Um dia, sem avisar, a vida mostra seu lado mais negro, tritura o coração e deixa que ele seja visto como uma poeira frágil e fugaz.
Foi assim em várias fases da vida dela. A mãe deveria ter escolhido um nome de santa, como era costume na época, mas, ao ver aquela pele branca e cabelos negros, não teve dúvida: seu nome seria Lua.
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Um mês depois de completar sete anos, a mãe morreu sem dizer adeus. Todos só diziam que ela estava no céu, que era estrelinha. Ela e a irmã ficaram sozinhas com o pai, que estava sempre ausente. Homem rude do sertão, criado para não chorar ou demonstrar sentimentos.
Numa manhã de sábado, mandou que colocassem o melhor vestido em Nária, deixando Lua sem entender por que nela não. Ao questionar se poderia também se vestir para passear, recebeu um seco “não”. As horas demoraram a passar. Escureceu. A noite chegou trazendo apenas o pai. Percebendo o olhar interrogativo da filha, informou, com um ar de tristeza e alívio, que havia deixado a irmã na casa da tia.
Era difícil criar duas meninas, mesmo com empregadas. Se pelo menos fossem meninos para ajudar — pensava, tentando justificar sua decisão. A irmãzinha também a deixara. Não conteve o choro. O pai, em silêncio, a colocou no colo. Dando tapinhas nas costas dela, dizia que a vida era assim mesmo. Os dias se seguiram, e eles ficaram mais ligados. Agora eram somente os dois, naquela casa que ficou imensa depois das partidas.
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Durante muito tempo, retornou àquele mesmo local para esperar a volta do pai, até que desistiu. Tia Maria se tornou uma verdadeira mãe, e o tio Antônio, um pai amoroso.
— Cadê seu pai de verdade? — perguntavam os primos.
— Desapareceu na poeira da vida — respondia Lua.
* Do livro Vidas, de Ana Paula Cavalcanti, disponível no site da editora Reler


















