Logo cedo, foi o Cremosinho, o vendedor de sorvete, com sua goela de 150 decibéis. Carrinho postado na frente do prédio, lá veio o grito: ...

Ecos da mocidade

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Logo cedo, foi o Cremosinho, o vendedor de sorvete, com sua goela de 150 decibéis. Carrinho postado na frente do prédio, lá veio o grito: “C-R-E-M-O-S-I-N-H-O...”. Em seguida, o chamado à meninada, com todas as estridências possíveis a um ser humano: “CADÊ VOCÊÊÊS...”.

Uma menininha respondeu do quinto andar: “Vou aí”. Tratava-se de uma velha freguesa, certamente, se for possível aplicar o termo a alguém com sete ou oito anos de idade.

Figura adorável, o Cremosinho, embora já se tenha metido em confusão com um morador de Manaíra incomodado com seus gritos. A encrenca saiu no telejornal, tempo atrás, com direito ao lamento da apresentadora. Ao informar que o caso terminou na Polícia, ela se referiu ao moço como “trabalhador agredido”. Alguma dúvida quanto àquele para quem torcia? Sem imagem colhida por câmaras de segurança nem testemunho das chamadas vias de fato, o delegado liberou os dois contendores.

O Cremosinho chegou por volta das 10 da manhã. Depois dele, no meio da tarde, surgiu o vendedor de inhame com idêntica disposição para o anúncio do produto “apanhado novinho na roça”, a crer-se no que dizia sem a potência vocal do outro. Nada, porém, que um microfone não resolvesse. Ao contrário do primeiro, que empurrava o carrinho pelas ruas da cidade, bairro após bairro, este último
trazia a carga e a aparelhagem de som no bagageiro da motocicleta.

A moto da pamonha apareceu à boquinha da noite, igualmente sonorizada. Um hino de igreja no intervalo dos anúncios expunha as crenças do dono. Pamonha doce, pamonha salgada e, então, a estrela do cardápio, a pamonha de queijo. Todas de muito boa qualidade, eu garanto, porquanto delas tenho provado.

A coisa funciona assim: ouve-se o hino e corre-se para a calçada, onde as pamonhas estarão à sua espera mesmo que o elevador atrase. Como isso é possível? Pois bem, basta acionar quem as vende pelo número do celular impresso no cartãozinho obtido de compras anteriores. Está sem dinheiro em casa? Isso não é problema. “Recebemos qualquer cartão”, ele não cansa de avisar na trilha pré-gravada.

Na terceira década do Século 21, habitamos, ainda, as esquinas do passado. Cremosinho, o moço do inhame e o da pamonha resistem ao tempo, a seus hábitos e modernidades. Ultrapassaram as fases do rádio e da tevê e agora convivem com a propaganda que nos alcança, queiramos ou não, nas trilhas da Internet. Anunciam aquilo que fabricam, ou colhem na horta doméstica, com o timbre dos velhos pregoeiros.

Aos avançados como eu faz-se impossível não situá-los nos anos de 1950 e 60, quando seus pais, ou avós, percorriam as pequenas cidades do interior e trechos periféricos das capitais na venda de frutas, verduras, alimentos e serviços. Avós e pais, sim, pois não adotariam o estilo de vida – e por tal modo a sobrevivência – se não tivessem os pregões na alma e no sangue.

Os gritos do Cremosinho não incomodam. Mesmo quando me interrompem cochilos na varanda. Ao invés disso, mexem com minhas saudades. Não de todo desperto, torço por ouvir os apitos do funileiro Assis. Aqueles assovios em vai e vem bem típicos dos amoladores de tesouras e soldadores de panelas.

Quando se cansava dos fundos de padaria, onde ajudava com a lenha e o forno, Assis tomava o trem para João Pessoa com seu esmeril, fogareiro, ferro e solda. Mas fazia isso quando a classe média já se envergonhava do remendo nas panelas. Percorria, então, uma Avenida João Machado de ponta a ponta, onde cabia uma Pilar quase inteira, sem nenhuma freguesa à sua espera. A padaria logo o teria de volta.

Eu me apiedo dos que nunca ouviram apitos de funileiro, ou o tilintar animado dos vendedores de cavaco chinês com seus triângulos de ferro. Creiam, dava para perceber cada aproximação a boa distância antes que eles pudessem ser vistos. E sabia-se o que vendiam, porquanto os funileiros, sem exceção, se valiam do apito triangular com sua carreira de furinhos. O “tilingue-tilingue” e o cone de metal levado às costas, enquanto isso, alardeavam a passagem do cavaco chinês, vivêssemos onde vivêssemos. A tempo: contam-me que estes remanescem em pequeno número.


Uma busca no Google me faz perceber a universalidade do tema. Os gritos de vendedores no México e em Cuba, por exemplo, renderam palestra recente de Richard Bauman, professor da Universidade de Indiana, num seminário de antropologia promovido pela de Santa Catarina.

Dado o título da exposição – “A Poética do Mercado Público” – atino que o antropólogo não desprezou a voz do coração. E vejo, ainda bem, que eu e minhas contemplações não estamos sozinhos.

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  1. Saudades dos tempos idos e vividos, caro amigo.
    Foram tempos dos mais diversos ambulantes, que atuavam não só nas ruas da cidade, mas, também nas praças, onde pontificavam os mágicos e os vendedores de bugigangas e, algumas vezes, os vendedores de poções mágicas, que curavam todos os males do mundo, como apregoavam.
    Quem não lembra da força vivificadora do legítimo óleo do Poraquê da Amazônia?
    "Vai uma raspadinha?".
    E o cuscuz de mandioca, bem molhadinho no leite de coco, no final da tarde?
    Ah! Tempos...

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  2. Maravilha. Quanta lembrança o seu texto nos traz! E me vem, também, a presepada do Ze Bezerra Filho ao me contar que nunca soube se o vendedor que passava na sua rua, na infância, na Torre, vendia abacate ou abacaxi, por causa da pronúncia - " Olha o abacatchi!"

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