A seguinte frase atribuída admirável poetisa e contista goiana, Cora Coralina - pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-...

A coragem da decisão

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A seguinte frase atribuída admirável poetisa e contista goiana, Cora Coralina - pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985) - resume a coragem da decisão: "Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir".

A coragem de decidir, que nada mais é do que o exercício do livre-arbítrio, é capacidade inerente à natureza humana. Por definição, livre-arbítrio é a possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Enquanto os animais agem por instinto, a espécie humana faz escolhas, boas ou más, com base na inteligência razão e no conhecimento moral-intelectual que possui. Sendo assim, a coragem de decidir decorrente do livre-arbítrio está, naturalmente, subjugada vontade. Esta, por sua vez, para ser considerada bem-sucedida tem como princípio a responsabilidade.

Emmanuel respeito esclarece a respeito:

"A vontade é a gerência esclarecida e vigilante, governando todos os setores da ação mental. A Divina Providência concedeu-a por auréola luminosa razão, depois da laboriosa e multimilenária viagem do ser pelas províncias obscuras do instinto. Para considerar-lhe a importância, basta lembrar que ela é o leme de todos os tipos de força incorporados ao nosso conhecimento." (Chico Xavier, Pensamento e vida)

Tal ordem de ideias é o ponto chave da questão denominada coragem de decisão, visto que, intrinsecamente, devido a nossa formatação biológica e espiritual, temos a liberdade de agir livre-arbítrio por força da manifestação da vontade. É a vontade que nos fornece coragem para fazer escolhas, as quais determinam o rumo que damos existência:

Sem ela, o desejo pode comprar ao engano aflitivos séculos de reparação e sofrimento, a inteligência pode aprisionar-se na enxovia da criminalidade, a imaginação pode gerar perigosos monstros na sombra, e a memória, não obstante fiel sua função de registradora, lhe assinala, pode cair em deplorável relaxamento. Só a vontade é suficientemente forte para sustentar a harmonia do espírito.

A vontade alimenta a coragem das decisões, boas ou más que repercutem, no tempo e espaço, a curto, médio ou longo prazos. Aprendemos, então, que o processo ascensional nos concede liberdade e coragem para agir, mas a busca pela própria felicidade só é obtida se fizermos escolhas acertadas. Sem dúvida esse é o grande desafio existencial!

Para a Doutrina Espírita, o uso adequado do livre-arbítrio está, necessariamente, relacionado evolução intelecto-moral do Espírito e noção de responsabilidade individual:

"O livre-arbítrio se desenvolve medida que o Espírito adquire a consciência de si mesmo. Já não haveria liberdade se a escolha fosse determinada por uma causa independente da vontade do Espírito. A causa não está nele, mas fora dele, nas influências a que cede em virtude da sua livre vontade." (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, q. 122).

Ainda consoante os ensinamentos dos Espíritos Superiores, importa considerar que as boas escolhas não dependem, exclusivamente, do desenvolvimento intelectual é preciso conjugar a esse conhecimento o aprendizado moral, como consta na resposta que os orientadores da Vida Maior deram a esta pergunta de Allan Kardec: “Como o progresso intelectual pode levar ao progresso moral?” A resposta transmitida foi:

"Fazendo que se compreenda o bem e o mal o homem, então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos."

O uso pleno do livre-arbítrio, individual e coletivo, é atingido gradualmente, destacando-se as boas escolhas, que revelam, em geral, melhoria moral da pessoa. Enquanto o senso moral não se houver desenvolvido, a inteligência pode ser utilizada para a prática do mal. Neste sentido, as escolhas e as consequências destas não foram boas. De qualquer forma, a moral e a inteligência são duas forças que só se equilibram com o passar do tempo.

Na contramão desses esclarecimentos, não deixam de surpreender certas constatações resultantes de pesquisas sociais de referência, sobretudo da área da Psicologia Cognitiva, as quais fazem menção a comportamentos incongruentes, executados pelo indivíduo, isoladamente, ou por grupos.

Essas pesquisas, que se iniciaram por volta de 1970, revelam que mesmo em contextos onde sabidamente devemos utilizar capacidades e habilidades que comumente associamos razão, tais como o raciocínio lógico e dedutivo, atenção, concentração e reflexão, as pessoas, de modo geral, acabam exibindo comportamentos irracionais, isto é, formas de agir que, notadamente, não podem ser consideradas como produto de um processo de tomada de decisão racional.

Ante tais constatações, percebemos que muitas pessoas não têm conseguido fazer boas escolhas na vida. Por exemplo, de um lado, há os que pregam a necessidade de serem saudáveis, mas agem no sentido contrário, apresentando comportamentos que deterioram a saúde. Há significativos investimentos no sucesso profissional, a ponto de pais manterem os filhos ocupados, desde a infância, no mínimo doze horas diárias para o aprendizado de disciplinas curriculares e extracurriculares (esportes, artes, aprendizado de línguas estrangeiras e outras tantas), enquanto o ambiente doméstico é marcado por desamor, negligência e outras formas de violência.

Tais comportamentos contraditórios revelam, na verdade, uma sociedade vazia de valores espirituais, centrada no “aqui e agora”. Há uma grande insatisfação com a religião que, infelizmente, perpetuou-se em práticas ritualísticas de cultos externos. O universo político-administrativo reflete níveis assustadores de corrupção, salvo raras exceções. O desejo do homem de subjugar o homem, de tolher-lhe a liberdade de expressão e de agir revela-se nos governos autoritários e extremistas, nas contínuas rebeliões, guerras e guerrilhas que resultam no desamparo e abandono de milhares de refugiados, crianças, jovens, adultos e idosos, no mundo. Neste contexto, a coragem da decisão é, efetivamente desafiante. No entanto, tudo isso faz parte do processo evolutivo, do desenvolvimento do discernimento entre o bem o mal, pois, pareando com essas e outras manifestações egoísticas, ainda presentes na humanidade planetária, há o trabalho das pessoas de bem, cada vez mais atuante na comunidade terráquea.

Vivemos um momento significativo perante a evolução humana, assinalado pelo nível de conhecimento intelectual e tecnológico. Resta-nos aperfeiçoar a nossa capacidade moral. É chegada a hora de aprendermos a fazer escolhas mais sensatas, justificadas pelo bom senso, como ensinou Jesus há milênios quando afirmou: “[...] Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus, 22:21).

O progresso atual da sociedade indica que temos condições, sim, de fazer boas escolhas, considerando-se a imortalidade do ser, preexistente, existente e sobrevivente à morte do corpo físico. A despeito das condições adversas, temos condições, hoje, de fazer escolhas mais acertadas, a começar por aquelas relacionadas aos deveres que nos cabe executar, na intimidade da vida familiar e na sociedade. A propósito, já afirmava Léon Denis:

"À primeira vista, a liberdade do homem parece muito limitada no círculo de fatalidades que o encerra: necessidades físicas, condições sociais, interesses ou instintos. Mas, considerando a questão mais de perto, vê- -se que esta liberdade é sempre suficiente para permitir que a alma quebre este círculo e escape às forças opressoras.
A liberdade e a responsabilidade são correlativas no ser e aumentam com sua elevação; é a responsabilidade do homem que faz sua dignidade e moralidade. [...]
A responsabilidade é estabelecida pelo testemunho da consciência, que nos aprova ou censura segundo a natureza de nossos atos. [...] Para todo Espírito, por pequeno que seja o seu grau de evolução, a lei do dever brilha como um farol, através da névoa das paixões e dos interesses [...]". (Léon Denis, O problema do ser, do destino e da dor)


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