Descemos do Capitólio ao Teatro de Marcelo, daí fomos à Igreja de Santa Maria in Cosmedin. Trata-se de trecho relativamente curto, mas com muitas informações, para o turista que o percorre e, principalmente, para o estudioso do assunto.
Praça do Capitólio, com a estátua equestre de Marco Aurélio. ▪ Foto: M. Marques Jr / A. Albertim
Como a mais alta colina de Roma, o Capitólio, que não poderia ter outro nome, senão o de uma palavra derivada de caput, cabeça em latim, foi o local escolhido para a construção do grandioso Templo de Juppiter Optimus Maximus, cujas relíquias se encontram no Museu Capitolino, em torno da praça central, projetada por Michelangelo, tendo em seu centro uma réplica da estátua equestre do imperador Marco Aurélio. A estátua original se encontra igualmente no Museu, como os restos da muralha do templo de Júpiter.
Na subida ao Capitólio, são um espetáculo à parte, ao final da cordonata capitolina, a escadaria também projetada por Michelangelo, as duas colossais estátuas dos gêmeos Castor e Pólux, os Dióscuros, literalmente, os filhos de Zeus, que o deus teve com Leda, em parceria com Tíndaro, o rei e esposo espartano de Leda, também pai de Helena, de memória eternizada nos épicos homéricos, a Ilíada e a Odisseia.
Escada de acesso ao Capitólio, com as estátuas de Castor e Pólux. ▪ Foto: M. Marques Jr / A. Albertim
Para a defesa da cidade e daquela que foi chamada de Cabeça do Mundo (Caput Mundi), o romano construiu, ao lado do Capitólio, a Arx, a fortaleza que a protegia, por proporcionar uma ampla visão sobre o vasto plano abaixo das sete colinas, sobre as quais a cidade original se edificou, descendo depois em direção ao Tibre. A antiga arx foi transformada, como quase todas as edificações romanas originais, na Igreja de Santa Maria in Aracoeli, a quase 50 metros acima do nível do mar, com seus desafiantes 130 degraus. Quem consegue vencê-los tem a melhor das visões da Praça do Capitólio e do Teatro de Marcelo.
Teatro de Marcelo, no centro histórico de Roma. ▪ Foto: I. Lee / Wikimedia
O Teatro de Marcelo está a meio caminho de nosso roteiro até Santa Maria in Cosmedin. Sobrinho de Otávio Augusto, o Princeps, primeiro entre todos os romanos, Marcelo, adotado pelo tio para ser seu sucessor, morre prematuramente, aos 19 anos (23 a. C.), em Baias, de uma doença contraída em Roma. Virgílio o homenageia na Eneida (Livro VI, na catábasis de Eneias aos infernos), por ocasião de uma leitura feita pelo poeta a Augusto e Otávia, a mãe de Marcelo, por volta de 20 a.C., que os leva às lágrimas. Augusto, então, em memória do sobrinho querido, dedica-lhe a construção
Ara Maxima de Hércules, na cripta do papa Adriano I. ▪ Foto: M. Marques Jr / A. Albertim
do imponente Teatro (13 a. C.), cuja arquitetura é precursora do Coliseu, erguido mais de 90 anos depois.
Chegamos a Santa Maria in Cosmedin, igreja construída no século VI, sobre parte do templo de Hércules, e que abriga a cripta do papa Adriano I, em seu subsolo. Antes disso, a igreja ficou conhecida como o local da Bocca della Verità e da Ara Maxima, o grande altar em homenagem ao divino Hércules.
Hércules, o maior de todos os heróis gregos, teve como um dos seus 12 trabalhos, tomar os bois do gigante Gerião, ficando, assim, seu nome sempre associado a esses animais, sobretudo por, em Roma, ter matado o bandido Caco, que lhe roubou os bois. Por esse fato, ergueu-se o templo do grande herói, perto do rio Tibre, no Forum Boarıum, o mercado dos bois, em frente ao seu altar, a Ara Maxima, espaço hoje ocupado pela Igreja de Santa Maria in Cosmedin.
Templo de Hércules, no Forum Boarium. ▪ Foto: M. Marques Jr / A. Albertim
Como se pode ver, num pequeno trajeto, na chamada Cidade Eterna, as informações históricas e míticas se misturam, tecendo um ótimo exemplo de como se constrói uma tradição. Ao mesmo tempo, verifica-se que não basta a existência de uma tradição. É mais importante reconhecê-la e saber usá-la, por ser a melhor maneira de preservá-la.