O céu era uma vasta abstração sobre Copenhague, na tarde em que o desfile fúnebre saiu de Christiansborg - o concretíssimo castelo que, n...

O enterro do pai de Hamlet

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O céu era uma vasta abstração sobre Copenhague, na tarde em que o desfile fúnebre saiu de Christiansborg - o concretíssimo castelo que, naquela época, era a residência real - o som do tambor angustiado e fundo seguindo o carro em que arcanjos tocavam clarins mudos em torno do enorme esquife. Emocionaram-me o cavalo trotando sem cavaleiro, vindo atrás, a rainha velada, o Príncipe no magnífico luto. Depois do cortejo de nobres, a cavalaria conduzindo centenas de estandartes com todos os esmaltes e insígnias da heráldica danesa. E lá íamos nós, os seres humanos, abatidos, mais uma vez livrar-nos dos despojos (com o processo de decomposição iniciado) de um dos nossos. Veja-me ali, no meio da multidão que segue a família enlutada a pouca distância, eu ao lado do Conselheiro do Rei - Polonius - e de seus filhos Laertes e Ofélia (o rapaz, famoso pela condição de duelista imbatível, a moça... apaixonada, como tantas outras do Reino, pelo Príncipe). Eis-me ali, um dandy à italiana - meiões justos valorizando as coxas, luxuoso dólmã negro caído de um ombro, gola sanfonada (da qual minha cabeça parece aflorar feito a de João Batista na bandeja de Salomé), o bigodinho - fininho fininho -, os cabelos negros encaracolados - ridículo! - mas quem está livre da óptica de seu tempo? Nem os geniais Voltaire e Bach, de enormes perucas empoadas, nem o grande Velázquez - que não se livrou de pintar um Marte com bigodão portuga -, ou James Joyce -
o enciclopédico gênio da literatura do século XX - que posou tão vaidoso para a posteridade com seu chapéu palheta abestalhado, o tolo pince-nez a lhe ampliar os olhos precários, a inútil bengala (espécie de guarda-chuva nu) , os apalhaçados sapatos de duas cores - tudo considerado indispensável no civilizadíssimo meio em que viveu. Hamlet, no entanto... ah, meu deus... Hamlet seria elegantíssimo, em seu traje negro, em qualquer espaço e ocasião, o veludo e a seda sombrios realçando-lhe os olhos e os cintilantes cabelos louros!

Algo, no entanto, tirou-o de profundis para mágoas mais rasas: seu tio Claudius lá adiante, na rua, vindo entre as duas alas do povão, a cabeça de másculo modelado, ele alto e com a largura realçada pelas mangas bufantes e pelo manto, o ar de senhor da situação confirmado pelo belo colar de ombro a ombro, além da chave e das esporas de ouro presas ao cinturão. Reconheci-o pelo retrato equestre realizado por Rubens, de grande porte, que eu vira ainda naquela manhã no castelo, em que ele exibia os atributos de capitão-general: a faixa vermelha cruzando-lhe o peitoral da cintilante armadura negra, o bastão de comando, a manobra que realizava no cavalo - chamada levade - utilizando só uma das mãos para dominar o animal, a facilidade para o controle e rigidez da postura convertendo montaria e ginete em demonstração de capacidade para o mando. Percebi que não seria nada agradável cobrar dele o débito que tinha com meu pai. Vi quando deixou passar o carro com o corpo do irmão - no que fez o sinal da cruz (ele também convertido, como a Rainha!) - e, em solene elegância, caminhou no sentido contrário ao de todos, aproximando-se do sobrinho, cujas faces osculou, depois alcançando a viúva e se pondo ao lado dela, fazendo-me de imediato entender ...porque o Príncipe não era rei.

Hamlet, sem alterar o passo em que ia isolado, voltou-se - olhou-me... sinistro... como se tivesse ouvido meus pensamentos - fez um aceno para que me aproximasse. A quebra do protocolo me constrangeu. Destaquei-me da corte, procurando não perder a compostura no que me apressava, emparelhei com ele, cabeça baixa, mãos juntas à altura da virilha, e o vi indicar o tio:

- Ricardo III

Como não compreendi a que se referia, murmurou-me:

- A cena me lembra aquela em que o monstro, ainda Duque de Gloster, interrompe a passagem do féretro do rei que ele assassinou, e mantém aquele diálogo cínico mais a viúva, que o desgraçado acaba cantando... e comendo... para chegar ao trono…

Chocado, olhei para o casal que centralizava o séquito, depois desviei os olhos para o tambor marcando a marcha fúnebre repicada pelos pacatás dos cavalos - os do carro, os do sem cavaleiro, os da cavalaria atrás de nós - e, como vi Hamlet voltando à atitude anterior, de filho enlutado, deixei-o avançar sozinho, esperei que a corte me alcançasse e retomei os passos, com os outros, ouvindo mais forte o estalar de todas aquelas bandeiras ao vento, controlando minha agitação interior. Já vi muita gente fazendo de tudo para parecer natural em público e tenho pena de mim diante do que reassisto agora, de memória. Felizmente a imagem do rei sendo picado por uma serpente enquanto dormia no jardim me distraiu, de repente figurando-se definitivamente... fábula, igual à do Gênesis,
evocada pela lembrança de uma outra queda, a de Abel assassinado por Caim, que se revoltara com a especial atenção dada pelo Criador ao irmão. O que se insinuava na mente de Hamlet, concluí tenso, é que seu tio lhe matara o pai, requestava a rainha e - pelo visto - não se deteria diante de nada (como a eliminação do príncipe herdeiro) para chegar ao Poder!

Como é natural nos enterros, veio-me à memória o dia em que tivera de viajar (eu estava em Olinda) para comparecer a um outro funeral - o de minha mãe - na Capitania de Para’iwa. Houvera, sim, um primeiro momento de emoção - como os que eu via agora em Copenhague - , com meu abraço nas irmãs que tinham vindo me receber aos prantos, depois o instante em que tocara nas mãos do cadáver cruzadas sobre o peito, e - pela derradeira vez - acariciara-lhe as feições. Mas logo a reunião inusitada na família, com tios e primos que há muito não se viam, tornara-se... festiva... o que, aliás, não destoava do espírito de mamãe. “Não me olhe todo solene, no meu velório, como se eu estivesse com Deus ou coisa que o valha, porque aquela região de refrigério, de luz e de paz com que o cristianismo nos acena, parece-me de uma monotonia terrível! O paraíso cristão seria paradisíaco para mim por - no máximo - uma semana. Aí começaria uma enorme vontade de voltar para a ativa, pra estiva...”

Quando se trata da morte de homens públicos, entretanto, viúva, herdeiros, amigos, servidores do morto, todos se tornam alvo da compunção, curiosidade, vigilância coletiva. O povo reage mais poderosamente ainda quando se trata de um rei, para muitos o próprio Deus na Terra. Paradoxalmente, os que mais choravam - contidos pela força mercenária da polícia ( recrutada, como todas, entre os miseráveis, para de seus iguais proteger os poderosos) - eram os mais mal acabados, mal ajambrados, os saídos de entulhos e monturos, dentre ratos, percevejos e baratas... como que para usufruir... da presença divina, por algumas horas a seu alcance. Percebi que Hamlet, muito refinado, bonito, triste, claro, limpo, de negro, acrescentava ainda mais ternura àquela já enorme comoção popular, principalmente junto às moças, no fundo no fundo candidatas a cinderelas, todas, loucas por consolar seu príncipe desencantado.

Mas houve um murmúrio de deslumbramento e escândalo da população - na maioria luterana - quando, pela primeira vez, entrou na catedral. O vertiginoso espaço, os trios de velas, quartetos de círios, quintetos de archotes, sextetos de brandões, a estonteante música do órgão e o coro vigoroso, o Cristo em ouro com esplendor em prata e cruz cravejada de brilhantes, o urco vulto do barqueiro do Aqueronte, o grupo escultórico da Anunciação - Maria com seu clássico susto de cinema mudo ante o Arcanjo ( ele de cabelos penteados na madeira, suor de verniz), o Nazareno terrivelmente morto - costelas e clavículas expostas - tudo era magnífico e assombroso. Mas nada se comparava ao céu como que transbordando do teto na Apoteose de Hamlet Rei em sua famosa batalha no lago gelado contra os poloneses, com milhares de guerreiros a cavalo e de trenós, o superespetáculo enriquecido de bandeiras, plumas, brilhos de armas, a gritaria ritmada pelos estrondos surdos de canhões - e que homens, que corcéis, que crepúsculo... que massacre!

Onde a religião do “amai vossos inimigos” que Hamlet somente agora aferia?

- Os cristãos foram sempre de uma duplicidade absurda - eu lhe dissera na Capela Sistina - É sintomático que mantenham Cristo e seu séquito de mártires enclausurados em todas estes templos e claustros, enquanto soltam os deuses pagãos, cheios de sensualidade e alegria, pelas praças e jardins de toda a Europa. Vocês são como crianças! O que é isto, o que é uma igreja, senão arapuca pra capturar Deus e seus santos, a isca no altar? E o que são as orações, hinos e incenso, senão bajulação ao Rei dos Reis, o mundo atribuindo ao Todo-Poderoso a vaidade, ambição e venalidade de tiranos como seu pai? Olha lá, que aberração o “Juízo Final”, com todos aqueles seres humanos apavorados ante a desproporção entre seus breves crimes e a insuportável ideia sádica de um castigo eterno! Cadê o ‘Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem?’ Você mesmo já me disse, mais de uma vez, que somos máquinas. Como se pode puni-las, em lugar de consertá-las ou aperfeiçoá-las? Isso não seria impossível para alguém considerado Onipotente”.

Mas o grande momento das exéquias (todo um ritual pomposo para livrar Hamlet Rei do Inferno) ainda estava por vir. Foi o da revelação do túmulo monumental para onde seu ataúde foi levado. Começava na escadaria, com a estátua de bronze do finado em tamanho natural (e uma particularidade: como a de Carlos V, hoje no museu do Prado, em Madri, seu corpo fora fundido separado da armadura, que poderia ser removida em ocasiões especiais, tornando-se o rei, nu, a representação de um herói da antiguidade com o Furor derrotado a seus pés).

Mais adiante, quatro cariátides - representando Virtudes - sustentavam a laje sobre a qual todos viram as imagens orantes do Soberano e da Rainha em ouro, a multidão se comovendo com a efígie do monarca, serena e arrogante como ele fora, eu extasiado com o realismo de sua blindagem - da qual só as mãos postas sobre o genuflexório e o rosto forte emergiam nus - ombros e costas cobertos pelo manto brocado de esmeraldas, Gertrude, ajoelhada logo atrás dele, belíssima em seu luxo máximo. Eu encontrara magnificência semelhante apenas no monumento funerário do mesmo Carlos V na igreja-panteão d’El Escorial, na Espanha, embora também fosse soberbo o túmulo de D. Inês de Castro, no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal, embora também fosse esplêndido o sepulcro do Senescal Philippe Pot (hoje no Louvre).

Partidário de Lutero desde a Reforma, o povo dinamarquês se viu forçado a uma missa de réquiem pelo rei convertido ao catolicismo pela esposa. O Príncipe me dera a intimidade de confirmar: o que a mãe tanto prezava na religião desprezada em todo o norte da Europa era o fausto de onde agora surgia o sacerdote opulentamente paramentado, que subiu alguns degraus do mausoléu e - com voz piedosa e afeminada - começou, na estupenda acústica do recinto:

- Caríssimos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Meu amado Rei! (emocionou-se, os olhos marejados voltando-se para o ataúde, a cabeça oscilando como se não lhe aceitasse a morte ) Alteza! (disse para a Rainha, a cabeça, ainda insegura, negando). Querido Príncipe... (e o velho afagou Hamlet com seu olhar, o que me fez procurar alguma ressonância do afeto no órfão, mas vi-o apenas cruzar os braços e levar a mão direita ao rosto baixo, meditativo). O amado esposo e pai, que hoje baixa à sepultura a fim de que - como Cristo - dela irrompa aos céus em glória, queria que sua estátua jacente - que lhe cobrirá o sepulcro - bem como a de sua
querida Rainha, que um dia seguirá seu mesmo caminho - aludissem à natureza transitória da carne, mostrando vermes a entrar e sair das cavidades de seus corpos nus, para que todos vós, irmãos, tivésseis ciência presente, sempre, da vanidade de nossos apegos ao mundo e da necessidade de estarmos instantemente preparados para a chegada da Morte. Cristianíssima alma, a de Sua Majestade! Mas a Rainha - mãe querida, imagem de nossa querida pátria - tocada pela angústia dos mais sensíveis ante tal espetáculo, à revelia de Hamlet Rei, que morreu sem ver acabado o excelente trabalho do escultor Germain Pilon, que vós todos havereis de admirar agora, decidiu que tal arte fosse retrospectiva, não prospectiva, e o que todos vereis aqui, a partir de hoje, será o régio casal despojadamente nu, sim, reproduzido sobre o tampo do sarcófago, mas como se... tivesse falecido logo após a Graça de conceber nosso querido príncipe, aqui presente!...

A mão pensativa de Hamlet parou no ar. Seus olhos passaram a querer... e temer... essas esculturas. A reação de seu tio não foi menos inquieta. E a da corte. A Rainha, cabeça baixa, coberta pelo fino véu negro, permaneceu imóvel - mas sabe deus como se sentia ante a iminência de ter o próprio corpo exibido - eros via tanatos - dentro de alguns instantes. E a ralé? Você já viu aquela azáfama da multidão de técnicos montando um quadrirreator num gigantesco hangar e atinou em como ela lembra um formigueiro igualmente afanoso em desmembrar um gafanhoto morto?
Confesso que eu mesmo, só depois de ver a réplica da Rainha, me detive na do finado Rei, que me pareceu algo como um Cristo morto sem suplícios nem carisma, num sono de pedra, sexo coberto pelos grandes dedos superpostos. E ela? Gertrude - para estupefação do filho, principalmente, posara como a Vênus clássica que tenta cobrir os seios e a virilha com as mãos. A boca entreaberta, olhos revirados como que num sonho de gozo, a bela cabeça e os ombros nus pressionando o travesseiro aparentemente macio embora de mármore, lembravam demais o êxtase suspeito da Santa Teresa de Bernini, na capela Cornaro da Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma, que mais goza do que sofre a iminência de ser varada pela lança do belo anjo que misteriosamente lhe sorri.

Hamlet, arrasado e abalado pela morte do pai, pelo golpe branco no Estado, e - agora - pela exposição daquela nudez, saiu sem falar com ninguém, nem comigo, atropelando a multidão, indo enclausurar-se - incomunicável - no Kronborg Slot - o castelo Kronborg - em Elsinor, a quase dez léguas de Copenhague.
literatura paraibana cultura geral historia arte pintura hamlet waldemar jose solha
NOTA
Trecho do romanceamento da obra-prima de Shakespeare, A ANGÚSTIA DE HAMLET, parte final de minha HISTÓRIA UNIVERSAL DA ANGÚSTIA, ed. Betrand Brasil 2005, Finalista do Jabuti em 2006, Prêmio Graciliano Ramos, da UBE – Rio 2006

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