Buda, Jesus e Sócrates. São estes os três sem-texto do título, como bem lembrou Juliano Garcia Pessanha. Três sábios universais que não de...

Os três sem-texto

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Buda, Jesus e Sócrates. São estes os três sem-texto do título, como bem lembrou Juliano Garcia Pessanha. Três sábios universais que não deixaram nada escrito e cujas lições atravessam incólumes os séculos e os milênios, influenciando bilhões de humanos em todo o planeta. Uma coisa verdadeiramente notável e que nos faz pensar: como pode? Pois é. Como pode?

Fico pensando na quantidade de livros publicados pelos vários ganhadores do Prêmio Nobel de literatura até hoje e no quanto eles estão longe de alcançar a relevância desses três que nunca escreveram nem publicaram nada.
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Buda (Sidarta Gautama) ▪ detalhe da pintura "Buda com 6 Discípulos", 200—400 d.C ▪ Museu Nacional de Nova Delhi ▪ Índia
Isso só pode ter um significado maior – e tem, só que eu não sei qual é. Talvez a lição da prevalência das coisas e atitudes que não pretendem aparecer sobre aquelas que buscam a publicidade. A supremacia da humildade sobre a soberba. O domínio da essência sobre a aparência. Se for assim, para mim está de bom tamanho. Precisa mais?

Todo o ensinamento de Buda (Sidarta Gautama) foi oral, assim como o de Jesus e o de Sócrates. Seus discípulos é que recolheram suas palavras, escrevendo-as, e as divulgaram através dos tempos. A rigor, pode-se dizer que o vento levou o verbo dos três mestres e no entanto esse verbo não se perdeu, como acontece com o resto dos mortais, cotidianamente. Diz-se “palavras ao vento” sobre aquelas que não frutificam, não têm efeito, não têm ouvidos que as ouçam, como, muitas vezes, os conselhos dos pais e dos mais velhos. Palavras ao vento. As dos três sem-texto também foram espalhadas ao vento, magnanimamente; todavia, produziram a mil por um, como as melhores sementes.

Buda e Jesus pregaram uma ética espiritualista; Sócrates, uma filosofia. “Amem os semelhantes e façam o bem” resume a lição dos dois primeiros; “só sei que nada sei”, a do terceiro. Síntese magnífica. Toda uma sabedoria expressa em poucas palavras apenas faladas, não escritas.
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Cristo Pantocrator (Todo Poderoso) ▪ ícone encáustico (pintura em cera) do Século VI ▪ Mosteiro de Santa Catarina ▪ Monte Sinai ▪ Egito
Diferente dos volumosos e herméticos tratados de teologia e filosofia já publicados, a desafiar a compreensão de todos, como se a “verdade” que anunciam não se destinasse à humanidade como um todo, mas apenas a alguns iniciados. A “verdade” arrogante e elitista das cátedras e academias. E a “verdade” amorosa dos três sem-texto. Que contraste.

Os homens e mulheres de letras, sabemos, vivem da palavra escrita e publicada. Não podem viver de outra forma. Escrever e publicar é a maneira que têm de viver e de sobreviver. Delícia e maldição, não podem fugir ao chamado da página ou da tela em branco. É um destino. Nas universidades, escrever e publicar é uma obrigação. “Publique ou pereça” é um dos lemas acadêmicos, fonte de muita angústia, muita inveja, muita competição. E por conta disso, também sabemos, quanta coisa irrelevante dada a público, quanta publicação sem serventia, quanta palavra escrita em vão. “Publique ou pereça”. Em não raros casos, melhor seria perecer.

No caso dos literatos, a pressão vem dos editores, sempre ansiosos por novas obras que forrem ainda mais seus bolsos vorazes. O sucesso literário se transforma em escravidão do escritor, para sempre obrigado a repetir ou superar o êxito passado, mesmo que a fonte tenha secado. Para muitos, a palavra escrita se transforma em praga, se torna tabu. Alguns não suportam e se matam. Dizem que esse foi o caso de Hemingway.

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Sócrates ▪ detalhe da pintura "Sócrates e Alcibíades" ▪ Kristian Zahrtmann, 1911 ▪ Galeria Nacional ▪ Conpenhague ▪ Dinamarca
Depois dos gregos e de Shakespeare não há mais nada de novo a se dizer. E no entanto continua-se a escrever e publicar cada vez mais. E nisso está o encanto da literatura, quando é boa: contar novamente as mesmas estórias, sob ângulos inusitados, criativos, com a marca pessoal do autor, fazendo com que o eterno se renove eternamente. E assim também na arte em geral.

Não esqueçamos aqueles e aquelas que, sem terem escrito e publicado, e sem possuírem a altura dos três mestres sem-texto exemplares, fizeram da própria existência sua obra maior. Porque a vida, a vida simplesmente, também pode ser uma forma de arte, quando vivida com talento, sabedoria, amor e alegria. Quantos e quantas não viveram e vivem assim? Existem pessoas cuja vida vale por uma biblioteca.

Para o filósofo francês André Comte-Sponville, a escrita significa “inscrever o pensamento no espaço, onde ele se fixa e se conserva, e libertá-lo, assim, pelo menos parcialmente, do tempo”. Sim. O que se escreve resiste mais ao tempo e em alguns raros casos, pode-se afirmar, até vence o tempo. É o caso dos livros sagrados das religiões, que parecem destinados à eternidade, pelo menos enquanto sobreviverem os humanos. Mas o que dizer dos três sem-texto do título? Nada escreveram, nada publicaram, e se tornaram, a despeito do vento, perpétuos.


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  1. Muito bom texto. Mas há controvérsias. Hamlet jamais existiu e não há quem não saiba de frases suas, como "Ser ou Não ser, eis a questão", "Existe algo de podre no reino da Dinamarca" ou "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". Porque realmente há. Muitos chegam a dizer que essa e outras obras-primas ( como Macbeth, Ricardo III, Romeu e Julieta, Júlio César e Rei Lear ) não são do Bill, como dizem que a "Ilíada" e "Odisseia" não são de Homero. Mas ... quem quer as tenha produzido - é o que se pode concluir - livros densos foram escritos, não importa se com codinomes. Quanto a Sócrates, pouco fica do pensador sem os "Diálogos" de Platão. E pouco fica da "revelação divina" de Cristo sem o peso desses "Diálogos", cuja ética dominou o mundo clássico e "invadiu" o reduto hebreu dominado pelo seco "olho por olho, dente por dente" herdado de Hamurabi.

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