Acordo mas não inteiramente
Há ainda um resto de mim que insiste em dormir dentro do que sou
Abro os olhos como quem abre uma fresta
e por ela escapa uma poeira de pensamentos,
plumas que não sei se são minhas
ou se me vestem
Dentro da cabeça
uma sala fechada
As frases andam devagar
como se tivessem peso
como se pensar fosse um gesto cansado
E no entanto
alguma coisa me chama
Com as mãos ainda indecisas
tento tocar o ar
como se pudesse colher dele
uma palavra viva
Mas a palavra não se deixa
Ela acontece
Sintonizo o invisível
E então, sem aviso
uma lembrança de amor se abre
mas vem ferida
Toda lembrança de amor
traz em si o seu fim
como um segredo mal guardado
Sinto o que já senti
E isso me toma de novo
como se o tempo não fosse
senão um lugar onde tudo insiste
Perco o que nunca tive por inteiro
E o desejo
esse corpo sem forma
se espreguiça dentro de mim
como um animal antigo
que não aprende a morrer
Não sei para onde vou
Mas ir já me acontece
O verbo me leva
Eu apenas sigo
com esse sentido solto
que às vezes me sustenta
às vezes me dissolve.
Descubro, com um certo espanto:
não há fora
O fora é uma invenção
para suportar o dentro
Porque tudo
tudo
acontece em mim
Até o mundo
Um pensamento acende
e já se perde
Um acorde sem acordo
E nesse desencontro delicado
entre pensar, sentir, escrever e existir
algo escorre
— sou eu?
Os dedos deslizam
como se soubessem mais do que eu
Respiro.
E o ar me escreve por dentro
Um suspiro fica preso
naquilo que não termino
Sonho e saudade
são talvez a mesma coisa
vista de lados diferentes do tempo
Levanto
O quarto está limpo
como se a noite não tivesse acontecido
Mas eu sei — os sonhos não vão embora.
Eles apenas se escondem
no que passo a ser
O galo anuncia o dia
como quem rompe um véu
Piso no chão frio
e o corpo lembra que existe
A água quente
me devolve à superfície
Mas ainda há em mim
uma zona de névoa
onde nada precisa fazer sentido
Lá fora,
o céu é de um azul quase distraído
As nuvens passam
como pensamentos que não se fixam
Imagino a luz
antes mesmo de vê-la
E começo a organizar o dia
como quem tenta organizar o infinito
em pequenas gavetas possíveis
Um fio me puxa — e eu obedeço.
noblesse oblige
Há gestos que me sustentam:
lavar os cabelos,
escolher a roupa,
pintar as unhas — nunca amarelo,
como se o amarelo fosse um excesso de alegria que não cabe agora
A leveza é um pacto
Mas as dúvidas
essas não se vestem
Elas moram
Mergulho no chá
como quem aceita, por um instante,
não saber
E então me vejo
não inteira,
mas suficiente:
concubina de uma história
que não domino,
mas que me escolhe
do amantíssimo verbo querer
Querer é o que me mantém
Estendo o desejo
como quem estende o corpo ao sol
sem saber se haverá calor
E acima de mim,
pendem ideias vastas,
quase impossíveis
projetos jupiterianos
balançando no alto da consciência
como lustres acesos
de uma Casa Cor
interior
E eu abaixo deles,
pequena,
e imensa,
sustentando o dia
com o que ainda não sei dizer.
22.7.26
Acordo mas não inteiramente Há ainda um resto de mim que insiste em dormir dentro do que sou Abro os olhos como quem abre uma fre...
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