, pela trágica e insana desigualdade. A classe média regressando à pobreza, a pobreza retornando à miséria, tudo muito à vista até na paisagem de barracos que compõe as novelas do amor e do entretenimento. E o presidente da República, eleito sob facadas (arma de baixo) não muda o diapasão, tendo convivido trinta anos na nossa maior casa de representação popular, sem nenhum que saia do antro de sombras de Platão e volte com o recado dos objetos reais. Para os desiguais de cima nada mais natural que os extremamente desiguais de baixo.

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