Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma
Arte: A. Bierstadt ▪ Col. particular
característica acidental da existência, ela é a própria textura, o tecido do qual é feita a trama dos dias.
Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das coisas venha da comparação entre a solidez aparente do mundo e a fragilidade real de tudo o que nele habita. As montanhas parecem eternas, mas a geologia nos ensina que elas também se erguem e se desgastam, como ondas petrificadas. As estrelas, que os antigos supunham fixas na abóbada celeste, nascem, brilham e morrem em explosões tão vastas quanto silenciosas. Se até o cosmos tem seu prazo de validade, o que dizer de nós, criaturas de passagem?
Há uma dimensão trágica nessa constatação, mas também uma beleza sutil. Os estoicos compreenderam que a consciência da finitude não deveria nos lançar no desespero, mas sim na valorização radical do presente. Marco Aurélio escrevia para si mesmo: "Você poderia viver agora a vida que pensa que viverá quando se aposentar".
Arte: A. Bierstadt, 1858 ▪ National Gallery, Washington DC
A efemeridade, vista com olhos lúcidos, é um convite à presença. Se o instante é tudo o que temos, que seja então plenamente vivido.
Os existencialistas do século XX radicalizaram essa percepção. Para Heidegger, o ser para a morte não é uma patologia, mas a condição que nos torna autênticos. É a consciência de que nossa existência é limitada que nos permite escolher, nos comprometer, dar direção à vida.
Sem o horizonte do fim, tudo seria indiferente, poderíamos adiar eternamente as decisões, como personagens de um teatro sem cortinas.
No Oriente, o pensamento budista oferece outra chave, a impermanência (anicca), é uma das três marcas da existência, ao lado do sofrimento e da ausência de um eu permanente. Mas longe de ser uma maldição, ela é precisamente o que torna possível a transformação. Se tudo fosse permanente, estaríamos condenados à repetição do mesmo. Devido a mudança continua temos a oportunidade de florescer, aprender, nos libertar.
Arte: A. Bierstadt, 1866 ▪ The Met, NY
A contemporaneidade, no entanto, vive uma relação esquizofrênica com a efemeridade. Por um lado, aceleramos o fluxo, as notícias de ontem são antigas, os produtos são descartáveis, os relacionamentos tornam-se voláteis. Por outro, tentamos desesperadamente congelar a vida em imagens, memórias digitais, registros que prometem imortalidade num disco rígido qualquer. Fotografamos a flor para que ela não murche, sem perceber que a flor murchou enquanto a fotografávamos.
Talvez o erro esteja em opor eternidade e efemeridade como se fossem inimigas. A experiência do belo, do amor, da amizade, todas elas são intensas justamente porque são passageiras.
Arte: A. Bierstadt, 1874 ▪ Dayton Art Institute, EUA
Uma felicidade eterna deixaria de ser felicidade para se tornar uma tediosa repetição. O que dá sabor ao vinho é saber que a garrafa se esvazia, o que torna precioso o encontro é saber que ele termina.
Há uma sabedoria antiga, presente em diversas tradições, que nos convida a contemplar as flores de cerejeira no Japão, tão belas, justamente porque duram apenas alguns dias. Ou a ouvir o canto do pássaro ao anoitecer, tão comovente porque o silêncio logo virá. A efemeridade não é uma falha na criação; é sua assinatura mais íntima.
No fundo, a pergunta não deveria ser "como escapar da efemeridade", mas "como habitar a efemeridade com dignidade". A resposta talvez esteja na qualidade da nossa presença. Se tudo passa, que ao menos tenhamos passado com intensidade, com amor, com a coragem de florir no meio do cimento, mesmo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, uma mão distraída nos colherá, pois as coisas duráveis são feitas de tempo que passa.