Acordo mas não inteiramente Há ainda um resto de mim que insiste em dormir dentro do que sou Abro os olhos como quem abre uma fre...

Entre o sono e o sonho

poesia tatui sao paulo cristina siqueira
Acordo mas não inteiramente Há ainda um resto de mim que insiste em dormir dentro do que sou Abro os olhos como quem abre uma fresta e por ela escapa uma poeira de pensamentos, plumas que não sei se são minhas ou se me vestem Dentro da cabeça uma sala fechada As frases andam devagar como se tivessem peso como se pensar fosse um gesto cansado E no entanto alguma coisa me chama Com as mãos ainda indecisas tento tocar o ar como se pudesse colher dele uma palavra viva Mas a palavra não se deixa Ela acontece Sintonizo o invisível E então, sem aviso uma lembrança de amor se abre mas vem ferida Toda lembrança de amor traz em si o seu fim como um segredo mal guardado Sinto o que já senti E isso me toma de novo como se o tempo não fosse senão um lugar onde tudo insiste Perco o que nunca tive por inteiro E o desejo esse corpo sem forma se espreguiça dentro de mim como um animal antigo que não aprende a morrer Não sei para onde vou Mas ir já me acontece O verbo me leva Eu apenas sigo com esse sentido solto que às vezes me sustenta às vezes me dissolve. Descubro, com um certo espanto: não há fora O fora é uma invenção para suportar o dentro Porque tudo tudo acontece em mim Até o mundo Um pensamento acende e já se perde Um acorde sem acordo E nesse desencontro delicado entre pensar, sentir, escrever e existir algo escorre — sou eu? Os dedos deslizam como se soubessem mais do que eu Respiro. E o ar me escreve por dentro Um suspiro fica preso naquilo que não termino Sonho e saudade são talvez a mesma coisa vista de lados diferentes do tempo Levanto O quarto está limpo como se a noite não tivesse acontecido Mas eu sei — os sonhos não vão embora. Eles apenas se escondem no que passo a ser O galo anuncia o dia como quem rompe um véu Piso no chão frio e o corpo lembra que existe A água quente me devolve à superfície Mas ainda há em mim uma zona de névoa onde nada precisa fazer sentido Lá fora, o céu é de um azul quase distraído As nuvens passam como pensamentos que não se fixam Imagino a luz antes mesmo de vê-la E começo a organizar o dia como quem tenta organizar o infinito em pequenas gavetas possíveis Um fio me puxa — e eu obedeço. noblesse oblige Há gestos que me sustentam: lavar os cabelos, escolher a roupa, pintar as unhas — nunca amarelo, como se o amarelo fosse um excesso de alegria que não cabe agora A leveza é um pacto Mas as dúvidas essas não se vestem Elas moram Mergulho no chá como quem aceita, por um instante, não saber E então me vejo não inteira, mas suficiente: concubina de uma história que não domino, mas que me escolhe do amantíssimo verbo querer Querer é o que me mantém Estendo o desejo como quem estende o corpo ao sol sem saber se haverá calor E acima de mim, pendem ideias vastas, quase impossíveis projetos jupiterianos balançando no alto da consciência como lustres acesos de uma Casa Cor interior E eu abaixo deles, pequena, e imensa, sustentando o dia com o que ainda não sei dizer.

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