Conta-se que foi Albert Einstein, com sua Teoria da Relatividade, quem abriu a porta da sala para embarque no tempo. Depois, veio Ki...

De Maria Boa a Eleanor

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Conta-se que foi Albert Einstein, com sua Teoria da Relatividade, quem abriu a porta da sala para embarque no tempo. Depois, veio Kip Thorne – ganhador do Prêmio Nobel de Física de 2017 – com seus “buracos de minhoca” cuja abertura requer o emprego da energia negativa oriunda de flutuações quânticas no vácuo. O pessoal do ramo dá a isso o título de “Efeito Casimir”. O colega Michio Kaku, também físico teórico, jura que a viagem
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Barak Shoshany, físico teórico e professor universitário israelense, dedicado aos estudos da relatividade geral, mecânica quântica e à viabilidade matemática das viagens no tempo. ▪ Fonte: baraksh.com
no tempo é um problema apenas de engenharia, não de física. O conceito já é provado.

Creiam: há um bom número de cientistas para tanto se esmerando em cosmologia e tempo. Querem alguns nomes? Que tal Sean Caroll, Barak Shoshany e Germain Tobar? Todos malucos, doidos de jogar pedra? Vocês não estarão sozinhos, se assim entenderem. Também penso assim. Mas a coragem de contraditá-los, com base nas minhas octogenárias e arraigadas crenças, é infinitamente maior do que meus conhecimentos da matéria, um zero absoluto, admito.

De qualquer modo, não estou interessado em tomar o bonde para o futuro. Bem ou mal, estarei nele, dia a dia, até o momento de bater as botas. Assim sendo, eu gostaria mesmo é do bilhete para o passado, coisa, todavia, não equacionada por esses estudiosos. Quase todos entendem que o passado ainda é matematicamente inacessível.

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O presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt ao lado do presidente brasileiro Getúlio Vargas, durante sua visita histórica a Natal (RN) em janeiro de 1943. O encontro selou acordos estratégicos durante a Segunda Guerra Mundial. ▪ Wikimedia
Uma pena... Bem que gostaria de estar em Parnamirim, naquele janeiro de 1943, quando eu sequer havia nascido e quando o velho Franklin Delano Roosevelt desceu do quadrimotor Douglas C-54 para o jipe de Getúlio Vargas, em manhã ensolarada. Quatro horas depois, concluía-se a “Política da Barganha”, a negociação que permitiria a instalação e a inauguração, em 1946, da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN. Tratavam eles de uma bagatela de US$ 45 milhões, em troca, também, da participação do Brasil na 2ª Grande Guerra, ao lado das tropas Aliadas, sob comando geral do Exército dos EUA.

Eu dispensaria de bom grado a presença na recepção a dona Eleanor Roosevelt, no ano seguinte, na já bem instalada Base Aérea tropical. Mas não resistiria à fila do gargarejo quando das visitas, ali, de Humphrey Bogart, Tyrone Power, Clark Gable, Orson Welles e, ainda, dos astros da música, a exemplo de Bing Crosby, Glenn Miller e Tommy Dorsey. Que timaço, não é não?

Aliás, foi por agora rever “The Glenn Miller History”, o “Música e Lágrimas” do título em português, o clássico da cinebiografia de 1954 com a vida e as obras desse legendário músico, que então anseio por uma máquina do tempo. Apressem-se, meus queridos cientistas, pois o meu tempo está por acabar, ouviram? A viagem seria curta, porquanto Parnamirim está logo ali.

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Música e Lágrimas (The Glenn Miller Story, 1954). Direção: Anthony Mann. Com James Stewart e June Allyson. Cartaz promocional do filme que reconta a trajetória do célebre músico Glenn Miller. ▪ Imdb
A nossa Carmem Miranda, em cuja cabeça Hollywood enfiou um imenso chapéu com bananas e abacaxis como parte dos esforços de guerra, também me poria à beira daqueles palcos, se para tanto me dessem uma máquina do tempo. Não sei se a transformação de Carmem ocorreu antes da criação do Zé Carioca, o personagem das histórias de quadrinhos criado por Walt Disney como parte daqueles mesmos esforços.

Carmen Miranda - Rebola a Bola /1941) ▪ YT Carmen Miranda Brasil
Quantas coisas eu perdi... E, de outro modo, continuo a perder. Neste caso, refiro-me a fontes de informação. Pois bem, prossigo com o mau hábito de não anotar, com precisão, as muitas que, nestes dias de Internet, nos chegam aos montes. Acontece que foi lendo uma coisa aqui, outra ali, que tomei conhecimento mais amplo
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da vida em Natal, a capital vizinha, nos idos da 2ª Guerra.

Eu já sabia do ingresso do biquíni em território nacional pelas portas do Rio Grande do Norte, graças às tropas em serviço na Base Aérea que Tio Sam ali montou. Juntamente com Suez, Bósforo e Gibraltar a cidade de Natal formava, àquela época, o conjunto dos quatro pontos mais estratégicos do mundo. Exibia, então, o porto e aeroporto do continente americano mais próximos daqueles conflitos.

Com Europa, Ásia e África sob bombardeio intenso e ininterrupto, Parnamirim era uma espécie de Paraíso na Terra para 10 mil soldados americanos. Conta-se que, em dias de pico, o tráfego aéreo mantinha, ali, 300 pousos e decolagens. E Natal, coladinha, logo assimilaria hábitos e costumes estrangeiros, entre eles o de uma vida noturna exuberante.

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Imagems da base aérea de Natal/Parnamirim (RN), na década de 1940. Conhecida como O Trampolim da Vitória, a base operada pelos Estados Unidos foi o ponto de partida crucial para as aeronaves aliadas que cruzavam o Atlântico Sul em direção ao front na África e Europa durante a Segunda Guerra Mundial. ▪ Imagens: FAB + US Air Force
Pois bem, em princípios de 1940, a campinense Maria Boa, “a Primeira Dama das noites natalenses”, tirava enorme proveito dos recém-chegados e de seus dólares. Neste caso, para a insatisfação dos boêmios nativos, estes últimos com dinheiro mais curto e menor poder de compra dos favores das moças escaladas pelo cabaré dirigido com pulso de ferro.

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Maria de Oliveira Barros (1920–1997), a Maria Boa, natural de Campina Grande tornou-se uma das figuras mais marcantes da história social de Natal, Rio Grande do Norte. Com grande tino empresarial e carisma, seu estabelecimento tornou-se o ponto de encontro de oficiais aliados durante a Segunda Guerra Mundial, além de intelectuais e políticos, consolidando seu nome na memória cultural da região.
Em reconhecimento aos bons serviços prestados à enorme clientela, Maria Boa teve o nome pintado na fuselagem de um dos temidos B-25, o avião que fazia estragos nas tropas de Hitler, Mussolini e Hiroíto.

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Durante recente passeio pela Internet, tive a atenção voltada para o que informa, em antiga edição, o “Viver Natal”, blog ligado às Secretarias Municipais de Comunicação e do Turismo. E, assim, anoto outras curiosidades. Deméritos à parte, os natalenses foram os primeiros brasileiros a mastigar chicletes. E foram os primeiros a usar óculos Ray-Ban. Imaginem, agora, quem por aqui tomou as primeiras Coca-Colas. Ah, como eu gostaria de presenciar aquilo tudo, desde Maria Boa até Dona Eleanor...

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Rua Dr. Barata, bairro da Ribeira, Natal, na década de 1940: o registro capta a movimentação e a elegância no coração comercial e cultural da capital potiguar durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Em destaque, pedestres vestindo os tradicionais ternos claros e chapéus da época, ladeados pelo prédio do jornal A Ordem (à esquerda) e pela fachada da Alfaiataria Gouveia (à direita). ▪ Fonte: ANPR
Voltando à CSN, é preciso lembrar que foi moeda de troca geopolítica, divisor de águas da história econômica do Brasil, marco da transição de um país agrário e exportador de cacau, café e açúcar para uma nação que logo se industrializaria. O aço ali produzido foi o combustível para nossos planos de modernização fabril e econômica, para o florescimento da indústria naval e automobilística e a expansão nacional dos bens de consumo. A CSN, funcionando como escola de engenharia e metalurgia, atraiu e formou operários especializados e os primeiros quadros técnicos de larga expressão no País. Com ela o Estado brasileiro assumiu o papel de investidor nos setores estratégicos nacionais. Por essas e por outras, acho que fizemos uma boa troca.

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