Alfredinho e Tavares eram amigos de longa data, desde quando faziam o Curso de Admissão que Dona Olga ministrava em sua garagem para ...

Alfredinho Aladim

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Alfredinho e Tavares eram amigos de longa data, desde quando faziam o Curso de Admissão que Dona Olga ministrava em sua garagem para eles e mais uma dúzia de garotos que pretendiam começar o ginásio no ano seguinte. Para quem não sabe, lá naquelas priscas eras, depois do curso primário, para se dar continuidade aos estudos, o passo seguinte era o ginásio. Só que, para essa nova etapa, tinha-se que fazer o Exame de Admissão. Foi ao se prepararem para essas provas que os dois se encontraram e ficaram, como se diz por aí, carne e unha.

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Acontece que, anos atrás, romperam essa amizade que passava de quarenta anos. Foi lá no bar de Ricardinho Alicate. Tavares estava batendo cartas em uma mesa de truco quando Alfredinho apareceu todo esbaforido.

— Tavares, vem cá!

Tavares foi. Assim que chegou perto do amigo, Alfredinho pregou-lhe um soco no nariz que espirrou sangue que não foi brincadeira. Mas por quê? É o que vou contar nas linhas seguintes.

Eram casados (não um com o outro). Tavares com Dona Helena, que era “do lar”. Esta viveu sempre para o marido e para seus três rapazes. Dois já na faculdade e o caçula servindo à Pátria no Tiro de Guerra.

Já Alfredinho juntara os panos, com bênçãos do altar e permissão dos cartórios, com Claudete, uma colega muito espevitada desde os tempos em que nele apareciam os primeiros fiapos de bigode. À época do que aqui relato, ela era funcionária concursada da prefeitura, onde exercia o cargo de secretária no Departamento de Água e Esgotos. Não tinham filhos.

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Tavares e Alfredinho tinham comércio na mesma rua. O primeiro no ramo calçadista e o segundo no de secos e molhados. Seus empreendimentos iam de vento em popa, atravessaram crises econômicas, inflação, mas sobreviveram. Tinham a bossa do comércio.

Sábado à noite, impreterivelmente, as famílias juntavam panelas. Uma semana na casa de um e, na semana seguinte, na do outro. Chamavam mais uns amigos, as respectivas patroas e crias para completarem as parcerias no truco após o jantar. Os rapazes de Tavares, vez ou outra, participavam do carteado, que era sempre acompanhado de uma cervejinha ao ponto para alegrar os contendores. Uma festa, uma celebração entre famílias e amigos.

E assim iam levando a vida. Davam-se bem todos que participavam desses encontros.

Até que, de uns tempos atrás, começaram a acontecer coisas.

Já dissemos que Claudete, quando mocetona, era espevitada que só. E assim continuou depois de casada, falante, riso solto e muito “semostradeira”. Uma “danadinha”, dizia Dona Helena, fazendo-se desentendida e usando os eufemismos que conhecia. Esses arroubos de Claudete, é importante que se diga, não afetavam a relação entre as famílias.

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Acontece que essa alegre senhora, segundo algumas línguas de trapo, andou plantando uns galhos na testa de Alfredinho e foi, acreditem, com Juca Sapateiro, um homão forte como um búfalo e que tinha sua oficina bem no quarteirão onde o casal vivia.

Ninguém ficou sabendo as razões pelas quais Juca, que era separado da mulher, mudou de cidade e transferiu seu estabelecimento para seu novo domicílio. Com isso, os boatos perderam força, mas nem por isso Alfredinho perdeu aquela fama que os leitores e leitoras sabem qual é.

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Claudete negava de pés juntos aquela relação pecaminosa. Um belo dia, para afastar as tristezas, Alfredinho resolveu passar uns dias pescando no Pantanal. Foi, mas, quando voltou, a deletéria havia pegado o beco, levado com ela tudo o que havia na casa e ido morar com aquele homem bruto, o Juca Sapateiro. Tudo de casa não levou; deixou só o tapete da sala.

Quando nosso amigo foi chorar as mágoas com Tavares, este ainda perguntou ao infeliz:

— Mas deixou só o tapete?

— Só!

Então, às escondidas, Tavares esparramou a notícia e se referia ao amigo (amigo?) como Alfredinho Aladim. Aladim, já pensaram? Ao saber quem havia carimbado o apelido, nosso camarada pegou ar e foi tomar satisfação com Tavares, que levou aquele murro nas ventas.

Depois disso, Alfredinho queimou o tapete. Mas não teve jeito, ficou com a pecha. Essa é a história de Alfredinho Aladim e de seu tapete, que de mágico não tinha nada.

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