A morte de Sócrates, narrada sobretudo nos diálogos platônicos Apologia, Críton e Fédon, ultrapassa o estatuto de acontecimento histórico para se converter em um dos mitos fundadores da filosofia ocidental. Trata-se menos do fim biológico de um homem e mais da instauração simbólica de uma ética do pensamento, na qual viver e filosofar tornam-se atos indissociáveis. Sócrates não morre apenas porque foi condenado; ele morre porque se recusa a trair a coerência entre discurso e vida. Sua morte é, nesse sentido, uma obra filosófica consumada no próprio corpo.
Sócrates ▪️ Arte: Caravaggio (after)
Filosoficamente, a morte de Sócrates inaugura uma compreensão radical da relação entre verdade e poder. O filósofo é condenado não por crimes objetivos, mas por desestabilizar as certezas da pólis: corromper a juventude, introduzir novos deuses, questionar os antigos. Em essência, Sócrates é condenado por perguntar demais, por não aceitar respostas prontas, por expor a ignorância travestida de saber. Sua condenação revela o medo estrutural que toda sociedade nutre diante daquele que desvela suas contradições internas. O filósofo torna-se, assim, um corpo estranho ao organismo político, necessário e, ao mesmo tempo, intolerável.
"A morte de Sócrates ▪️ Arte: Charles Alphonse du Fresnoy, 1650
No Críton, o dilema se aprofunda. Fugir da prisão seria possível, mas Sócrates recusa. Não por submissão cega às leis, mas por compreender que a justiça não pode ser instrumentalizada segundo conveniências individuais. Sua argumentação é de uma atualidade perturbadora: violar a lei injusta por meio da injustiça pessoal apenas perpetuaria o ciclo da violência moral. Sócrates distingue, com rigor, desobedecer por resistência filosófica e corromper o próprio princípio da legalidade. Sua morte, portanto, não é um gesto de conformismo, mas de coerência ética radical.
A morte de Sócrates também pode ser lida como crítica profunda à democracia ateniense. Não se trata de rejeitar a democracia em si, mas de expor seus riscos quando ela se degenera em tirania da maioria, incapaz de tolerar o pensamento dissonante. O julgamento de Sócrates revela como o consenso pode ser cúmplice da injustiça quando se afasta do exame racional. Nesse ponto, a obra ultrapassa o contexto grego e dialoga com todas as épocas: sempre que o pensamento crítico é silenciado, Sócrates volta a morrer.
A morte de Sócrates ▪️ Arte: Jacques-Louis David, 1787
Em última instância, A Morte de Sócrates nos confronta com uma pergunta que permanece aberta: até que ponto estamos dispostos a pagar o preço da verdade? A serenidade do filósofo diante da morte não é indiferença, mas lucidez extrema. Ele sabe que a vida sem exame não merece ser vivida, e que uma morte examinada pode iluminar séculos. Sua morte não encerra um discurso; ela o eterniza.










