Por esses dias, fiz cirurgia de catarata. Um olho a ver navios. No pós-cirúrgico, na salinha com outros “piratas” de um olho só, o assu...

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Por esses dias, fiz cirurgia de catarata. Um olho a ver navios. No pós-cirúrgico, na salinha com outros “piratas” de um olho só, o assunto era comida. Homens a falar de buchada e bode, e do que iriam comer depois do cristalino em forma. E eu, que não como nada disso, só falava no meu purêzinho de batatas inocente. Colírios a toda hora! Depois, tive outras mazelas, o que me fez perder os lançamentos do amigo Petrônio Souto e as novas publicações da União: Paraíba na Literatura VII; Memórias A União (Volume 2); Revista Vivências Femininas (3ª edição) e projetos da editora. Também recusei convite de André Aguiar e os lançamentos da editora Dromedrário. Reclusa e quieta estava. Agora, só a ver o nascer do sol da minha varanda e contemplar a lua cheia. Agradecer!

Mas o olho teve alta, e fui ali tomar um banho de mar. Quase na porta de casa. Sexta-feira da Paixão. Dia lindo. Pouca gente na beira-mar. O mar verde-esmeralda, transparente. Nada como essa água salgada para nos trazer de volta ao centro da nossa aparente normalidade.

Semana Santa chegou. E a minha diarista recente me ouviu falar de bredo, maxixe e quiabo e, de pronto, me trouxe sacos dessas iguarias, diretamente do roçado do pai, em Santa Rita. Que presente! Faz dois dias que como bredo no coco, a lembrar dos almoços da minha casa.

Assisti a filmes interessantes: Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. E eu chutei! Uma mulher e as suas tarefas inimagináveis, suas sobrecargas e toneladas de solidão. Uma jornada dias e noites adentro. Que filme! O título já é um soco no estômago. Direção de Mary Bronstein. 2025. Tem um buraco no meio do caminho das mães sobrecarregadas! Um rosto que corre. Uma filha sem rosto que pede e precisa. E uma solidão absurda. Uma carga de estrondos. Que vem do teto. Que vem do mar. Das ondas. E de todos os lugares. Um marido ausente, que só exige pelo telefone. Um terapeuta que não escuta. Um vizinho que não socorre. O caos doméstico de que não damos conta.

Mas teve também Memórias de um Verão (2025). O filme acompanha Sophia (Emily Matthews), uma menina de 6 ou 9 anos que passa o verão em uma pequena ilha na Finlândia com sua avó (Glenn Close), após a perda de sua mãe, num silêncio das coisas findas e a solidão diante da imensidão do vazio e do oceano.

Outro filme de tema delicado: O Último Gigante (Netflix). Um drama argentino de 2026, dirigido por Marcos Carnevale. A trama acompanha Boris, um guia turístico em Puerto Iguazú, que tem sua vida abalada após o reaparecimento de seu pai, Julián, que o abandonou há 28 anos. O filme foca na reconciliação e na cura de feridas familiares. Um homem, uma família, uma “amante”, um filho fora do casamento e o abandono. O magnífico ator Oscar Martínez, com todas as nuances da culpa e do sofrimento diante de encontros e despedidas. O encontro das duas famílias e a Garganta do Diabo. O que se engoliu, o não processado, os entalados dos não ditos. E as cachoeiras da Foz do Iguaçu. Águas intransponíveis. Mas o perdão e as transcendências da vida. O adeus inadiável. E o “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Na vida, nada é simples (Almodóvar, em *Fale com Ela*).

E, em um dos meus clubes de leitura, discutimos o livro *Afetos Ferozes*, de Vivian Gornick. Um romance sobre relacionamento mãe e filha, mas não só. Imigrantes judeus no Bronx, as memórias, as relações da protagonista com a sua mãe, com o trabalho e com os homens: “o retrato de uma sociedade e de uma era em que as mulheres começaram a se tornar protagonistas de suas próprias histórias – além de uma das mais profundas meditações sobre a experiência de ser mulher.”

E a minha neta está sendo alfabetizada. Que momento! Banguela dos dentes da frente. Com uma porteira aberta para as letras. Que maravilha essa descoberta. E agora ela só vê letra em frente. O jornal A União, quando chegou, ela ficou soletrando: “ão, ão, ão!” E, ao sentar-se para jantar, coloquei um copo americano escrito “Luz”. E ela: “L L L L L, U U U U U, Z Z Z Z Z”. E eu: “owow, minha luz querida”. Que tudo se ilumine ao seu redor. Que se abram os portais do conhecimento. Parabenizo todos os professores/as que ensinam às crianças a ler. Que tarefa difícil e transformadora! Deveriam ganhar um salário maior que os penduricalhos que os da Justiça têm.

E no Sábado de Aleluia escrevi essa crônica sem assunto, já me organizando para ir a um luau. Grupo de música e poesia, onde amigos irão brindar à prateada. Nesta semana, assisti ao vivo à missão Artemis II, que foi passear pela Lua. Não sou estatística daqueles que não acreditam que o homem foi à Lua. Mas, quando eu a contemplo, cheia e misteriosa, fico a me perguntar como é que o homem se atreveu a chegar lá e ainda não conseguiu uma forma menos primitiva de tratar canal de dente e fazer colonoscopia.

Sigamos com a lua, pois.

Com atraso, Feliz Páscoa para todos!

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