No porão de um prédio localizado na Sheridan Square, no bairro novaiorquino de Greenwich Village, funcionou a boate Café Society, entre os anos de 1938 e 1949. A casa foi um dos primeiros espaços da metrólope norteamericana em que se deu a integração entre brancos e negros, tanto no palco como na plateia.
1946: cenas do Café Society Downtown, na Sheridan Square, NY ▪ Fonte: Biblioteca do Congresso (EUA).
A boate apresentava shows de jazz e, desde a sua abertura, tinha como a principal atração uma jovem cantora negra, de pouco mais de vinte anos, que já despontava como uma
Abel Meeropol (1903–1986), poeta, professor e compositor norte-americano, autor do poema e da canção Strange Fruit, escrita em 1937.
Certo dia, a cantora foi abordada, no Café, por Abel Meeropol, professor de inglês, poeta, ativista político e, também, autor de músicas, as quais ele assinava com o pseudônimo de Lewis Allan. Meeropol mostrou-lhe uma canção de sua autoria. Sobre esse episódio, ele relatou:
"Tive a impressão de que ela não se sentiu à vontade com a música [...] ela olhou para mim depois que eu terminei de apresentar a canção e disse:
⏤ 'O que você quer que eu faça com isso, cara?'
E eu respondi: 'seria maravilhoso que você cantasse essa música. Se quiser, não se sinta obrigada'".
Embora a música de Meeropol não se enquadrasse bem no estilo do repertório da intérprete, formado por baladas que falavam de amor e romance, ela decidiu cantá-la. Relutava, porém, em apresentar a canção no Café Society, mesmo considerando o perfil liberal da plateia. Resolveu, por fim, interpretá-la na boate, porque ficara muito impressionada com o poema:⏤ 'O que você quer que eu faça com isso, cara?'
E eu respondi: 'seria maravilhoso que você cantasse essa música. Se quiser, não se sinta obrigada'".
"Parecia que falava de todas as coisas que levaram meu pai à morte [...] mas não tinha a certeza se conseguia transmitir essas coisas, que tinham significado para mim, ao público de um clube fino. Tinha medo que a detestassem".
Café Society, clube noturno de Nova York, ativo entre 1938 e 1948, conhecido por ser um dos primeiros espaços de entretenimento racialmente integrados nos Estados Unidos.
"A primeira vez que a cantei fiquei com a sensação que tinha sido um erro e tinha razões para ter medo. Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando acabei de cantar. Então, uma só pessoa começou a bater palmas nervosamente. E, de repente, todo mundo estava aplaudindo".
Billie Holiday foi decisiva na popularização de “Strange Fruit”, interpretada com regularidade no fim dos anos 1930 no Cafe Society, o primeiro clube noturno racialmente integrado de Nova York. Fonte: Facebook Wise Music.
“Southern trees bear a strange fruit.
Blood on the leaves and blood at the root.
Black body swinging in the Southern breeze.
Strange fruit hanging from the poplar trees”
Billie Holiday interpreta Strange Fruit, em 1959. Legendas com tradução de Carlos Rennó. Fonte: YT ReelinInTheYears66.
Manifestantes participam da "Cruzada Americana para o Fim do Linchamento" em Washington, DC, em 23 de setembro de 1946. Organizada em resposta ao linchamento de quatro afro-americanos no estado da Geórgia, ocorrido dois meses antes, a marcha pressionava o Governo para que o linchamento fosse tipificado como crime federal nos Estados Unidos. ▪ Fonte: Biblioteca do Congresso (EUA).
“Quando Holiday a gravou era mais que revolucionária. Ela expressava um sentimento que todos nós, negros, sentíamos. Ninguém falava daquilo. Ela se transformou em um dos guerreiros, essa linda mulher que sabia cantar e fazer você se emocionar. Tornou-se a voz dos negros e eles a adoravam”.
Max Roach (1924–2007), baterista e compositor norte-americano de jazz. ▪ Fonte: Industry Sign.
Rosa Parks sentada na parte dianteira de um ônibus em Montgomery, Alabama, 1956. A imagem foi registrada no dia em que a decisão da Suprema Corte que proibiu a segregação nos ônibus entrou em vigor. O homem sentado atrás dela é Nicholas C. Ruchemes, repórter da United Press International que cobria o evento. ▪ Fonte: Country Connection.
“Strange Fruit” foi gravada por Billie Holiday em abril de 1939, pouco tempo depois do seu lançamento no Café Society. A música foi recusada pela gravadora Columbia, que temia
Billie Holiday. ▪ Fonte: LoC.
Pelo teor de denúncia que continha, “Strange Fruit” nunca foi uma canção bem aceita nos Estados Unidos, porque, como diz David Margolick, forçava uma nação a confrontar seus impulsos sombrios; é uma música que ofende grande parte do país. O estigma de "música desconfortável" alcançava até mesmo versões instrumentais de “Strange Fruit”. Pouco tempo depois da gravação de Billie Holiday, o clarinetista Sidney Bechet gravou uma versão instrumental da canção, que ficou vários anos sem ser lançada pela gravadora RCA Victor.
A canção de Abel Meeropol tornou-se a mais emblemática obra contra o racismo nos Estados Unidos e em todo o mundo, chegando a ter a sua execução proibida na África do Sul, durante o período do apartheid.
Billie Holiday, em 1947 ▪ Fonte: LoC.
O incômodo que “Strange Fruit” provocava em certas pessoas não fez bem à “Lady Day”, o apelido pelo qual Billie Holiday era conhecida. Como ela própria afirmara em entrevista dada, em 1947, à revista Down Beat, após a sua prisão por porte de drogas: “Fiz uma porção de inimigos [...] Cantar aquilo (Strange Fruit) não me ajudou em nada.” William Dufty, o coautor de “Lady Sings The Blues”, a autobiografia de Billie, afirma que a canção só trouxe dissabores para a cantora, ao ponto de levá-la a ser investigada, na época do macarthismo, por atividades comunistas.
Billie Holiday (1915–1959), cantora norte-americana.



















