Uma amiga que não posso dizer da minha mesma idade para não ofendê-la pergunta por que não reedito o meu primeiro livro. Acha que ainda ...

Virou outra coisa

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Uma amiga que não posso dizer da minha mesma idade para não ofendê-la pergunta por que não reedito o meu primeiro livro. Acha que ainda existe algum interesse, mesmo de antiquário, por uma coletânea de 1978.

Boa parte das ‘Notas do meu lugar’ foi escrita para o consumo do dia presente. O dia do jornal.

O clube central existia bem vivo, falando e fuxicando pela elite em cena da cidade. O clube e o Ponto de Cem Réis, este como mostruário humano e social de todas as classes. Isso não existe mais. Até fogo pegou no ex-clube, na semana passada.

Tudo vem de outra circunstância. Eu largava a conversa desses pontos, indo direto para a máquina. Escrevia de fora e para fora, a cidade ferindo os meus olhos e o meu modo de julgar. Se a escrita já vinha impregnada de algum cheiro de mofo era da nostalgia das leituras, do gosto pelas coisas passadas pela Rua do Ouvidor de Machado, de Lima Barreto e do cronista campeão de leitores do meu tempo, Humberto de Campos.

Aconteceu, então, o que estava longe de minhas suspeitas: foi embora cedo e quase inteira a cidade da minha crônica. Quando não são as figuras, encerradas na moldura final, são as casas dos seus amores, dos seus caprichos, desabando inteiras como ocorre a cada inverno na solidão da Duque de Caxias, das Trincheiras, com sobrados avarandados, de taipa real, modelo do século XVIII. Coisas que só restam nos álbuns de Stuckert e Walfredo Rodriguez.

Venho pensando em fazer uma seleta desses escritos de quase quarenta anos, mas quem estaria pedindo isto? Com o tempo, mudou de substância. Não é mais a crônica do cotidiano, como eu pretendia, “escritas com a intenção de fixar um momento, um gesto, aquele ato ou palavra que se encobriram na vida e que não tiveram relevo suficiente para se constituir em notícia”.

Eu enfatizava, confiante: “Muitas delas tentam refletir os reclamos da rua, os pleitos que prescindem até de teor para ser formalizados”. Reparem no tempo do verbo: “prescindem”, a vida no indicativo presente.

Pois bem, esta cidade passou a um passado que para o leitor de meia idade chega a remoto. Tanto a cidade da minha crônica sumiu como o leitor de meia idade não pisa ou nunca pisou nas suas calçadas. É um leitor – e constitui a grande maioria – nascido, criado e formado na cidade vizinha, mais ao leste, iniciada com o Hotel Tambaú, seguindo a orla calçada, trepando em torres de vinte e trinta andares. Não é a cidade que tentei caracterizar ao contato com seus antigos moradores.

Na releitura, as “Notas” foram se desatualizando. “Esta cidade não existe mais”. A Torre de que Walter Santos falava, outro dia, em conversa pelos arredores da Fundação casa de José Américo, não existe mais. E a crônica do cotidiano terminou em memória, uma memória desconchavada, com o verbo no presente e a ação no passado.

Como a intenção não era de memorialista, o livro simplesmente envelheceu.


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  1. Mas a memória da cidade não pode ser abandonada, até mesmo se levarmos em conta que, de repente, não mais que de repente, ressurgem saudades que levem ao desejo de recuperar a pedra e cal que hoje se mantem na mente de uns poucos.
    Pode e deve servir, pelo menos, de lembrança a autoridades que acham que governar é construir novos pousos, esquecendo os antigos, quando muito relegando-os a um abandono disfarçado, que lhes soará quase que como uma sentença de morte.

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