No ano de 1956, o menino de engenho José Lins do Rego chegou à Academia Brasileira de Letras, coroado como um dos grandes romancista...

Menino de engenho na Academia

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No ano de 1956, o menino de engenho José Lins do Rego chegou à Academia Brasileira de Letras, coroado como um dos grandes romancistas brasileiros. Estava com 55 anos de idade, sendo o segundo paraibano a alcançar a imortalidade acadêmica nacional. O primeiro foi Pereira da Silva, poeta e jornalista natural de Araruna.

Acho oportuno recordar a data e os acontecimentos daquele ano porque José Lins, com sua linguagem coloquial, com as raízes da terra, mostrou que, pela palavra escrita, mais do que discursos em tribunas, é possível a louvação das grandezas da alma de um povo e contribuir na sua conscientização política, social e religiosa.

Durante um cafezinho no sábado pela manhã, em um shopping na redondeza de nosso bairro, o cronista Gonzaga Rodrigues, Paulinho Rodrigues e eu compartilhamos esse acontecimento para a literatura brasileira e paraibana, que foi a posse de José Lins na Academia. Revelamos nossa ansiedade quanto às comemorações dessa data pelas instituições culturais, principalmente na Paraíba.

Em entrevista à Revista Manchete, edição de 15 de dezembro de 1956, data de sua posse, José Lins dizia que seu ingresso na Academia não era uma “abdicação” e que entrava para compor o quadro de acadêmicos sem nenhum constrangimento, mesmo que antes tivesse resistência à imortalidade acadêmica.

Na entrevista antes da posse na Academia, irreverente, o autor de *Fogo Morto* advertiu:

— “O que seria estranhável é se eu não o fosse. Pois um moço que vive pensando em Academia é porque amadureceu antes do tempo. E as frutas que amadurecem antes do tempo geralmente são bichadas”.

Apontou amigos como incentivadores para buscar lugar na Casa de Machado de Assis:

— “Sabia eu que a Academia não seria para mim a conquista de um paraíso, mas um encontro com elementos que muito sincronizavam com o meu espírito”.

Definia que a Academia, “antes de ser uma sociedade de letras, é uma sociedade de entendimento humano”.

O poeta Paulo Mendes Campos, que assinou a matéria na Revista Manchete, afirmou que o paraibano “é o homem admirável, ilha de amizade chamada José Lins do Rego”.

Agora sabemos que seus romances, que compõem o famoso Ciclo da Cana-de-Açúcar, são patrimônio da literatura.

O fardão da posse foi doado pelo governo da Paraíba, presente de seus conterrâneos. Mas o Flamengo, time de sua devoção, ofereceu um baile em sua sede social, com direito à “charanga do Flamengo”, que tocou o hino do tetracampeão:

“Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar!”

Como tira-gosto para quem não quiser consultar a revista da época, algumas frases de José Lins:

“Tenho vivido uma vida de alegrias”.

As melhores coisas da vida: “Escrever. É a minha vocação. Estar em convívio com os amigos. (Sou um homem de amigos, graças a Deus!) E sentir a presença fecunda da família”.

Os livros que impressionaram e comoveram: O Vermelho e o Negro, de Stendhal; Ana Karenina, de Tolstoi; Viagem à Minha Terra, de Garrett; Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes; Os Sertões, de Euclides da Cunha; , de Antônio Nobre; Hamlet, de Shakespeare; Quincas Borba, de Machado de Assis (para ele, o melhor de Machado); O Ateneu, de Raul Pompeia; Os Maias, de Eça de Queiroz; e Conversações com Eckermann, de Goethe.

Manoel Bandeira era seu poeta predileto, e seus amigos mais antigos eram José Américo de Almeida e Olívio Montenegro.

Importante conselho para os jovens escritores: “Escrever conforme a sua vocação. Ser o mais sincero possível com o seu temperamento, com a sua maneira de ser, com o seu coração. Não abusar de suas facilidades. Ter a consciência do dever do seu ofício”.

Na entrevista, José Lins demonstrou interesse pela poesia. Considerava os maiores poetas brasileiros aqueles que surgiram após a Semana de Arte Moderna. “É uma poesia muito forte na espontaneidade, mas forte também em sua expressão, concisa e penetrante”.

Dizia que suas maiores alegrias literárias foram o lançamento de Menino de Engenho e o artigo de louvação que o crítico literário João Ribeiro escreveu, abordando o livro de estreia do romancista que, em 1932, surgia com novo modo de fazer literatura, usando a linguagem do povo.

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