Solha não se inscreve entre aqueles eruditos que só fazem acumular conhecimentos e cuja memória prodigiosa retém o que os outros dizem...

O novo livro de W.J. Solha

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Solha não se inscreve entre aqueles eruditos que só fazem acumular conhecimentos e cuja memória prodigiosa retém o que os outros dizem, mas, em contrapartida, nada acrescentam ao que leem. Quando muito, parafraseiam, embora ludibriem e impressionem os incautos.

Solha, atento sobre o que os outros dizem, sempre teve o que dizer. E o disse quer na ficção, quer na poesia, como também na condição de artista plástico, de dramaturgo e ator da melhor cepa. É um multimídia cujas mil e uma atividades se ajudam mutuamente,
Foto Andreia Solha
emprestando umas às outras as ferramentas necessárias à consecução de uma obra já definitiva. E olhem que eu sempre nutri um certo ranço preconceituoso com relação àqueles que desejam açambarcar o mundo com as pernas. Ou seja, os que não se satisfazem em ser tão somente ficcionistas e desejam ser poetas; os que ambicionam não só ser poetas como também artistas plásticos...

Acompanho Solha desde a época em que estreou com um romance amadurecido, inovador, prêmio Fernando Chinaglia: “Israel Rêmora ou O Sacrifício das fêmeas”. E desde “Trigal com corvos”, livro de poemas sobre o qual escrevi um texto em que, entre outras coisas, observei:

“(...) é um épico da alma. E conquanto possa soar paradoxal, contraditório, essa definição diz bem do espírito que rege esse grande poema: o acúmulo de informações enciclopédicas, fruto de muitas leituras submetidas ao crivo de um eu agônico. Tão agônico que, a exemplo de Van Gogh diante dos trigais, tudo em que toca abandona o seu estado de repouso para atingir um grau de ebulição elevado à milésima potência”.

Com “1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite”, lançamento recente da Arribaçã, Cajazeiras, 2021, Solha continua escrevendo sob a égide do inconformismo, estabelecendo cotejos entre homens, seres, coisas, fatos históricos etc., na medida em que os retira do seu imobilismo aparente para emprestar-lhes outras dimensões e outros significados. E escreve ainda que tudo está fadado à repetição, quer como farsa, quer como tragédia, além de preconizar no divertimento proporcionado pela comédia, uma possível advertência de que algo de grave está para acontecer: “Demarque-se, / portanto, / o que disse Marx. / Tragédia, / às vezes, / se disfarça em farsa / e pode vir, / primeiro, / como comédia... que nos diverte / ... ao tempo em que / ... nos adverte”. É como se não existisse nada de novo sob o sol, a não ser o sol dos flashes que o eu-lírico espoca/explode trazendo à luz o “enjambement” de circunstâncias até então isoladas, que pareciam existir de forma estanque, autônoma e autossuficiente.

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Em Solha, creio que as epifanias, os insights, mesmo frutos do acaso, passam posteriormente pelo crivo do poeta, que os elabora, os ordena, de modo a evitar o “tiro nas lebres de vidro / do invisível”, verso de João Cabral de Melo Neto em que ele rejeita a poesia estribada no acidental, no imprevisto, para concebê-la como produto exclusivo do trabalho consciente.

A dicção de Solha dista anos-luz da de Cabral, pois este, se não é um poeta minimalista, prima pela contenção, pela parcimônia, no que diz respeito ao emprego das palavras. De Solha, embora cultor do poema longo, não se pode dizer que ele seja um dispersivo, um perdulário, uma vez que a condensação também pode marcar presença nos poemas discursivos, a exemplo do que ocorre com os de Walt Whitman, com os de Álvaro de Campos e com “1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite”.

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Detalhe do quadro "Jardim das Delícias", de W. J. Solha, inspirado na obra homônima de Hieronymus Bosch (1450—1516).
Nesse livro recém-lançado, como nos livros anteriores, o eu-lírico mescla breves e frugais passagens de sua “história” pessoal, de sua biografia do imaginário, com alguns acontecimentos que marcaram e marcam a ferro e fogo a marcha batida da humanidade rumo à barbárie. Enfim, partícipe e testemunha, o eu-lírico ciceroneia o leitor através de uma narrativa que “contém uma espécie de memória ancestral da civilização nesses tempos e nesse mundo tão pouco civilizado e atravessado, distopicamente, por uma pandemia”.

Aqui, cabe uma advertência: o leitor menos informado tem tudo para escorregar nas cascas de banana das dinamites espalhadas ao longo do poema, pois nem sempre ele dispõe de informações suficientes a respeito das personagens, dos fatos e dos contextos históricos mencionados no livro. Cumpre ao leitor, então, pesquisar.

Por outro lado, ao invés de remover minas, Solha as instala e as explode no mais íntimo, nas entranhas, nos desvãos mais profundos do leitor. E o faz através de um poema em cuja embalagem ou invólucro deveria obrigatoriamente constar – em letras garrafais! – a seguinte advertência: “cuidado, explosivo! ”, acrescido de outro alerta:

“Se vós não tendes sal-gema, não entreis nesse poema”.

Verso do poema “Psicologia da composição”, de João Cabral de Melo Neto.

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  1. Tiro meu chapelão, me curvo e arrasto as plumas no chão, ante essa análise de Sérgio de Castro Pinto, sentindo-me como ele - imagino - sentiu-se ante "Signo e Imagem" , do João Batista de Brito, grande defesa de tese de doutoramento sobre sua poesia, a que assisti na UFPB em 1995. Não há melhor prêmio para uma obra de arte do que - como neste caso - produzir outra.

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  2. obrigado, mestre solha. meu abraço.

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  3. Belo trabalho, Germano Romero. Seu espaço nobre tem muito de um, de Lisboa, que me deslumbrava - o Fénix, da sonetista Carmo Vasconcelos, prazer que tive - o de lá publicar meus "brevíssimos ensaios muitíssimo ilustrados"- interrompido há exatamente um ano, com seu falecimento.

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