Uma colega compartilhou recentemente uma publicação na qual um internauta revela-se preocupado com o “desaparecimento gradual dos dita...

Comunicação limitada

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Uma colega compartilhou recentemente uma publicação na qual um internauta revela-se preocupado com o “desaparecimento gradual dos ditados populares entre os mais jovens” e remete à afirmação do cientista Sidarta Ribeiro de que as novas gerações estão cada vez mais literais, avessas a metáforas e à expansão da linguagem.

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Em relação a isso, Othon Moacyr Garcia, já nos anos 60 do século XX, apontava que uma das angústias de nossa época está no grau de “complexidade, na diversidade e da infidedignidade da comunicação oral ou escrita, quer entre indivíduos, quer entre grupos”. Há semanas, um garoto, Luis Bessa, 18 anos, processou o reitor da USP, após obter nota zero na redação que escreveu no vestibular da Fuvest. "Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito.” Foi eliminado porque o texto não abordou o tema definido pela frase temática (“O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”).

É possível questionar se o candidato fez isso por mera zoação e/ou para testar a banca, como fizeram alguns estudantes no Enem 2026, ao incluir trechos do hino do Palmeiras e até receita de miojo. Mas, considerando que Bessa tenha escrito visando obter um bom resultado, aponta-se para o fato de — por mais presunção que tenha um redator — de nada lhe valem artifícios retóricos, a fim de ludibriar a plateia e passar a ideia de erudição, um suposto saber. É preciso aprender a pensar,
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Foto: G. Peruzzolo
construir argumentos sustentáveis, e se valer da clareza, da precisão vocabular, da coesão e da coerência de ideias para o texto ganhar o status de um nobre tecido.

Com a excessiva velocidade das demandas contemporâneas, temos enfrentado o apagamento da memória, além de uma profusão de indivíduos pouco afeitos à reflexão, não por capricho, mas por serem, em grande medida, atravessados pela lógica da hiperconexão. Muitos revelam sentir “FOMO” – Fear of Missing Out, expressão inglesa que pode ser traduzida como “o medo de ficar de fora”.

Esse medo instaura um verdadeiro ritual de checagem constante de aplicativos, sobretudo redes sociais, produzindo um comportamento repetitivo e quase automático. A pessoa passa a sentir a necessidade de olhar o tempo todo, em busca de atualizações, validações ou pertencimento. Quando impedida de fazê-lo — em situações cotidianas como o trânsito ou momentos de espera — pode experimentar irritação, inquietação e até nervosismo, evidenciando o quanto sua atenção e seu bem-estar já se encontram capturados por essa dinâmica.

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Atrelado à ansiedade e à hiperconectividade, está o imediatismo pragmático, influenciando o que temos lido. Segundo Pedro Pacífico, conhecido como Bookster, a literatura deixou de ser vista como entretenimento. Agora, visa-se ler apenas em busca de aprendizado. Percebe-se isso na lista de livros mais vendidos, que prometem soluções milagrosas para enriquecer, ter um relacionamento perfeito, ser um líder extraordinário e ter uma rotina produtiva.

Toda essa bibliografia tem o seu valor, porém, se cairmos num mero pragmatismo, se deixarmos de lado o lúdico, estaremos fadados a não reconhecer o simbólico das metáforas, perderemos nossa capacidade de fabular e de construirmos as narrativas que nos fazem suportar a vida tão carregada pela pressa e pelo ordinário. Pelo que corremos? Por que perdemos o prazer de conversar e de escutar e, ao mesmo tempo, estamos tão necessitados de dizer, de elaborar nossos lutos e lutas diárias?

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Imagem: Shvets Prod.
O estreitamento das nossas habilidades de comunicação é um fenômeno que atinge a todos, não apenas os jovens, que constantemente são associados ao vício em telas. Crianças, adolescentes, adultos, idosos, TODOS estão excessivamente presos a essa caverna digital e perdendo demasiadamente as habilidades de real escuta, escrita, fala e, principalmente, de interpretação – de textos, de si, do mundo. O texto literário ainda é uma boia a nos salvar desse naufrágio, pois no abstrato damos concretude às nossas experiências.

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