Estávamos conversando sobre as peculiaridades do Brasil. O senhor K. citou o personagem Jerônimo, do romance O Cortiço, que deixou de ...

O Brasil não perdoa

orson welles carnaval brasil
Estávamos conversando sobre as peculiaridades do Brasil. O senhor K. citou o personagem Jerônimo, do romance O Cortiço, que deixou de ser um trabalhador português exemplar e um excelente pai de família depois que conheceu a música brasileira, a nossa cachaça e, principalmente, a Rita Baiana. Terminou por envolver-se num assassinato.

Lembrei que Ariano Suassuna comentava sobre nossos costumes. Contou que um amigo dele, morando na Suíça, foi convidado para ir à casa de um suíço e disse que ia. Não foi. Ao fim da história, meu colega escritor chegou à conclusão de que, se um brasileiro diz que vai comparecer a algum compromisso, pode ser que vá. Porém, se disser que fará o possível para ir, com certeza não irá.

orson welles carnaval brasil
GD'Art
Desses dois momentos cheguei à inafastável conclusão de que o Brasil tem o poder de escangalhar qualquer estrangeiro que venha para cá e ainda exportar essa estranha maneira de ser.

Um exemplo clássico aconteceu com Orson Welles, que tinha apenas 25 anos quando produziu, dirigiu e foi o ator principal de um dos melhores filmes já feitos até hoje: Cidadão Kane. Pois muito que bem. Num esforço de propaganda desenvolvido pelos americanos no início da Segunda Guerra Mundial (comandado por Nelson Rockefeller), mandaram muita gente famosa pra cá a fim de influenciar Getúlio Vargas a aderir aos EUA e, ao mesmo tempo, fazerem a cabeça dos brasileiros. Até Walt Disney veio e criou o personagem Zé Carioca. O fato todo mundo conhece, é dos livros. O que pouca gente sabe é que mandaram Orson Welles, então com 26 anos e no auge da sua fama, para rodar um filme (É Tudo Verdade) que enfocaria o carnaval brasileiro.

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Pensem num estrupício. Welles desembarcou sem saber nada sobre o Brasil, mas em poucos dias já havia coroado a rainha das cabrochas numa gafieira, subido e descido favelas, inventado um drinque (cachaça com Coca-Cola) batizado por ele de “samba em Berlim”, namorado a valer e juntado-se a uma turma pesada — Vinicius de Moraes e Grande Otelo, principalmente. Terminava suas noites de farras quase sempre na casa de Herivelto Martins, cuja esposa, Dalva de Oliveira, servia à meia-noite uma feijoada no capricho, razão da permanente diarreia do cineasta.

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Aprendeu a tocar (mal) cuíca, ganzá e tamborim e, com o pintor Heitor dos Prazeres, ia a sessões de macumba. Otelo levou-o a uma roda de capoeira onde, por engano, sobrou pernada para todo mundo. O resultado dessa pandega é que o filme foi pras cucuias e Orson jamais fez algo igual a Cidadão Kane.

Tenho certeza de que qualquer exército estrangeiro, por mais poderoso que seja, vai se dar mal se invadir o Brasil.

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