Desde pequeno eu monto uma espécie de um álbum de figurinhas da cidade. Um catálogo individual, de valor único para o ser eu. É uma coleçã...

Pedaços da cidade

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Desde pequeno eu monto uma espécie de um álbum de figurinhas da cidade. Um catálogo individual, de valor único para o ser eu. É uma coleção de imagens, coisas, momentos e sensações existentes e provocadas pela cidade. Um acervo que cresce e se renova. Do som do alto-falante do parque de diversão armado na lateral do mercado público no Castelo Branco, com suas velhas, inseguras e, ao mesmo tempo, geniais canoas; assim como as sementes vermelhas de casca dura enfeitando calçadas da Avenida Epitácio Pessoa durante desfiles de 7 de setembro em épocas nebulosas.

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Av. Epitácio Pessoa
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Ponto de Cem Réis

A velha fonte desaparecida do Ponto de Cem Réis a jorrar pequenos arco-íris com os raios de sol da tarde, quando fervilhava de gente o Centro da cidade. Assim eram as fachadas de diversas cores e humores de moradias de séculos passados a despontar dos meus primeiros anos até recentemente a cada revisita.

O velho novo trem da estação ferroviária em direção a Cabedelo em sua marcha lenta e constante, cheia de encantos de muitas músicas de mineiros como Milton Nascimento e Flávio Venturini ou na poesia de Manuel Bandeira. E todos os fogos de muitos São João com gosto de comida de milho e da fumaça das fogueiras. E por falar em festas das barracas, balões de ar e brinquedos da Festa das Neves. A roleta de cana, a pipoca, o algodão-doce. Cíclicas passagens de cada ano.

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Estacão Ferroviária
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Basílica N.S. das Neves

Da natureza, impregnados cheiros, cores e sabores da Bica. E os bichos engaiolados da liberdade, desprovidos da possibilidade máxima da vida, o correr o risco. E humanos soltos a misturar-se com outras máscaras.

Coleciono as terras, gramas e topadas de muitas bolas em campinhos pela cidade, na maioria das vezes com os pés descalços. Dos gols e sorrisos eternos que fiz, das vitórias inesquecíveis, dos tentos sofridos, das derrotas doídas, do sol e da chuva de jogar bola em ritos de purificação dos meninos. A mesma chuva pelo vidro da janela de uma casa, batendo com ramos de plantas num carro, pela tela de muitas televisões com chuvisco das velhas tecnologias como um bom Telefunken.

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Rio Jaguaribe
Guardo os muitos mares da Praia do Cabo Branco e de outros lugares. Armazeno catalogados os ipês amarelos, o prédio magnífico do Liceu Paraibano, os sofridos e úteis ônibus como o 1001 e o Bairro das Indústrias, o lamentoso Jaguaribe, hoje assassinado, que testemunhei límpido nem há tanto tempo assim. Edições de velhos e mortos jornais com seus nomes pomposos na primeira página.

Os muros, as casas, as ruas, os carros e os sorrisos. Os fins de tarde, as músicas, os pássaros, os ventos. A cidade é um álbum de muitos pedaços que o coleciono com cromos sempre raros e uma figurinha nova a coletar.

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  1. Muito bom, Clóvis Roberto. "Os muros, as casas, as ruas, os carros e os sorrisos. Os fins de tarde, as músicas, os pássaros, os ventos". A crônica virando poema.

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    Respostas
    1. Feliz que tenha gostado do texto caro Solha. Uma honra tê-lo como leitor. A poesia está no ar. Obrigado pela gentileza.

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