O estudo da genealogia é algo viciante. Você consegue entender a formação da elite política e social desde o tempo colonial no país em sua fase inicial. Sobretudo no Nordeste, onde os casamentos endogâmicos entre as famílias estabelecidas em Olinda, iniciada a colonização com Duarte Coelho, espalharam-se por toda a região. Diferente não foi com os descendentes da primeira elite colonial do Rio de Janeiro, conforme se
Duarte Coelho, primeiro donatário português da capitania de Pernambuco ▪️ Fonte: Wikimedia
verifica nos estudos do professor João Fragoso, da UFF, e nas árvores genealógicas. Muitos casamentos endogâmicos ocorreram entre essas famílias que se fixaram no Recôncavo da Guanabara, sobretudo porque houve uma grande quantidade de cristãos-novos, assim como no Nordeste, sendo que no Nordeste parece ter havido maior endogamia.
Meu hobby é pesquisar no FamilySearch e em outros sites de genealogia o início da nossa colonização através dessas árvores e seus descendentes. Assim, para minha surpresa, descobri famílias na Paraíba que não descendem exclusivamente do ramo genealógico luso-brasileiro que se fixou em Olinda, mas também trazem uma mescla a partir de casamentos realizados no século XVIII com descendentes da genealogia vicentina e de famílias que se estabeleceram no Rio de Janeiro com a fundação da cidade, muitos oriundos inclusive de São Vicente.
No caso da Paraíba, consegui identificar um laço com o Rio de Janeiro e alguns de seus fundadores. É assim que, no século XVIII, surge na Paraíba, na região de Areia, Ingá e Alagoa Grande, a família Cabral de Vasconcellos (sempre nome composto), que descende de um carioca, filho de um português (Cabral de Vasconcellos) e de uma descendente de Antonio de Mariz (que lutou ao lado de Estácio de Sá). Esse descendente casou com uma paraibana.
Esse Antonio de Mariz, citado por José de Alencar em sua obra O Guarani (de forma romanceada, porque muitas informações não correspondem à verdade), é antepassado comum dos ex-governadores José Américo de Almeida e Tarcísio Burity. Ainda é antepassado do grande historiador Horácio de Almeida. Todos descendem de Diogo de Mariz, filho de Antonio de Mariz e Isabel Velho (Lauriana em O Guarani). Não confundir com o ramo dos Mariz do sertão da Paraíba, que, apesar de todos terem a mesma origem medieval, não descendem de Antonio de Mariz, que teria morrido no Rio de Janeiro em 1584, após uma tocaia, conforme Gilson Santos.
Antonio de Mariz é meu décimo terceiro avô. Mas desço dele e de Isabel Velho pela filha Maria de Mariz, sem maiores ligações, portanto, com os descendentes paraibanos do referido casal.
Na Paraíba ainda verificamos descendentes do segundo governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, o Velho, que foi nomeado para suceder o primo Estácio de Sá, que morreu sem deixar descendência oficial conhecida. Salvador tem seus descendentes na Paraíba. Descendem provavelmente de Vitória, com quem tinha união
Salvador Correia de Sá, segundo governador do Rio de Janeiro ▪️ Facebook: @BrasilisRegnum
paralela, e não da sua primeira esposa, Inês de Sousa, que liderou mulheres no Rio contra a tentativa de invasão francesa no fim do século XVI, antes, portanto, de Clara Camarão em Tejucupapo. Descendem de seu neto, o também ex-governador do Rio e governador-geral de Angola Salvador Correia de Sá e Benevides, o Moço, dando origem à família Sá e Benevides. Não se confunde com outros Sás que descendem de imigrantes diretos de Portugal no século XVIII. Desce também de Salvador Correia de Sá o falecido ex-governador Tarcísio Burity.
Por enquanto, essas são as descobertas. As árvores genealógicas das famílias luso-brasileiras, tanto do núcleo vicentino como de Olinda, mostram que a elite colonial, nos primórdios da colonização, criou uma grande rede de parentesco luso-brasileiro por todo o país (no que diz respeito à elite luso-brasileira). Há sempre um parentesco comum. Essa rede de parentesco existe entre os descendentes dos primeiros portugueses que aqui se estabeleceram, principalmente cristãos-novos.