Poderíamos chamá-la de lutadora ou de guerreira e estaria muito bem, apesar do clichê. Ela foi (é) tudo isso e muito mais. Uma vencedora, ...

Elza Soares, uma brasileira

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Poderíamos chamá-la de lutadora ou de guerreira e estaria muito bem, apesar do clichê. Ela foi (é) tudo isso e muito mais. Uma vencedora, por exemplo. Mas vamos chamá-la de brasileira, simplesmente, porque aí estará tudo incluído, acertos e erros, principalmente os primeiros, que errar é humano e ninguém é santo. Estou falando de Elza Soares, a cantora que, nonagenária (91 anos), nos deixou há poucos dias e teve sua extraordinária trajetória contada pelo jornalista Zeca Camargo no livro “Elza”, da Editora Leya.

Elza SoaresArq. Nacional + Ed. Leya
Foi uma vida muito difícil, começada em 1930 numa favela do Rio de Janeiro, quando nasceu a menina Elza Gomes da Conceição, casada aos 13 anos e logo mãe de cinco filhos, dos quais dois morreram antes dela completar 19 anos. Para ajudar no sustento da família, foi trabalhar numa fábrica de sabão, como tantas moças pobres deste Brasil. Até aí, nada de mais; segue-se o roteiro quase que fatal de tantas vidas iguais à dela. A virada começou em 1953, quando ela se apresentou, como caloura, em um programa de rádio de Ary Barroso, que, admirado com o desempenho da iniciante, teria sentenciado: “Nasce uma estrela”. Sim, mas conta-se também que nessa mesma ocasião esse mesmo Ary Barroso, antes de Elza cantar, e vendo-a chegar ao palco tão pobremente vestida, perguntou-lhe, não sem alguma crueldade: “Minha filha, de que planeta você vem?”. Ao que ela, altiva e tranquilamente, respondeu na bucha:
“Seu Ary, eu venho do planeta fome”, resposta suficiente para calar e impressionar o apresentador e todo o auditório. Ali nascia não só a cantora e a estrela, mas principalmente a destemida mulher Elza Soares, hoje um exemplo de resistência e de vitória.

Inevitável lembrarmos sua conturbada relação afetiva com Garrincha, ainda casado quando iniciou o namoro com Elza, fato que, no Brasil provinciano da época, transformou-a numa espécie de inimiga pública da conservadora família brasileira. Mas ela enfrentou a barra. Do mesmo modo que enfrentou o alcoolismo e a vida desorganizada do genial jogador, seguindo adiante após a morte do companheiro e provando a todos que tinha vida e valor próprios, ao ponto de tornar-se gradativamente uma das maiores divas de nossa música popular.

Em entrevista ao jornalista Thiago Ney, da Folha de S. Paulo, ela afirmou, do alto de sua rica experiência:

“Não teria feito nada diferente. Nem teria como, foi muito difícil. O caminho que vem, a gente abraça. A gente quer o melhor, mas a gente abraça aquele que dá”.
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Elza e GarrinchaExtra

Sim, a gente abraça não o caminho que quer, mas o que dá. Ela abraçou o caminho que deu, e nele lutou e persistiu, e se tornou a grande estrela prevista por Ary Barroso, mais de sessenta anos atrás. Dela pode-se dizer que tudo viveu, tudo sofreu e tudo venceu. Na raça, sem encontrar portas abertas nem tapetes estendidos, como costuma acontecer com aqueles e aquelas que, vindos do povo, têm que abrir seu próprio caminho. Como quem, facão na mão, ou nem isso, desbrava uma trilha na floresta hostil.

Callanga ▪ Wikimedia
Trabalhou literalmente até morrer, pois dois dias antes de partir, na última quinta-feira, 20, gravou um DVD em São Paulo. Nos tempos derradeiros, apresentava-se em cadeira de rodas, tal como Cauby e Ângela Maria no final, o peso da idade e as dificuldades físicas sendo vencidos pela garra e pelo gosto de viver. Grandes figuras.

Sua voz rascante foi única. E por isso foi chamada “do milênio”. Com ela cantou – e interpretou – nossa MPB no que tinha – e tem – de mais autêntico. O samba, o morro, os desencontros do amor, as lutas da vida, tudo isso fez parte de seu repertório, sua forma de participar de sua cultura e de seu tempo. Soube cantar como ninguém a “lata d'água na cabeça” que de fato carregou no morro dos primeiros tempos. E isso fez – e faz — toda a diferença.

Elza Soares é motivo de orgulho para o Brasil mais brasileiro. Mais que um ícone, tornou-se um mito. Partiu serenamente, em casa, como merecem os justos. Deixa um importante legado artístico, mas principalmente um inigualável exemplo de superação. Definitivamente, foi, é e sempre será patrimônio nacional. Mulher, negra, pobre e amante de homem casado, impôs-se ao respeito do país por sua arte, sua força, sua dignidade. Merece, pois, especialmente nesta hora de adeus, o reconhecimento de todos.

Senhoras e senhores, de pé, palmas para ela!


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