Escrevo de olho numa foto de Antônio David, uma cavalgada de vaqueiros encourados sertão a dentro, preludiando a intrépida batalha do ro...

A pretexto de foto de David

Escrevo de olho numa foto de Antônio David, uma cavalgada de vaqueiros encourados sertão a dentro, preludiando a intrépida batalha do rodeio.

Clic... e surge como um óleo de cores fortes sobre tela que lembra Frans Post, tão exuberante de luz e de força quanto muitas que os pintores holandeses deixaram, nos meados do 1600, para fazer o que David faz neste século exageradamente fotográfico.

Dizem que o pincel de Post não era bom de closes. Nisto, era superado pelo seu parceiro Albert Eckhout, que carrega de rubro os rostos, se excede nos gestos, no detalhe do comportamento ou no tumulto de músculos e de força dilatados num lance extraordinário de dança canibal.

É o que me ocorre no lampejo da máquina de David ou na arte que David intenta transmudar a exuberância primitivista das telas holandesas para as cenas de apanha eletrônica em que se arrojam de corpo e alma os tapuias vaqueiros do século 21.

A associação não é falsa a julgar pelos resultados: a imagem do homem novo da América o mais próximo possível da sua natureza.

Em Eckhout eles estão nus, cobertos pelas vestes de uma arte que atinge fundo a consciência de quem contempla. Nos quadros de David eles aparecem encourados, mas numa nudez de força e coragem que nada fica a dever à da vida primitiva.

Por falar em Frans Post, como se sabe, deve-se a ele a primeira cena panorâmica da Paraíba, como se deve ao neerlandês Elias Herckmans uma das primeiras descrições, talvez a mais completa, e até poética da cidade da Senhora das Neves, rebatizada de Frederica no domínio batavo.

O Museu da Cidade, há pouco entregue a seu povo e ao visitante de fora, abre dando espaço a uma reprodução dessa pintura. A cidade em formação vista por Post da margem esquerda do Sanhauá, certamente do Alto do Mateus, com os pontos bem luminosos de cal que já senhoreavam a colina: São Francisco, São Bento, a Igreja-matriz, Carmo, a Misericórdia, e na base da encosta um amplo castelo a se distinguir ao sul do Varadouro. Desse castelo não ser tem vestígio ou notícia, como acontecerá, lamentavelmente, com o edifício do Ipase de hoje ou com marcos da nossa história urbana como a aristocrática e finada Rua das Trincheiras.

Em crônica antiga, sonhei com a reprodução desse óleo de Frans Post num dos nossos salões nobre, como o do Palácio, ou em espaço público vigiado como o Espaço Cultural ou em espaço próprio da Universidade. O óleo já foi reproduzido num guache do francês Thiery, exposto na Biblioteca Nacional da França.

Veio o nosso museu, afinal, e, como não poderia deixar de acontecer, valeu-se do quadro. Não poderia ser diferente, confiado na melhor hora a Diógenes Chaves, que já havia resgatado a pintura da Paraíba inteira num livro que não deixa de ser museu, senão de todos os quadros, mas certamente com todos os nomes.

Estranhei, na versão que tenho do Dicionário, que não constasse a presença de Leonardo Moreira Leal, pintor influente ao lado de Olívio Pinto, Arnaldo Tavares, Lira, mas me adverti de que Leonardo era de Pernambuco.

Não sei o peso que teria a fotografia na composição do Museu. Já tivemos, no tempo de Dorgival prefeito, o Museu Fotográfico, que não sei hoje onde se mantém. É riquíssimo esse acervo, boa parte resgatado em livro ou em álbuns salvadores que ilustram a História com os Walfredo Rodriguez, os Stuckert, e muito mais se a destruição do edifício clássico de A União não tivesse levado na poeira os negativos de Mororó, de Hudson Azevedo e de muitos outros.

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