Fui pego. Pus-me trêmulo, de pernas bambas. E tive os calafrios sentidos por Zezinho quando conheceu Zica, uma prima bem jovem do meu p...

Meus dois males

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Fui pego. Pus-me trêmulo, de pernas bambas. E tive os calafrios sentidos por Zezinho quando conheceu Zica, uma prima bem jovem do meu pai que por duas semanas esteve conosco quando eu mal havia ingressado na adolescência. Falo daquela danada branquinha e de olhos verdes por quem Zezinho e eu quase morremos.

Sofri calado. Jamais deixaria transparecer o aperreio mal contido no coração juvenil. Faltava-me a coragem para confessar um amor a ser retribuído, não tenho dúvida, com o deboche da moça que tinha idade superior à minha e com uns puxões de orelha do velho Juca.
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A. Spratt
Zezinho, ao contrário de mim, abriu o berreiro depois de alguns beijos trocados com ela às escondidas. Recorreu a Pedro, bom no violão, para duas ou três serenatas no Beco do Padre, sob a janela do nosso quarto.

Nosso, mesmo. Meu, de dois irmãos mais novos e dela, também, pelo tempo em que a recebemos com as camas lado a lado, como quis dona Vininha. Não lembro de noites mais agoniadas. Afinal, de que substância Deus fez e faz as mães? Como não conseguem elas perceber o crescimento dos seus anjinhos, os filhos na efervescência dos hormônios? Por que os supõem sempre inocentes, puros e castos, a ponto de aproximarem tanto a chama e o pavio?

O fato é que eu tinha, ali, ao alcance dos braços o objeto de uma paixão arrasadora, sem muito a fazer. Sentia seu perfume, ouvia sua respiração e, o que é pior, via o que o lençol, ocasionalmente, punha à mostra com certa nitidez por obra e graça da lâmpada acesa no corredor.

Para me completar a agonia lá vinha Zezinho com sua voz de pato e sotaque de Nelson Gonçalves: “A deusa da minha rua tinha os olhos onde a lua costuma se embriagar”. Não fosse quatro anos mais velho e vinte centímetros mais alto, eu sairia com ele no tapa.

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Wagrati
Já adulto, ouvi de minha mãe que Zica, assim apelidada, detestava o nome com que fora à pia batismal. Se pudesse o esconderia do mundo inteiro. A hora da chamada escolar lhe era, portanto, de enorme suplício: “Zípora”, chamava a professora e ela, no canto da sala, de vozinha sumida: “Presente”. Fui pesquisar e descobri que este é um nome de origem hebraica. Tanto pode significar “pássaro” quanto “mulher livre”. Moisés, o dos dez mandamentos, casou-se com uma Zípora. Como a criaturinha que agoniava meu jovem coração foi assim batizada? Pois bem, por culpa das viagens do pai que sentou praça na Marinha Mercante para atracar nos portos do mundo. Conhecera, no sentido bíblico, uma Zípora em Dubai e deu o nome dela à filha que teria dez anos depois.

Não condeno a pobre Zica por se envergonhar do próprio nome. Não posso criticá-la, pois em tenra idade eu escondi o quanto pude meu Frutuoso.
ClipLib
“Como você se chama?”, perguntavam-me e ouviam: “Pode me chamar de Tuta, Tuta Chaves”. O apelido caseiro sempre me soava de melhor modo. Os quinze dias daquela menina lá em casa, metade das férias de junho, serviram para afastá-la de um namoro proibido pelos pais no Recife, onde morava.

Zica me vem à mente por conta disso que agora me faz sofrer. Voltaram-me as pernas bambas, os tremores no peito e os calafrios de Zezinho. Também, dores fortes nas articulações. Antes, o que me doía de modo mais grave e profundo era o coração. Agora, é o joelho direito.

A Zica que hoje me põe na cama – acabo de ler – provém do vírus ZIKV transmitido por mosquitos do gênero Aedes. Do amigo a quem fiz queixa do desânimo para a escrita e as leituras recebi a informação de que o diabo dessa doença está por todo canto. Quem for por ela alcançado pode padecer de erupções cutâneas, dores de cabeça e musculares, febre e conjuntivite não purulenta.

O período atual de grande infestação do mosquito decorre das últimas chuvas e de poças em terrenos baldios, calçamentos, pneus criminosamente atirados ao relento nas zonas periféricas e, acreditem, da água dos vasos florais que enfeitam as varandas e jardins dos mais abastados.

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S. Engeland
No meu trecho de rua, a situação se complica com o destelhamento de duas casas adquiridas por um grupo que ali pretende edificar um colégio. Enquanto isso não acontece os mosquitos prosperam e atacam. Nos chupam o sangue cada vez mais ralo e, em troca, fazem o pagamento indigesto: o da carga virótica que debilita e, em alguns casos, mata.

Que sina essa minha, abatido por duas Zicas. E, igualmente, por elas assim tão humilhado. No primeiro caso, em razão do mais absoluto desprezo. No segundo, pela ordem clara e direta da enfermeira com uma seringa assustadora à mão, após a consulta médica: “Baixe as calças”.

COMENTÁRIOS
  1. Mas, caro amigo, o apelido Zica também pode nos trazer bons momentos de deleite, como a Zica de Cartola, dupla, que você bem lembra, nos deu momentos de deleite com os sambas antológicos que nos deram, naqueles tempos de boa música popular brasileira, que bem espelhavam nossa alma.
    Curta as reminiscências daqueles tempos, dos quais o nome ZiCartola ainda nos dá tantas boas lembranças e faça de contas que esqueceu o sofrer dos lençóis que outras Zicas provocavam naqueles tempos...

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