Nada mais me surpreende. Tudo o que for estabelecido pelo homem não me surpreende mais. Principalmente se esses homens estiverem g...

Água de morro acima

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Nada mais me surpreende.

Tudo o que for estabelecido pelo homem não me surpreende mais. Principalmente se esses homens estiverem georreferenciados na Praça dos Três Poderes, em Brasília. No mais, é colocar o moedor de carne a fazer linguiça de baixa qualidade para a saúde pública, com sabor questionável.

Nada mais surpreende porque o país perdeu a capacidade de sustentar consequências.

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Durval Leal Filho (à dir.) no lançamento da ONG Paraiwa ▪️ Acervo do autor
Durante 20 anos fui ONGolóide, digo, sem querer ofender ninguém, sem etarismo ou ser um identitário. Era um bullying que faziam na década de 90 a nós, dirigentes de ONG. Eu era gestor de projetos sociais e culturais no PARAIWA, em parceria com a UFPB-COEX, na extensão universitária.

Nesse decorrer, vi e percebi pessoas, digo, PESSOAS, gestores institucionais que não desejavam desenvolvimento em área nenhuma, se não LEVASSEM UM QUINHÃO para os seus pares. Como acontecia com certos grupos, “Excrotinho e os Girassóis”, que transformavam recursos públicos em círculos privados de favorecimento e corrupção.

Por um fator simples, o "establishment" político-partidário não deseja avaliar IMPACTOS de médio e/ou longo prazo. O que importa é quem está sendo comprado, o POLÍTICO, e por quanto.

A utopia da INTELIGÊNTZIA, intelectualizada e universitária, acabou em 2005, com a constatação do Mensalão e do Petrolão. De lá para cá, só conivência espúria para justificar as tramoias malsucedidas dos “companheiros”.

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O que segue é a BARBÁRIE do Judiciário comprado por empresários e banqueiros. Essa é a radiografia do atual STF, com ministros, possivelmente, envolvidos em escândalos.

Passei vinte anos desenvolvendo projetos de desenvolvimento, em parcerias com organizações sociais e convênios institucionais. Naquele ambiente, existia um vocabulário próprio. Falávamos em transformação social e buscávamos realmente melhoria da qualidade de vida de alguns.

Mas existia também uma engrenagem silenciosa, movida pela utilidade da permanência do problema. Resolver definitivamente alguma coisa criava um inconveniente administrativo, pois eliminava a necessidade do intermediador. A manutenção do financiamento público dos “S” — SESI, SENAI, SESC, SENAC, SEBRAE e similares — frequentemente reproduz essa lógica ambígua de poder compartilhado.

Produzem qualificação importante, mas também consolidam estruturas permanentes de dependência institucional, com empreguismo formal e familiar, onde a formação técnica raramente se converte em autonomia econômica regional duradoura. O sistema funciona, mas quase sempre preservando a necessidade contínua da própria engrenagem.

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Rio Paraíba ▪️ Foto: Geovani.s
Foi aí que compreendi um mecanismo recorrente. O país raramente organiza estruturas para durar. Duração exige acompanhamento, registro, comparação e responsabilidade pública. Até mesmo em ambientes que deveriam produzir conhecimento de longo prazo, percebia-se a dificuldade de medir resultados concretos e impactos permanentes.

A água talvez seja o exemplo mais brutal disso. Durante décadas, ela foi tratada como tema episódico, apesar de estruturar toda a estabilidade da vida humana. Sempre surgia acompanhada de promessas, cerimônias, soluções e espetáculos de administradores políticos. Mudavam os slogans, mas a lógica permanecia intacta: resolver parcialmente para manter o fluxo permanente da dependência.

Durante anos trabalhando para entender e contribuir para a gestão hídrica na Paraíba, através da sociedade civil organizada, percebi que o país quase nunca pensa na água como projeto de fomento e organização social. Ela aparece reduzida a recurso técnico, ativo econômico ou pauta sazonal. Pouco se discute convivência estrutural, educação hídrica ou reorganização cultural do território para gestão dos recursos.

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Fala-se muito em obra e gestão dos recursos hídricos, através da ANA — Agência Nacional de Águas —, mas negligencia-se a permanência e a educação básica. Crianças saem do ensino fundamental sem saber somar ou diminuir; imagine calcular volumes ou relacionar o consumo cotidiano (do banho ou do escovar dos dentes) ao esgotamento de mananciais por esgoto e lixo.

Nenhuma cigana previu a crise hídrica de São Paulo, de 2014 e 2015. O Sistema Cantareira entrou em colapso parcial e a população descobriu tardiamente que água não nasce da torneira.

Aprenderam o termo chamado “volume morto”, que virou expressão cotidiana, enquanto bairros conviviam com redução de pressão e interrupções silenciosas de abastecimento. A maior economia do país revelou enorme fragilidade estrutural. Durante décadas, houve expansão urbana acelerada, mas pouca educação hídrica permanente, recuperação ambiental ou planejamento preventivo consistente.

No passado, Dom Pedro II já tinha colocado os diamantes da Coroa em favor de seus súditos nordestinos. Mas, no Piauí, entre 2023 e 2024, municípios enfrentaram estiagem severa, temperaturas extremas e redução crítica de reservatórios. Em várias regiões, comunidades passaram a depender novamente de carros-pipa e distribuição irregular.

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Transposição do Rio São Francisco (Cabrobó (PE) ▪️Foto: Celso Tavares
A transposição do Rio São Francisco é fato, dessedentou muitas comunidades e animais, mas o problema é sistêmico, e faltam políticas públicas para educar para o bom uso e a conservação.

O problema não apareceu apenas pela ausência de chuva, mas pela fragilidade histórica das políticas permanentes de convivência com o semiárido. Muito se investiu em respostas emergenciais e pouco em educação hídrica, proteção de nascentes, recuperação territorial e formação comunitária continuada.

O problema se agravou porque o Brasil desaprendeu o tempo longo. Tudo passou a obedecer à velocidade do impacto imediato. A política opera por ciclos curtos, com atenção à gestão de quatro anos, preparando uma reeleição de presidente, governador e prefeitos.

A escassez contemporânea já não nasce apenas da ausência de chuva, mas da concentração tecnológica dos recursos estratégicos. Grandes empresas digitais passaram a disputar água silenciosamente para sustentar centros de processamento de dados que operam vinte e quatro horas por dia.

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Aquíferos do Arizona (EUA) ▪️ Fonte: @amwua.org
Nos Estados Unidos, regiões do Arizona e Nevada enfrentam pressão crescente sobre aquíferos, enquanto gigantes tecnológicos expandem data centers refrigerados por milhões de litros diários.

O discurso da inovação limpa raramente menciona o consumo hídrico necessário para alimentar a inteligência artificial infinita.

Existe um arbítrio quase invisível nesse processo. Enquanto populações inteiras recebem campanhas educativas para reduzir minutos de banho, conglomerados tecnológicos negociam acesso privilegiado a reservas hídricas mediante incentivos fiscais e acordos territoriais.

Em 2024, projetos de data centers no Chile e no Uruguai geraram debates públicos sobre consumo excessivo de água em regiões vulneráveis climaticamente. O problema deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se disputa geopolítica silenciosa, onde o processamento de dados começa a valer mais que a estabilidade hídrica comunitária.

No Ceará, o futuro data center associado ao TikTok reacendeu uma discussão raramente enfrentada com transparência: qual será o custo hídrico real da economia digital no semiárido nordestino. Vendido como símbolo de modernização tecnológica, o projeto exigirá elevada demanda energética e sistemas permanentes de refrigeração.

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Aquífero da ByteDance (TikTok) no Ceará ▪️ Fonte: MRT
A pergunta central é outra: qual será o impacto hídrico acumulado de grandes estruturas tecnológicas instaladas em regiões historicamente sensíveis à disponibilidade de água?

O município do Conde, na Paraíba, possui na água uma de suas maiores riquezas econômicas, sustentando lavouras de inhame, macaxeira, mamão e cana-de-açúcar. Mas o uso descontrolado dos aquíferos e o excesso de agrotóxicos começam a comprometer silenciosamente a qualidade hídrica da região. O problema é tratado apenas como produtividade imediata. Quase não existe educação ambiental permanente voltada para agricultores, escolas e comunidades.

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Fonte: Prefeitura Municipal do Conde (PB)
No fim, a água revela menos uma crise ambiental do que uma dificuldade histórica de organização social. E talvez seja exatamente isso que produz a sensação contínua de desgaste: a percepção de que quase tudo muda de aparência sem alterar o funcionamento.

Não há, no Brasil, o desejo de avaliar os impactos de médio e longo prazo. No estado, então, menos ainda. O que prevalece é o agora, a sobrevivência imediata, a urgência de manter-se em pé, mesmo quando o chão já cede.

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Fonte: @ashevillenc.gov
Como sempre digo, tristes são os miseráveis, não apenas os que morrem mais rápido, mas sobretudo os que são obrigados a viver mais tempo sob a falta, sob a espera e sob a humilhação cotidiana de não ter o mínimo para o bem-estar.

Todos morreremos, mas alguns já começam esse processo muito antes dos outros. E é aí que a água deixa de ser apenas um recurso; ela se torna o retrato mais cruel da desigualdade, porque basta que um litro tenha preço em euro, dólar ou real para que a vida revele quem pode continuar e quem apenas resiste.

O escândalo maior, porém, não está no preço da água. Está na normalização de um mundo em que até o essencial passa a ser tratado como mercadoria, enquanto a dignidade humana deixa de ser compreendida como direito e passa a ser administrada como privilégio.

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