Não constitui nenhuma novidade afirmar que o teatro de Anchieta é doutrinário, o que significa dizer que a literatura não é utilizada ...

José de Anchieta e o Auto de São Lourenço (Conclusão)

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Não constitui nenhuma novidade afirmar que o teatro de Anchieta é doutrinário, o que significa dizer que a literatura não é utilizada como um fim em si mesma, mas como meio para atingir uma finalidade, no caso, a catequese. Das várias peças produzidas por Anchieta com esse intuito, destaca-se o Auto de São Lourenço (Teatro; seleção e tradução de Eduardo Navarro,
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São Paulo, Martins Fontes, 1999), encenado em 1587, na aldeia do mesmo nome, que viria a ser Niterói. O motivo do destaque talvez se encontre, não na qualidade artística da peça, mas no fato de que ela constitui o maior documento em língua tupi do século XVI: dentre os seus 1493 versos, 875 deles são escritos na língua indígena. Ressalte-se que a peça Na aldeia de Guaraparim, toda escrita em tupi, tem 805 versos. Preferimos, no entanto, atribuir a repercussão do Auto de São Lourenço ao fato de que Anchieta retoma o episódio histórico da França Antártica, já narrado no poema épico a Mem de Sá, a que já nos referimos, de modo a reforçar a necessidade de negar, em nome do catolicismo, seja o protestantismo dos franceses, seja o paganismo indígena, seja, ainda, a aliança dos índios com os franceses, vista como diabólica.

Trata-se de uma peça trilíngue, majoritariamente em tupi, além de partes em espanhol e português, cuja principal destinação é o índio e, em seguida, o colono. Estruturado em 5 atos, o Auto de São Lourenço apresenta vários personagens, que na realidade são mais falas e, por vezes, falas alegóricas, do que personagens: São Lourenço, São Sebastião, Anjo da Guarda,
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Guaixará, Aimbirê, Saravaia, Tataurana, Urubu, Jaguaruçu, Caburé, Décio, Valeriano, O Amor de Deus, O Temor de Deus, Coro de Crianças.

Com um enredo doutrinário, à primeira vista simples, a peça retoma a tentativa dos franceses de dominar o Brasil, em 1555, começando pelo Rio de Janeiro, para a fundação da França Antártica, sob o comando de Nicolas Durand de Villegagnon. O rei dos diabos, Guaixará, com seus vassalos, Aimbirê e Saravaia, quer dominar a vila de São Lourenço, corrompendo os índios, seus habitantes. São Lourenço, protetor da vila, e São Sebastião a defendem, condenam os vícios, aprisionam os diabos e seus comparsas, e os obrigam a punir Décio e Valeriano, os responsáveis pelo martírio de São Lourenço. Em seguida à punição dos dois representantes do paganismo romano, perseguidores do cristianismo, aparecem os anjos Amor de Deus e Temor de Deus, fazendo uma prédica aos pecadores, encarnando os dois grandes atributos de Deus e apontando-lhes o caminho da salvação, que é a conversão das almas.

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O primeiro ato revela São Lourenço, paradigma da fé em Deus. Martirizado e morto pelo império romano, no século III a. D., quando Valeriano era Censor do imperador Décio (ano 258), São Lourenço era diácono do papa Xisto II. Seu martírio – chicoteado, escorchado e assado vivo – torna-se uma exaltação a Deus e a prova máxima de sua fé, cujo ardor supera o das brasas da fogueira que o queima (veja-se também o poema “São Lourenço sobre as brasas”, em Poemas; organização e tradução de Eduardo Navarro, São Paulo, Martins Fontes, 1997). Revelado como o símbolo maior da fé católica, São Lourenço encarna, ao mesmo tempo, a essência do dogma cristão: se Jesus sacrificou-se por
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amor aos homens, é justo que os homens se sacrifiquem por amor a Jesus.

No segundo ato dá-se o combate do Bem contra o Mal. Construído de forma maniqueísta, o teatro de José de Anchieta opõe, tout court, o bem ao mal, como uma maneira de ressaltar a vitória do bem para aqueles que seguem a lei de Deus. O bem é representado por São Lourenço, São Sebastião e pelo Anjo da Guarda, protetores da vila indígena. O mal será representado pelos diabos Guaixará, Aimbirê e Saravaia, alegoria dos vícios combatidos pelos jesuítas. Guaixará se apresenta como “o diabão assado” (xe anhang-usú- mixyra), muito afamado, cujo desejo é a destruição do vilarejo indígena com a disseminação dos vícios: beber cauim (caouïner, segundo o neologismo criado por Jean de Léry), guerrear, dançar, enfeitar-se (emplumar-se, tingir-se de vermelho e preto), fumar, curandeirar, enraivecer-se, praticar a antropofagia e a mancebia, entregar-se à sensualidade, prostituir-se. Para tanto, Guaixará apresenta seu auxiliar, Aimbirê, como “o chefão que arde comigo”, “O pervertedor dos índios”, que, afastando os jesuítas e a lei de Deus, vai encher de vícios os corações indígenas, sobretudo o dos Temiminós, que contam com a proteção de São Lourenço e de São Sebastião.

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Guaixará se apresenta ele próprio a São Lourenço como “comedor de gente” (mor-û-ara), “queimador de gente” (moro-apy-ara) e “diabo trucidador de gente” (anhanga mor-apiti-ara). Aimbirê, de sua parte, complementa seu retrato revelando-se “o grande Tamoio Aimbirê” (xe tamui-usu Aimbirê), “um diabo esquentador de gente” (xe anhanga moro-pé!).

Fazendo um contraponto aos vícios, São Lourenço prega o arrependimento, a confissão, e a comunhão como os únicos remédios capazes de curar o pecador (v. 431-440):

Existe a confissão, remédio portador da cura. As doenças da alma do homem com ela saram bem; em seguida a ela, a comunhão. Após arrependerem-se de seu procedimento, os índios vão confessar-se, dizendo: “– Hei de ser bom.” Benze-os o padre, aplacando bem a Deus.
O que leva a uma réplica irônica de Guaixará (v. 441-445):

— Por serem sem pecados confessam-se muito! Enfim, os moços seus muitos maus procedimentos escondem, calando-os.
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Com a prisão dos diabos, São Sebastião destrói os Tamoios. É a alegoria do Rio de Janeiro, vencedor da aliança indígena – a Confederação dos Tamoios – e dos franceses de Villegagnon, pelas ações heroicas de Mem de Sá e de seu sobrinho Estácio de Sá (1560-1567), com a consequente fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (20 de janeiro de 1567), e a implantação do catolicismo (v. 600-619):

São Sebastião também, O que cuidava das guerras, Os tamoios, os valentes, Destruiu; Não existem mais absolutamente suas antigas terras. Todas – Paranapucu, Jacutinga, Moroí, Sarigueia, Guiriri, Pindoba, Pariguaçu, Curuçá, Miapeí, A tapera de Jabebiras – Desde então não contêm mais muita coisa. Renderam-se seus defensores; Lado a lado seus cadáveres, Ao longo do mar estavam. Seus amigos, os franceses, Pólvora trouxeram em vão; Foram terríveis contra os malditos As flechas de São Sebastião, Junto de São Lourenço também.
São Sebastião, como alegoria do Rio de Janeiro, é tratado, em pelo menos dois momentos, de Bastião pelos demônios. O termo ambíguo, não só se refere ao hipocorístico do santo, tendo também o significado de defesa e proteção. Martirizado na época de Diocleciano (286 a. D.) a flechadas, Anchieta usa a história do santo de modo ambíguo, nos versos 612-613 (foram terríveis contra os malditos/as flechas de São Sebastião). Tal como a morte na fogueira simboliza a fé de São Lourenço, as flechas são símbolo da fé de São Sebastião e representam a reação da cidade ao invasor. A fé católica, representada pelos dois santos, vence, enfim, o paganismo indígena, e a ameaça maior, o protestantismo francês, que poderia, diante da aliança existente, convertê-los ao calvinismo (veja-se o poema,
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“Monólogo de ingratidão ou Arrenego de Calvino”, em Poemas, 1997). É preciso ter em mente que os vencedores são Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá. Aquele já havia sido cantado como o enviado de Deus, para implantação da fé católica, no poema De gestis Mendi de Saa, em 1563, que trata mais detalhadamente do episódio da França Antártica.

No terceiro ato, Aimbirê e Saravaia são enviados com a missão de afogar Décio e Valeriano, por causa de seus pecados. Combater o paganismo clássico dos poderosos imperadores romanos é a metáfora, para combater o paganismo indígena. A mensagem parece muito clara: se podemos subjugar os mais fortes, podemos subjugar os mais fracos. A antropofagia de Décio e Valeriano praticada pelos diabos é um modo de condenar a antropofagia ritual dos índios. Quer dizer, quem pratica o mal será devorado por esse mesmo mal, por todos os séculos (v. 734-1098):

Saravaia: Quem devoraremos primeiro? Aimbirê: Os antigos inimigos de São Lourenço. Mudarei de nome hoje, por causa deles. Que sejam muitos meus nomes. Saravaia: Tatuarana, traze aqui tua muçurana! Urubu, Jaguaruçu, a ingapema também trazei! Caburé, vem correndo para que comamos os inimigos! Jaguaruçu: Eis aqui também a ingapema pintada, para que arrebente a cabeça dos malditos. Seus miolos hei de comer. Eu sou um guará-guaçu, uma onça. Eu sou um jaguareté comedor de gente! Aimbirê: Vinde, levai os malditos, erguendo-os, para sapecá-los em nosso fogo, moquando-os, embrulhando-os, tostando-os bem, assando-os, cozendo-os, derretendo-os. Saravaia: Oh, eu sou o assassino, causa do temor aos pecados, mesmo dos reis. Arranco-me o nome por causa dos malditos; meu nome é “Sapo Achatado!” Como a esses, matarei os que costumam pecar, em meu fogo fazendo-os cair comigo: homens, velhas, mulheres, sempre serão minhas presas, Levando-os, comendo-os todos.
Décio e Valeriano são afogados, depois queimados, para receberem o mesmo martírio que impuseram a São Lourenço, e, em seguida, serão comidos. Aqui é que se instaura a condenação à antropofagia. As alusões à prática são claras: a muçurana, que amarrava o prisioneiro pelo pescoço e pela cintura; a ingapema ou ibirapema, para abrir-lhe a cabeça; a cata dos miolos pelas mulheres e crianças da tribo, para fazer o pirão a ser comido; o moquém que se fazia da carne, para conservá-la; a mudança de nome, que o matador assumia, etc. Quem pratica tal ritual será devorado eternamente no inferno pelos diabos. Saravaia diz mudar
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o nome para Sapo Achatado, em tupi Kururupeba, nome do chefe tamoio, aprisionado por Mem de Sá, e condenado pela prática da antropofagia.

No quarto ato, o Temor de Deus e o Amor de Deus dão o seu testemunho da fé de São Lourenço. Na verdade, os dois anjos são menos personagens do que falas alegóricas do temor e do amor de Deus, as duas qualidades que o crente deve ter para atingir uma vida sem pecados (veja-se o poema “Sermão do Temor de Deus ao povo”, em Poemas, 1997). Trata-se do ato mais elaborado, seja do ponto de vista estilístico – antíteses e paradoxos são frequentes –, seja do ponto de vista formal – utilização da glosa heptassilábica –, seja pela concepção doutrinária, destinada a tocar profundamente o pecado pelo temor e pelo amor de Deus.

A alegoria do Temor de Deus não poderia ser mais terrificante. O infeliz pecador é condenado a queimar eternamente no fogo do inferno. O Temor de Deus é que leva esta mensagem de advertência ao pecador, tratado como desventurado, traidor, insensível, perdido, mofino, louco, malvado e cego. Os paradoxos se unem às antíteses como elementos que enriquecem o estilo, para mostrar a contradição do homem cegado pelo pecado, em meio à luz divina que poderá salvá-lo:

Pena sem fim dar-te-ão, Nos fogos infernais, Teus deleites sensuais. Teus tormentos dobrarão E tuas feridas mortais. Oh, perdido! Ali serás consumido, Sem nunca te consumir. Ali, vida sem viver, Ali, choro e grande aulido, Ali, morte sem morrer. Pranto será o teu rir, Teu comer, fome muito feroz, Teu beber, sede sem limite, Teu sono, nunca dormir, Tudo isto já te espera. Não peques mais contra aquele Que te ofereceu vida e luz Com sua morte tão cruel, Bebendo vinagre e fel, Na árvore da cruz. Tu o ofendes, ele te ama. Ele cega para te dar luz. Tu, mau, pisas a cruz, Aquela tão dura cama, Na qual morreu Jesus! Teme a Deus, juiz tremendo Nesta hora final, Só com Jesus vivendo, Pois deu sua vida, morrendo, Para que tua morte morra.
Assim, apesar da essência maniqueísta, Anchieta anuncia o dilema barroco, traduzido, por exemplo, na frase “morro porque não morro”.

Em contrapartida, o Amor de Deus é o mensageiro da bondade divina. Se Deus pune severamente o pecador, ele o recebe com doçura, desde que se arrependa. E agora as imagens não são mais de um fogo sempiterno do inferno, que queimará sem trégua a alma do pecador, mas as imagens hiperbólicas de “um abismo de fartura,/ que nunca será esgotado”, “uma fonte viva e pura”, “um rio de doçura”.

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No quinto ato, a dança e a celebração das 12 crianças (curumins), que seguem São Lourenço, simbolizam os doze apóstolos, numa alegoria da conversão e da catequese. Sabe-se que os jesuítas tiveram muito trabalho com a catequese do adulto, que rapidamente tornava às suas práticas habituais. A catequese das crianças é o meio encontrado pelos jesuítas para ajudar na conversão dos adultos.

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O Auto de São Lourenço parte, pois, da apresentação da fé inabalável para a condenação dos vícios, passando pela punição dos pecadores, de modo a atingir a pregação religiosa. Inserido no contexto das lutas religiosas, o padre José de Anchieta procura ressaltar a fé católica, tomando como contraponto o protestantismo, então considerado perigosa heresia. Na concepção vigente da Contrarreforma, não se tratava apenas de catequizar o índio, mas, sobretudo de livrar o Brasil do perigo que representavam Villegagnon e os franceses calvinistas, que com ele vieram ou que depois chegaram com Jean de Léry. Lido junto com o que consideramos o início do fato literário no Brasil, o poema épico a Mem de Sá, o Auto de São Lourenço é a reafirmação de uma américa ibérica, jesuítica e contrarreformista.

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