Há situações das quais ninguém escapa no transcurso do tempo. Aos sete anos, eu decidi não rir. O riso expunha a brecha deixada pelo falec...

Enfim, um mundo melhor

nostalgia infancia adolescencia velhice covid
Há situações das quais ninguém escapa no transcurso do tempo. Aos sete anos, eu decidi não rir. O riso expunha a brecha deixada pelo falecido dente de leite, o que me valeu o apelido “Cento e Um”, alusão à sequência “um dente, zero dente, um dente”. Logo percebi que a brecha seguinte, na progressão natural da infância, me valeria a promoção: “Mil e Um”. Melhor, então, a sisudez.

Aos 12, ou 13 anos, idade em que as meninas perdem em chatice o que ganham nos quadris, eu respondia “Pode me chamar por Tuta”, o apelido caseiro, sempre que uma delas me pedia o nome. O propósito era evitar a todo custo a entrega do “Frutuoso” herdado do meu avô para o deboche de colegas na escola.

Da metade para o fim da adolescência o que se tem a esconder é a virgindade. Pergunta: “Já?”. Resposta: “JÁÁÁ”... O tamanho de Rui Barbosa, Napoleão Bonaparte e, pasmem, até de Hitler já me foi de algum consolo. Assim, também, aquela máxima do grande perfume em pequeno frasco. Agora, quando a velhice costuma trazer o sossego de um espírito que não mais ambiciona as conquistas (aquelas, sobretudo) nem sucumbe às zombarias da juventude, percebo que eu e os meus iguais voltamos à berlinda.

Os mais novos conhecem a expressão? Por via das dúvidas, lá vai: o termo remete às velhas carruagens de quatro rodas e vidraças, privilégio dos abastados. Significa, modernamente, estar sob foco de todos, ver-se em situação vexatória, ser objeto de comentários.

Pois não é que isso volta a me ocorrer? Tenho a dolorosa impressão de que deixei de ser coroa para ser corona. Postagens sucessivas no Facebook me expõem as extintas brilhantinas Glostora e Palmolive, o perfume Lancaster, lambretas, caminhões da Fenemê (na verdade,
FNM, de Fábrica Nacional de Motores), maiôs Helanca e camisas Volta ao Mundo, aquelas que não amassavam nem quando espremidas.

Em seguida, tenho lido a recomendação: “Se você já viu tudo isso, fique em casa”. Entendo, com todas as convicções, que este é um conselho recomendável aos de todas as idades, não é? Asseguro que tudo isso em nada me constrange. Porém, confesso o incômodo quando gente mais nova rejeita o elevador onde eu me encontre sozinho. Afinal, quem corre mais riscos?

Êpa... Ocorre-me, agora, que as almas puras nos corredores do prédio evitem o percurso vertical junto a mim justamente para minha proteção. Não custa pensar assim, até porque isso é capaz de me repor a fé na humanidade nestes dias terrivelmente bicudos.

Decerto, é isso mesmo. Temos, de repente, um mundo melhor, mais digno e mais justo. Como é justo supor que o neto venha a mim, agora, com a cabeça num saco, para despertar meu riso e me acalentar a alma. Não, de forma nenhuma, para proteger-se de um avô grudento.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO
SUA PARTICIPAÇÃO É IMPORTANTE. COMENTE!

leia também