Quando me chegaram pela primeira vez as notícias de que seria avô, confesso que senti um certo incômodo. E por quê? Muito simples: era a constatação de que iria entrar em uma nova fase da vida, aquela em que eu iria ver a velhice muito mais próxima do que pudesse enxergar meus verdes anos lá para trás no tempo.
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E então chegou primeiro uma cabritinha e, anos depois, um bodezinho. A filha que me trouxera essas criaturinhas, por dever de ofício do marido, esticava a distância entre nossas moradias — a minha e a dela: Santa Maria, lá na fronteira com o Uruguai; Marabá, lá para cima do mapa; e até na cidade das maracutaias, no Planalto Central, nossa insigne capital da República. Esses impedimentos geográficos não nos ceifavam aqueles encontros em que as famílias celebram datas importantes do calendário. Ocasionalmente, estabelecíamos contatos via satélite para troca de palavras e outras impressões. Assim, de longe fui acompanhando o crescimento e outras coisas que
Romeo e Iago, neto caçula e filho caçula do autor ▪️ Facebook: @ProfessorAugustoPaiva
Não parou por aí. Mais para frente vieram mais dois.
O terceiro foi Miguel, o Migui, que veio à luz lá na Rainha da Borborema, um campinense legítimo, mas que, por outras circunstâncias do destino, está lá nas latitudes de cima. Mora em uma cidade menor que Guarabira e com um nome para mim bem difícil de pronunciar e fácil de esquecer: Langhorne, onde vivem um pouco mais de 44 mil almas, já incluídos nessa estatística filha, neto e genro, este último nascido naquelas bandas do mundo.
Migui está chegando à adolescência e é meu neto enxadrista-pescador. Nessa primeira atividade, tem evoluído bastante e, da última vez que estivemos juntos, os embates foram, como se diz, pau a pau. Já não levo aquela vantagem de anos atrás. Vez ou outra, capitulava, derrubando meu rei em sinal de reconhecimento
Luiz Augusto Paiva com os netos Romeo e Miguel ▪️ Facebook: @ProfessorAugustoPaiva
Falando em pescaria, estivemos, em julho passado, pescando num rio famoso lá da Pensilvânia. Puxamos no anzol exatos dezenove exemplares de um conhecido peixe, o bluegill, que foram, a seguir, devidamente tratados e degustados. Depois de muito me vangloriar da minha performance de pescador diante do neto (pois o placar de 15 x 4 me foi favorável), fui consultar na internet quem era esse tal de bluegill e o que encontrei? Vejam: [...] “é uma espécie de peixe de água doce norte-americano, nativo e comumente encontrado em riachos, rios, lagos e lagoas. Recomendado a pescadores iniciantes por ser de fácil captura”. Meu moral de pescador foi parar lá no calcanhar.
Luiz Augusto com o neto Romeo ▪️ Facebook: @ProfessorAugustoPaiva
Comunicamo-nos quase sempre via WhatsApp, pois assim podemos conversar olhando um para o outro. Foi desse jeito que, alguns dias atrás, os olhos do avô se umedeceram ao vê-lo todo garboso dentro da farda escolar.
Mas é isso. Estar longe dos filhos não é fácil. E dos netos, então? A saudade exerce sobre nós essa tirania implacável, mas é ela que nos permite essa “corujice” exacerbada da qual estou me valendo nestas linhas. Não gosto muito de escrever sobre essas idiossincrasias, mas hoje não pude evitar. Culpa dessas quatro criaturas que moram aqui do lado esquerdo do peito. Esses adoráveis tiranos.










